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Juan Barreto/AFP / Chávez e a filha, Rosa, embarcam para o Brasil, onde ocorrerá a reunião do Mercosul: 12º importador de alimentos brasileiros Chávez e a filha, Rosa, embarcam para o Brasil, onde ocorrerá a reunião do Mercosul: 12º importador de alimentos brasileiros

Agronegócio saúda a Venezuela

País, cuja entrada no Mercosul deve ser confirmada hoje, compra mais produtos agrícolas brasileiros que os membros atuais do bloco

31/07/2012 | 00:18 Carlos Guimarães Filho

A transformação da Venezuela em sócio pleno do Mercosul, que deve ocorrer hoje, contribuirá para o crescimento das exportações brasileiras do agronegócio. Antes mesmo da adesão, os produtos agro possuem papel importante na balança comercial entre os dois países. No primeiro semestre deste ano, os itens oriundos do campo representaram 43% dos US$ 2,3 bilhões das exportações do Brasil para Venezuela.

O país caribenho é um dos principais compradores de produtos agrícolas brasileiros, à frente das nações que já fazem parte do bloco (Argentina, Uruguai e Paraguai). Os venezuelanos perdem apenas para 11 países, na maioria potências mundiais como China, Países Baixos, Estados Unidos, Rússia, Alemanha e Japão.

Novo sócio terá 200 produtos protegidos da concorrência

Agência O Globo

Em conversa com integrantes do governo brasileiro, há dois dias, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, informou ter determinado a sua equipe que acelere o processo de adequação de seu país à união aduaneira, previsto inicialmente para começar em 2014. O novo sócio já entrará devendo para o bloco. A expectativa é que cerca de 800 itens continuarão protegidos no intercâmbio com os demais associados. Esses setores sensíveis, que não sobreviveriam à abertura total do mercado, só terão tributos reduzidos a partir de 2018, dentro de prazos que ainda serão estabelecidos. Estão na lista bens de capital, autopeças, automóveis, flores, petroquímicos e eletroeletrônicos.

A razão para isso é que a Venezuela, que tem no petróleo a locomotiva de sua economia, possui uma indústria nascente. Mesmo diante do fato de que a abertura total do mercado venezuelano levará um tempo maior em se tratando de produtos industrializados, Brasil e Argentina serão os grandes beneficiados, já que terão preferências nas compras feitas pela Venezuela. O país hoje importa boa parte do que consome, cerca de 70% do total. Nessa gama, há de alimentos a bens de alta tecnologia. Quem deve sair perdendo é a Colômbia, tradicional fornecedora dos venezuelanos.

Críticos à adesão do novo sócio dizem que o Mercosul ganhará uma roupagem política. Para os defensores, incluindo o governo brasileiro, o aspecto econômico é o preponderante. O Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos) da Venezuela, hoje em US$ 315 bilhões, é o quarto maior da América do Sul. Com a entrada dos venezuelanos, o Mercosul passará a contar com 270 milhões de habitantes e um PIB de US$ 3,3 trilhões.

Há mais argumentos do lado positivo: a Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo, superando a Arábia Saudita. Por fim, o estoque de investimentos de empresas brasileiras naquele país é de US$ 20 bilhões.

De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), nos primeiros seis meses de 2012, o Brasil exportou para a Venezuela US$ 992 milhões em produtos ligados ao agronegócio. O valor é quase quatro vezes maior em relação aos negócios do setor com o Paraguai (34ª) e o Uruguai (38ª), respectivamente, US$ 258 milhões e US$ 226 milhões. A Argentina (19ª), com quem o Brasil tem diversos contratos, exportou, no mesmo período, US$ 602 milhões, 40% menos que o país caribenho.

Grande importador

“A Venezuela já é importante. O país é um grande mercado e pode contribuir para a balança comercial brasileira”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). “[A entrada da Venezuela] pode ampliar as exportações e ser bom para o agronegócio brasileiro”, aponta José Carlos Hauscknet, diretor da MBAgro. “O país não produz nada, é essencialmente importador e sempre precisa comprar”, reforça.

Além da zona livre de comércio com a queda de barreiras e a redução de tarifas entre os dois países, o fato da Venezuela não ser autossuficiente em alimentos também é vantajoso para os produtores. De acordo com os números do relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), há espaço para o crescimento das exportações brasileiras do agronegócio. No caso da carne, principal produto da balança agro, o Brasil vendeu 70 mil toneladas em 2011, 35% do total exportado pela Venezuela – 200 mil toneladas – o que resultou em US$ 376 milhões.

Outro produto com grande peso na balança 2011 entre os dois países foi o arroz. Diante do consumo interno de 573 mil toneladas e uma produção de 380 mil toneladas, a Venezuela se viu obrigada a importar 198 mil toneladas, sendo 66 mil toneladas do Brasil (33%).

“A opção política de rompimento com os Estados Unidos e a Colômbia, de onde importava muito, abriu a oportunidade o Brasil, Argentina e Uruguai, que estão aproveitando”, explica Benedito Rosa do Espírito Santo, diretor de Assuntos Comerciais da Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio do Mapa. Com a inclusão do país na Zona de Livre Comércio do Mercosul, outros produtos agro brasileiros devem ganhar espaço no mercado venezuelano, caso do complexo soja (soja em grão, óleo e farelo) e produtos lácteos.

Produtores do Sul não tiveram ganho com o bloco

A entrada da Venezuela ocorre em um momento em que a balança comercial do agronegócio, a cada ano, perde força entre os países do Mercosul. No começo da década de 90, quando o bloco foi criado com a proposta de garantir a livre circulação de mercadoria, entre outros acordos, a indústria agro predominava na balança comercial. Porém, nos últimos três anos, a pauta de negócio entre as nações é formada pelos produtos do setor de transporte.

“Na composição inicial do bloco, o agronegócio tinha mais transações, mas es­­tá perdendo espaço. Hoje o setor de transporte predomina, principalmente entre Brasil e Argentina”, diz Francisco José Gouveia de Castro, economista do Ins­tituto Paranaense de Desen­volvimento Econômico e So­cial).

Para o diretor de Assuntos Comerciais da Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Benedito Rosa do Espírito Santo, a criação do Mercosul, prestes a completar 21 anos, não beneficiou a agricultura brasileira, especialmente os estados que fazem fronteiras com os países do bloco como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul.

“Ao contrário, a concorrência ficou mais difícil em função das assimetrias que diminuem a competitividade da produção agrícola e agroindustrial brasileira. A carga tributária mais elevada, carência de infraestrutura, custo maiores com insumos agrícolas, além de custosa burocracia, tiram a competitividade dos produtos brasileiros”, ressalta.

O resultado é um déficit brasileiro na balança comercial do agronegócio. Somente com a Argentina, o saldo negativo é na ordem de US$ 3 bilhões anuais.

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