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Ato falho revela segredos inconfessáveis da mente

Mais do que um pequeno equívoco, as palavras que “saíram” erradas em momentos inoportunos são vistas pela psicanálise como indícios do que se passa no inconsciente

01/12/2008 | 21:22 Juliana Gonçalves - Especial para o JL

Quem nunca trocou o nome de alguém ou disse uma palavra querendo dizer outra? São os chamados atos falhos, que, segundo especialistas, acontecem com todo mundo. Apesar de parecerem simples distrações ou erros comuns, na verdade, o ato falho diz muito sobre o que está no inconsciente das pessoas.

Na psicanálise, o ato falho tem um significado psíquico pleno e revela muito mais do que se possa supor superficialmente. “É uma ferramenta que a psicanálise utiliza como porta de acesso ao inconsciente do ser humano. São fragmentos do que está guardado no inconsciente e que escapam em algum momento, através de palavras ou gestos”, explica o psicanalista Ailton Bastos.

Geralmente, são incidentes insignificantes, como erros de expressão, de escrita, de leitura ou de audição, esquecimento de palavras, perdas incompreensíveis de objetos familiares. Muitas pessoas explicam os atos falhos como falta de atenção, acaso, cansaço. No entanto, para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, os atos falhos são expressões de intenções omitidas ou resultado de um confronto entre duas intenções, uma delas inconsciente.

Para a psicanálise, o acaso não existe. Nos procedimentos mentais não existem meros acidentes. O pensamento aparentemente mais sem sentido, o lapso mais casual, o sonho mais fantástico possuem um significado que pode servir para desvendar os segredos da mente. “As decisões são sempre tomadas por conta de experiências vividas. O inconsciente é feito de fatos e afetos e quando algum fragmento escapa dali é por algum motivo”, garante.

Em um ambiente de trabalho, por exemplo, quando uma nova secretária é contratada, alguém, em algum momento, vai chamá-la pelo nome da antiga secretária. “Isso não quer dizer que as pessoas gostavam mais da antiga. Quer dizer que o inconsciente, por algum motivo, fez uma associação da situação atual com a lembrança da outra”, exemplifica Bastos. Segundo ele, através de métodos analíticos da psicanálise, é possível conhecer o significado desses atos falhos que, para o indivíduo, é desconhecido. “A pessoa, muitas vezes, nem percebe que cometeu um ato falho e, se percebe, não entende porque fez”.

Assim como os atos falhos, os sonhos também têm significados para a psicanálise e estes dois elementos, unidos ao método da associação livre, permitem entender a causa de distúrbios emocionais. ”A associação livre é o método terapêutico por excelência da psicanálise, em que o paciente fala tudo que lhe vem à mente. Ao falar, surgem sentimentos e memórias reprimidas”, explica Bastos.

Os sintomas desses distúrbios podem desaparecer se o paciente conseguir expressar emoções reprimidas que lhe impedem de lidar com uma vida normal. “Não se trata ato falho porque ele não é um problema, é apenas uma manifestação do inconsciente. O maior prejuízo que pode causar à pessoa é uma saia justa”, garante Bastos.

Falha pode acontecer com qualquer pessoa

Casos curiosos de atos falhos não faltam no cotidiano das pessoas. Rafaela Pomini, estudante de 21 anos, já contou, sem perceber, ao amigo Thiago sobre a festa surpresa que os amigos preparavam para ele. “Ele me perguntou o que eu faria no final de semana e eu disse: vou na festa do Thiago, você não vai?”. Ela garante que só percebeu o que tinha dito depois de notar que as pessoas ao redor, que sabiam da surpresa, a olhavam de maneira estranha.

Em outra ocasião, ao chegar a um evento, Rafaela foi cumprimentar as pessoas. “Como não tinha intimidade com os presentes, cumprimentei a todos com apertos de mão. Mas quando eu fui cumprimentar um senhor bem idoso, acabei cumprimentado-o com um beijinho do rosto. Não sei o que me deu”, confessa.

Mas o psicanalista sabe o que foi. De acordo com Ailton Bastos, esse ato falho mostra que o inconsciente de Rafaela, certamente, fez alguma associação de afeto com aquela pessoa. “Pode ser que ele se parecesse com alguém muito querido para ela, ou que ele tenha o mesmo nome de alguém de quem ela tenha boas lembranças”, sugere.

Bastos também conta casos de atos falhos que presenciou. Segundo ele, certa vez, numa conversa entre amigos, falava-se da relação entre sogras e noras. A sogra, ao garantir que não tinha problemas com a nora, acabou dizendo o nome da ex-nora. “Na verdade, o inconsciente dela dizia que era com a ex-nora que ela não tinha problemas. Na hora a pessoa corrige e ninguém leva a sério, mas quem sabe do significado do ato falho, percebe a razão do equívoco”.

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