Sábado, 25 de maio de 2013
- Londrina:Juan Barreto/AFP
Chávez e a filha, Rosa, embarcam para o Brasil, onde ocorrerá a reunião do Mercosul: 12º importador de alimentos brasileiros
País, cuja entrada no Mercosul deve ser confirmada hoje, compra mais produtos agrícolas brasileiros que os membros atuais do bloco
O país caribenho é um dos principais compradores de produtos agrícolas brasileiros, à frente das nações que já fazem parte do bloco (Argentina, Uruguai e Paraguai). Os venezuelanos perdem apenas para 11 países, na maioria potências mundiais como China, Países Baixos, Estados Unidos, Rússia, Alemanha e Japão.
Agência O Globo
Em conversa com integrantes do governo brasileiro, há dois dias, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, informou ter determinado a sua equipe que acelere o processo de adequação de seu país à união aduaneira, previsto inicialmente para começar em 2014. O novo sócio já entrará devendo para o bloco. A expectativa é que cerca de 800 itens continuarão protegidos no intercâmbio com os demais associados. Esses setores sensíveis, que não sobreviveriam à abertura total do mercado, só terão tributos reduzidos a partir de 2018, dentro de prazos que ainda serão estabelecidos. Estão na lista bens de capital, autopeças, automóveis, flores, petroquímicos e eletroeletrônicos.
A razão para isso é que a Venezuela, que tem no petróleo a locomotiva de sua economia, possui uma indústria nascente. Mesmo diante do fato de que a abertura total do mercado venezuelano levará um tempo maior em se tratando de produtos industrializados, Brasil e Argentina serão os grandes beneficiados, já que terão preferências nas compras feitas pela Venezuela. O país hoje importa boa parte do que consome, cerca de 70% do total. Nessa gama, há de alimentos a bens de alta tecnologia. Quem deve sair perdendo é a Colômbia, tradicional fornecedora dos venezuelanos.
Críticos à adesão do novo sócio dizem que o Mercosul ganhará uma roupagem política. Para os defensores, incluindo o governo brasileiro, o aspecto econômico é o preponderante. O Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos) da Venezuela, hoje em US$ 315 bilhões, é o quarto maior da América do Sul. Com a entrada dos venezuelanos, o Mercosul passará a contar com 270 milhões de habitantes e um PIB de US$ 3,3 trilhões.
Há mais argumentos do lado positivo: a Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo, superando a Arábia Saudita. Por fim, o estoque de investimentos de empresas brasileiras naquele país é de US$ 20 bilhões.
De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), nos primeiros seis meses de 2012, o Brasil exportou para a Venezuela US$ 992 milhões em produtos ligados ao agronegócio. O valor é quase quatro vezes maior em relação aos negócios do setor com o Paraguai (34ª) e o Uruguai (38ª), respectivamente, US$ 258 milhões e US$ 226 milhões. A Argentina (19ª), com quem o Brasil tem diversos contratos, exportou, no mesmo período, US$ 602 milhões, 40% menos que o país caribenho.
Grande importador
“A Venezuela já é importante. O país é um grande mercado e pode contribuir para a balança comercial brasileira”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). “[A entrada da Venezuela] pode ampliar as exportações e ser bom para o agronegócio brasileiro”, aponta José Carlos Hauscknet, diretor da MBAgro. “O país não produz nada, é essencialmente importador e sempre precisa comprar”, reforça.
Além da zona livre de comércio com a queda de barreiras e a redução de tarifas entre os dois países, o fato da Venezuela não ser autossuficiente em alimentos também é vantajoso para os produtores. De acordo com os números do relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), há espaço para o crescimento das exportações brasileiras do agronegócio. No caso da carne, principal produto da balança agro, o Brasil vendeu 70 mil toneladas em 2011, 35% do total exportado pela Venezuela – 200 mil toneladas – o que resultou em US$ 376 milhões.
Outro produto com grande peso na balança 2011 entre os dois países foi o arroz. Diante do consumo interno de 573 mil toneladas e uma produção de 380 mil toneladas, a Venezuela se viu obrigada a importar 198 mil toneladas, sendo 66 mil toneladas do Brasil (33%).
“A opção política de rompimento com os Estados Unidos e a Colômbia, de onde importava muito, abriu a oportunidade o Brasil, Argentina e Uruguai, que estão aproveitando”, explica Benedito Rosa do Espírito Santo, diretor de Assuntos Comerciais da Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio do Mapa. Com a inclusão do país na Zona de Livre Comércio do Mercosul, outros produtos agro brasileiros devem ganhar espaço no mercado venezuelano, caso do complexo soja (soja em grão, óleo e farelo) e produtos lácteos.
Produtores do Sul não tiveram ganho com o bloco
A entrada da Venezuela ocorre em um momento em que a balança comercial do agronegócio, a cada ano, perde força entre os países do Mercosul. No começo da década de 90, quando o bloco foi criado com a proposta de garantir a livre circulação de mercadoria, entre outros acordos, a indústria agro predominava na balança comercial. Porém, nos últimos três anos, a pauta de negócio entre as nações é formada pelos produtos do setor de transporte.
“Na composição inicial do bloco, o agronegócio tinha mais transações, mas está perdendo espaço. Hoje o setor de transporte predomina, principalmente entre Brasil e Argentina”, diz Francisco José Gouveia de Castro, economista do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social).
Para o diretor de Assuntos Comerciais da Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Benedito Rosa do Espírito Santo, a criação do Mercosul, prestes a completar 21 anos, não beneficiou a agricultura brasileira, especialmente os estados que fazem fronteiras com os países do bloco como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul.
“Ao contrário, a concorrência ficou mais difícil em função das assimetrias que diminuem a competitividade da produção agrícola e agroindustrial brasileira. A carga tributária mais elevada, carência de infraestrutura, custo maiores com insumos agrícolas, além de custosa burocracia, tiram a competitividade dos produtos brasileiros”, ressalta.
O resultado é um déficit brasileiro na balança comercial do agronegócio. Somente com a Argentina, o saldo negativo é na ordem de US$ 3 bilhões anuais.
