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Prisão de aliados reverteu tendência de arquivamento da CP

Nem o mais otimista dos vereadores da oposição acreditava na virada que ocorreu a partir do flagrante de suborno na terça-feira

29/04/2012 | 00:02 Fábio Silveira

A tentativa de compra do voto do vereador Amauri Cardoso (PSDB) para evitar a abertura da Comissão Processante (CP) da Centronic, flagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na última terça-feira, reverteu a tendência de arquivamento do processo de cassação contra o prefeito Barbosa Neto (PDT), que a oposição já dava como certo.

A prisão em flagrante do ex-secretário Marco Cito, braço direito de Barbosa e figura certa no comando da campanha do prefeito à reeleição, tornou inevitável a “erosão” da base governista na Câmara, levando o pedetista a liberar seus aliados para conseguir reduzir a temperatura da crise.

Analista vê ‘inversão de valores’ em episódio

“A corrupção é filha da política instrumental”. A avaliação é de Clodomiro Banwart, professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Segundo ele, essa política instrumental “não visa ao bem comum da sociedade, mas aos interesses particulares de pessoas e grupos”. “É o ato deliberado e consciente de o político fundir duas lógicas que necessitam caminhar separadas: a privada e a pública. Quando o parlamentar passa a sustentar, simultaneamente, uma lógica pública e outra ligada a interesses pessoais, as duas se corrompem”, afirma Banwart, analisando o sentido da corrupção na política. Conforme Banwart, fica difícil para o político se sustentar nos seus próprios discursos perante a opinião pública “quando busca travestir interesses pessoais como se fossem públicos”. No campo simbólico, Banwart vê “uma inversão de valores” no episódio da semana passada, quando o vereador Amauri Cardoso (PSDB) ganhou fama inesperada e repentina, ao rejeitar uma oferta de suborno e chamar o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco). “O padrão de comportamento político que deveria ser regra, tem se tornado, infelizmente, exceção”, declarou. “A ética refere-se aos valores e princípios de justiça que orientam o padrão normativo e comportamental da sociedade. No entanto, quando esses valores e princípios não são verificados na prática política, não significa que eles deixam de ter validade. Eles permanecem como sinalizadores ao demonstrar para a sociedade que há maus políticos, ou seja, que não estão agindo da forma como realmente deveriam”, completou. Essa “inversão de valores” também chamou a atenção do sociólogo Marco Rossi. “O vereador virou herói fazendo o que todos deveriam fazer num ato de normalidade política. O comportamento ético está tão esvaziado que quando alguém age eticamente vira um ato de heroísmo”, afirmou.

Apesar de ser uma política de redução de danos, já que alivia momentaneamente o peso da suspeita de compra de voto, o remédio terá efeitos colaterais: o desfecho da CP ficou para início de agosto, em plena campanha eleitoral.

Quando adiou pela primeira vez a votação da CP, em 19 de abril, a oposição queria apenas desgastar Barbosa e o vereador Eloir Valença (PHS), que começou na oposição, mas aderiu ao governo. Nem o mais otimista dos vereadores da oposição acreditava na virada que aconteceu a partir do flagrante de terça-feira. As prisões de Cito e de Ludovico Bonato mudaram o rumo dos acontecimentos e reverteram uma derrota que a oposição considerava certa.

Na avaliação do professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Elve Cenci, a suspeita de compra de votos foi decisiva na mudança do cenário, por ter atingido diretamente a opinião pública. “Os outros episódios causaram alguma indignação da opinião pública, mas não com a intensidade que aconteceu na época do [ex-prefeito] Antonio Belinati (PP) e como aconteceu nos últimos dias”, afirmou Cenci. Segundo ele, os vereadores passaram a ser cobrados nas suas bases.

Cenci acredita que o impacto das prisões dificultou a reação governista: “ninguém acreditou na tese da perseguição política, da armação do PSDB. Quando a opinião pública chega nesse estágio, não há argumento que se possa usar”. Nesse contexto, a única forma de Barbosa estancar a crise foi a liberação da base.

O sociólogo e professor universitário Marco Rossi concorda que o flagrante do suborno deu “visibilidade” à questão, mobilizando a opinião pública. “Com a cobertura maciça da imprensa sobre isso, as pessoas se indignaram. No imaginário político, a ideia de que se tentou comprar um voto prova que se tem culpa no cartório”, avalia Rossi. “Isso mudou o voto e permitiu a abertura da comissão. Não havia como dizer não, porque se houve a tentativa de suborno há pelo menos o que investigar”, completa.

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