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Sacudir bebês pode causar traumas e até levar à morte

Campanha lançada no Brasil conscientiza sobre o perigo de chacoalhar crianças; a Síndrome do Bebê Sacudido frequentemente tem origem na violência doméstica

  • Thays Puzzi - especial para o JL
  • 01/03/2010

Chacoalhar um bebê que não para de chorar ou brincadeiras simples como lançar a criança para cima ou rodopiá-la segurando-a pelas mãos, podem ser atitudes comuns no dia-a-dia de uma família. O que muitos não sabem é que atos como estes podem trazer danos irreversíveis para a vida de uma criança. Conhecida como Síndrome do Bebê Sacudido (SBS), especialistas afirmam que reações bruscas por parte daqueles que cuidam da criança podem provocar traumas neurológicos, cegueira e até a morte.

De acordo com o pediatra Renato Mikio Moriya, a síndrome está ligada a violência física, normalmente doméstica. “A grande maioria das vezes o agressor é o pai, seguido do namorado da mãe e da babá e, por último, a própria mãe.” Ele, que também é coordenador da Comissão Municipal Interinstitucional de Enfrentamento à Violência Contra Crianças e Adolescentes, conta que o principal motivo que leva a tal atitude é o choro do bebê. “Quando a criança chora e, de repente, tem um adulto descontrolado, irritado, que não consegue fazê-la parar, ou em casos de punição, este adulto dá uma chacoalhada e neste ato ele extrapola um pouco e acaba causando lesões sérias no bebê”, relata.

De acordo com o pediatra, este problema acomete, normalmente, crianças até os 2 anos de idade, mas ocorrem principalmente durante os primeiros seis meses de vida. Isso porque o organismo da criança ainda está em formação. “O cérebro do bebê está em desenvolvimento e existe um espaço entre a calota craniana e o cérebro em si, além da fragilidade dos músculos do pescoço e da coluna cervical. Outra preocupação é com o Sistema Nervoso Central, que ainda não está totalmente formado.”

Todos estes fatores, segundo Moriya, causam o movimento de vai-e-vem com a cabeça, similar ao provocado durante uma batida de carro. Movimento que gera traumas do cérebro contra o crânio. “Há tipo um ricochete do cérebro em relação ao crânio que chacoalha lá dentro. Isso pode causar rompimento de vasos da retina, irritabilidade, convulsão e até a morte”, ressalta. Conforme o pediatra, 30% dos casos em que isso ocorre acabam em óbito, 50% em sequelas que perduram a vida toda e entre 20% e 30% dos casos podem resultar em problemas de comportamento e aprendizado. “O diagnóstico não é simples porque, muitas vezes, os pais ocultam, ou a violência não é tão grande e o bebê não sofre tantas consequências e isso passa despercebido pelos médicos.”

Mas se o médico detectar um comprometimento no Sistema Nervoso Central sem nenhuma lesão externa que tenha causado lesões no cérebro, como inchaço ou hemorragia na retina, Moriya salienta que provavelmente o bebê tenha sofrido a Síndrome do Bebê Sacudido. “Isto também pode vir acompanhado de traumas em outros locais, como pescoço, lesão externa na cabeça, no braço e na coluna, dependendo da intensidade do ‘chacoalhão’”.

Casos graves não são comuns

Traumas em crianças são frequentes, afirma o pediatra Renato Mikio Moriya, contudo casos graves ocorrem em uma porcentagem pequena e são mais comuns em acidentes automobilísticos ou em quedas de grandes alturas. “Ainda não temos estatísticas da síndrome. Apesar de parecer recente ela foi descrita em 1972, mas a população não conhece este processo.” O médico ainda relata que, muitas vezes, a agressão não acontece e o problema se dá em brincadeiras, como rodopios. “Ou mesmo quando a criança engasga e a família não sabe como proceder e acaba sacudindo o bebê sem saber que isso pode causar um problema ainda maior”, alerta. (T.P.)

Síndrome prejudica o desenvolvimento da criança

De acordo com a psicoterapeuta especialista em análise do comportamento, Mariana Amaral, a Síndrome do Bebê Sacudido pode trazer inúmeras dificuldades para o desenvolvimento da criança. “Uma lesão no cérebro pode acarretar problemas com a fala, dificuldades motoras, de comunicação, de raciocínio e de aprendizagem. Contudo, é difícil saber se para o bebê há danos psicológicos. Mas se a síndrome for caracterizada como agressão e isso for frequente, este desajuste familiar pode, sim, trazer consequências psicológicas sérias para a criança.”

Conforme Mariana, existem inúmeras formas de acalmar o bebê. O choro é a forma que a criança tem de se comunicar e é importante para os pais saberem identificar o que este choro quer dizer. O primeiro passo, segundo a psicoterapeuta, é verificar o motivo do choro e investigar se este provém de necessidades fisiológicas, como fome, sede, calor ou frio e se a fralda está suja.

Se o choro não tiver origem em nenhuma dessas causas, Mariana recomenda um banho, distrair a criança com um brinquedo, fazer massagem, conversar ou segurar o bebê contra o peito. Estas são demonstrações de carinho que acalmam o bebê. “São coisas simples do dia-a-dia. O bebê conversar é importante.”

Para a especialista, é preciso conscientizar os pais sobre a síndrome. “Existem pais que não percebem o quanto o bebê é sensível e, às vezes, em uma sacudida como forma de punição, não imaginam as consequências que isso pode trazer para a vida da criança”, salienta a psicoterapeuta, que ainda afirma: “Caso o choro do bebê não cesse, é preciso consultar o pediatra.”

E é exatamente isso que Josiane Rosa Stucu de Oliveira faz quando seu filho, Vinícius, de 1 ano de idade, começa a apresentar um choro excessivo. “Se ele persistir, eu procuro saber a opinião de um médico, mas eu já sei que muitas vezes é manha.” Josiane conta que Vinícius é uma criança bastante nervosa e sempre faz birra quando quer alguma coisa que não pode. Mas a mãe é categórica e afirma que deixa o filho chorando e ignora até que ele canse. “Na maioria das vezes, quando ele percebe que eu ignoro o choro, ele para. Eu nunca o sacudi, mas meus pais volta e meia brincam de jogá-lo para cima, mas sempre com muito cuidado.”

Campanha objetiva a conscientização

Em novembro do ano passado foi lançada no Brasil uma campanha que teve início na Austrália e tem por objetivo conscientizar pais, mães, cuidadores e profissionais sobre os riscos de sacudir um bebê. De acordo com a coordenadora da campanha e psicóloga do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência da Universidade Federal de São Carlos (Laprev), Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams, a campanha foi lançada em São Paulo por um grupo interdisciplinar de profissionais interessados na prevenção da violência contra a criança.

“Jamais podemos sacudir um bebê, em hipótese alguma. Pedir ajuda quando estiver cuidando do bebê e o choro deste estiver deixando o cuidador nervoso é preciso consultar pediatra e aprender estratégias para enfrentar o choro do bebê com calma”, orienta. No site Youtube (www.youtube.com) está disponível o vídeo “Mesmo que você esteja com raiva, não marque bobeira, sacudir o bebê é a maior asneira”. O vídeo traz informações sobre os cuidados que devem ser tomados quando a criança chora muito.

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