Justin Tallis/ AFP

Justin Tallis/ AFP / Ricardo Leyser, secretário nacional de Alto Rendimento: apoio aos mesmos esportes Ricardo Leyser, secretário nacional de Alto Rendimento: apoio aos mesmos esportes

Governo muda regra, mas despreza ‘minas de ouro’

País passa a priorizar investimentos em modalidades que já dão resultado, como o vôlei, deixando de lado os esportes que mais distribuem medalhas, caso do ciclismo

19/08/2012 | 00:02 Leonardo Mendes Júnior

A nova política de investimentos do governo federal relega ao segundo plano algumas das maiores “minas de ouro” dos Jogos Olímpicos. Pelos critérios adotados para a linha de corte nos novos programas, esportes que mais distribuem medalhas serão esquecidos ou terão verba restrita no ciclo de 2016.

Dividido em quatro modalidades, o ciclismo brasileiro levou nove atletas a Londres, onde o esporte distribuiu 54 medalhas. Apenas um, Squel Stein, do BMX, ficou entre os 20 melhores da Olimpíada deste ano (16.ª colocada). Os outros oito terão de se virar com recursos da Lei Agnelo-Piva, verba captada via Lei de Incentivo e patrocínios privados. Um duro golpe nos planos da Confederação Brasileira.

Política esportiva

Do zero ao pódio em apenas quatro anos

Helen Glover praticou diferentes esportes durante sua adolescência – atletismo, natação, tênis, hóquei. Mas, em 2008, aos 22 anos, se deparou com um anúncio que a fez largar o emprego de professora de escola primária. O Comitê Olímpico Britânico convocava jovens de 16 a 25 anos para integrar a equipe de remo que disputaria a Olimpíada de 2012, no programa Sporting Giants.

Quatro anos depois de entrar em um barco pela primeira vez, Glover deu à Grã-Bretanha o primeiro ouro nos Jogos de Londres, no skiff duplo. Sua companheira, Heather Stanning, passou metade do ciclo olímpico no Afeganistão, servindo ao Exército Britânico. Victoria Thornley também saiu do Sporting Giants para ganhar o bronze com a equipe de remo do oito sem timoneira. Provas de que é possível formar medalhistas saindo do zero.

O Casaquistão fez algo parecido. No início de 2010, o presidente casaque Nursultan Nazarbayev decidiu transformar o país em referência no levantamento de peso, boxe e ciclismo. Investiu US$ 20 milhões para um regime de treinos permanente, de até três turnos diários. O resultado: quatro ouros no levantamento de peso e um no ciclismo, mais quatro medalhas no boxe (um ouro, uma prata e dois bronzes).

A vez dos nanicos

Esportes como rúgbi e golfe tentam driblar a falta de apoio governamental para representar o Brasil na próxima Olimpíada, dentro de casa

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“Nossa meta é dobrar o número de vagas”, diz Emerson Silva, técnico da seleção brasileira de pista, presente em Londres à frente do time de estrada. Ao saber dos critérios do governo, o treinador desanimou. “Esportes que já estão esquecidos vão ficar mais abandonados ainda. Espero que olhem para o exemplo do boxe, que estava esquecido e ganhou três medalhas, e revejam essa posição”, diz.

O tiro esportivo, com 51 medalhas em disputa, também ficará de fora das novas modalidades de investimento. Em Londres, o Brasil levou dois atletas: Felipe Fuzaro (17.º) e Ana Luiza Ferrão (39.º). Para 2016, as esperanças são quase restritas a Felipe Wu, 20 anos, prata nos Jogos Olímpicos da Juventude de 2010 e integrante do projeto Vivência Olímpica, do COB, que mandou 16 jovens atletas brasileiros para Londres. “Hoje o Wu é nossa única esperança, tanto que estamos levando ele no dedo”, diz Paulo Guedes, administrador judicial da Confederação Brasileira de Tiro. Ele também espera uma mudança de posição do governo para ampliar a equipe nacional.

“O [Ricardo] Leyser está meio chateado com o desempenho em Londres. Daqui a pouco a poeira assenta e a coisa muda. Não vejo por que desprezar outras modalidades”, argumentou, para logo depois reconhecer a dificuldade de encontrar, nos próximos quatro anos, outro atirador brasileiro com chance de medalha. “Só se aparecer um gênio, alguém que tenha nascido com isso”, resigna-se.

É exatamente essa dificuldade que faz Ricardo Leyser defender o “chega pra lá” em esportes que hoje têm dificuldade de apresentar bons resultados, mesmo com uma farta distribuição de medalhas.

“Esse número de medalhas é artificial. De que adianta esse número de medalhas se não temos atletas”, questiona o secretário nacional de Alto Rendimento.

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