Domingo, 19 de maio de 2013
- Londrina:
>> Na semana passada um aluno usou uma expressão que não ouvia há algum tempo: débito de extinção. Mais tarde, no mesmo dia, me chegou a notícia de um artigo recente na revista Science sobre o mesmo assunto. Seria porque o universo conspira ou talvez ainda mais fantasiosamente: será que meus alunos andam atualizados com o que sai na Science semana a semana?
De toda forma, o complexo termo débito de extinção diz respeito a uma ideia simples. Quando você altera um habitat, extingue um monte de espécies diretamente. Pode ser um recife de coral ou um trecho de floresta amazônica, à qual se refere o artigo. Porém, ao longo do tempo, extinguirá outras tantas espécies mais, que mesmo não tendo sido extintas diretamente, perderam espécies das quais dependiam ou suas populações ficaram tão pequenas que agora são inviáveis. O termo espécies mortas-vivas é menos científico, mas a analogia é talvez mais clara com o fato que o desmatamento tem um efeito a longo prazo além do direto, de curto prazo.
Como a Amazônia ainda mantém grande parte de seu território mais ou menos conservado, a extinção de muitas espécies ainda pode ser trazida de volta da beira do abismo da extinção, que é para sempre.
O débito de extinção também pode ser comprovado nas bordas de floresta, meu interesse de pesquisa quando não estou diante de recifes de coral.
Na Amazônia, quando uma área é desmatada e se forma uma borda entre a floresta e a área aberta, morre ali um monte de árvores. É uma morte adicional e de curto prazo, da ordem de meses, às que ocorreram na área desmatada. Mas o débito não termina aí. Pelo que sabemos das bordas de floresta do Norte do Paraná, estas com mais de 80 anos de idade, muitas espécies de árvore continuam a extinguir-se na borda porque só conseguem manter-se ali talvez por seu tamanho, mas não conseguem reproduzir-se. Então, quando morrem, mais que morrem, extinguem-se.
Ainda é tempo de evitar na Amazônia os erros que cometemos no Sul/Sudeste, onde extinguimos antes mesmo de conhecer. Será necessário mais que artigos científicos e termos complicados para chegarmos lá.