Para combater vício, só com grupo de apoio

Participação faz parte do protocolo de tratamento e dá acesso a remédios gratuitos

17/07/2012 | 00:02 Telma Elorza

Largar o tabagismo é uma dificuldade para quem tem o vício. E pode ficar pior se não frequentar um grupo de apoio: a rede pública de saúde só distribui gratuitamente remédios para auxiliar no tratamento se a pessoa estiver frequentando um deles. Se não, mesmo com receita médica, o paciente terá que comprá-los na farmácia. O bupropiona, medicamento mais utilizado, custa em média R$ 65 nas farmácias, o que impossibilita que pessoas mais pobres possam comprá-lo.

Segundo o secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Londrina (Sintracom), Antônio José Lino do Nascimento, ele e outros colegas tentaram conseguir o remédio gratuitamente, depois que o mesmo foi receitado por um cardiologista pós-consulta. “Foram nos empurrando de um lado para outro até que chegamos a Policlínica. Lá, nos informaram que só poderíamos tê-lo se fizéssemos parte do grupo de apoio”, diz. O problema, segundo ele, é que nenhum deles tem tempo para participar. “A gente trabalha o dia inteiro, vai largar o serviço?”, questiona. Outro problema, segundo ele, é o preço do remédio. “Eu, por exemplo, tenho que tomar dois medicamentos especiais para diabetes e hipertensão e tenho que comprá-los, porque os dos postos de saúde não resolvem meu caso. Como vou comprar mais um, caro também?”, questiona.

Para o cardiologista Icanor Antônio Ribeiro, os grupos de apoio dão possibilidade maior de sucesso para vencer o vício. No entanto, ele acredita que essa “obrigatoriedade” de participação limita o acesso. “Nem todas as pessoas têm condições de tempo ou até vontade de participar. O fato da rede pública não fornecê-lo deixa de fora alguém que poderia vir a largar o vício só com a ajuda do remédio. Se a pessoa tiver motivação suficiente, ela consegue assim também”, aponta. Segundo ele, os remédios bupropiona e vareniclina (os mais utilizados no tratamento), aliados aos adesivos de nicotina, são capazes de minimizar os maiores sintomas da abstinência.

Já a pneumologista Andréa Jacomossi Santanna afirma que só os remédios não são suficientes. “O problema é que a pessoa toma o remédio um mês, um mês e meio, e para, achando que venceu o vício. Mas não venceu. Se não faz o acompanhamento é muito difícil”, garante.

Segundo ela, a motivação é importante, mas o remédio sozinho não terá o mesmo efeito. “Sempre que algum paciente meu quer parar de fumar, encaminho para grupos de apoio. É o jeito que é preconizado pela Sociedade Brasileira de Pneumologia”, afirma.

Segundo a chefe da Atenção Primária da 17ª Regional de Saúde, Meria Lanziani Janeiro Egger, a rede pública deve seguir os protocolos do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para distribuição dos remédios. “E o Inca preconiza que é preciso participar de grupos do tipo”, aponta. E, segundo ela, falta de tempo não é desculpa para fugir do protocolo. “Há vária turmas em Londrina, inclusive em horários alternativos”, diz. Atualmente, 17 UBSs, o HC e a Policlínica oferecem grupos de apoio gratuitos.


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