Juan Mabromata/AFP

Juan Mabromata/AFP / Líderes sul-americanos presenteiam o governo venezuelano com uma pintura do retrato do presidente Hugo Chávez, durante encontro do Mercosul, em Mendoza Líderes sul-americanos presenteiam o governo venezuelano com uma pintura do retrato do presidente Hugo Chávez, durante encontro do Mercosul, em Mendoza

Sem o Paraguai, Mercosul aprova a entrada da Venezuela no bloco

Brasil, Argentina e Uruguai afirmam que país de Hugo Chávez cumpre todas as cláusulas democráticas

30/06/2012 | 09:44 Irinêo Baptista Netto, enviado especial

Um entra e outro fica suspenso. A cúpula do Mercosul aceitou a Venezuela como membro pleno – sete anos depois do pedido feito pelo presidente Hugo Chávez – e decidiu manter o Paraguai suspenso do grupo enquanto o presidente Federico Franco, que assumiu o governo após a deposição de Fernando Lugo, governar o país.

As duas medidas foram anunciadas ontem ao fim da reunião do bloco realizada em Mendoza, na Argentina.

Marcos Labanca/Gazeta do Povo

Marcos Labanca/Gazeta do Povo / Defensores de Lugo durante protesto em Ciudad del Este Ampliar imagem

Defensores de Lugo durante protesto em Ciudad del Este

Com brasiguaios, Alvaro Dias ataca posição do Brasil

Fabiula Wurmeister, da sucursal Em reunião ontem em Foz do Iguaçu com agricultores­­ brasileiros que vivem no Pa­­­­raguai (brasiguaios), o se­­na­­dor Alvaro Dias (PSDB) afir­­mou que a posição do go­­ver­­no brasileiro em relação à cri­­se política no país vizinho­­ é uma afronta à so­­be­­rania­­ paraguaia. “Mais que prejuízos econômicos, toda esta pressão pode criar uma insegurança jurídica também aos brasileiros que vivem do outro lado da fronteira”, disse. Protesto Cerca de 800 brasileiros e paraguaios de movimentos sociais e sindicais dos dois países bloquearam o trânsito sobre a Ponte da Amizade, entre Ciudad del Este e Foz, por uma hora e meia em repúdio ao que denominam de “golpe de Estado” contra o presidente deposto Fernando Lugo.

Negócios

Brasil e Argentina fecham acordo para destravar comércio

Após tensas negociações, os governos de Brasil e Argentina fecharam ontem um “acordo de cavalheiros” numa tentativa de levantar as travas no comércio bilateral.

As conversas, paralelas ao encontro de cúpula do Mercosul em Mendoza, duraram quatro dias e chegaram perto de ruptura na quinta-feira.

Fracassou a ideia de fechar um acordo abrangente e duradouro. O compromisso acertado é de facilitar, a partir dos próximos dias, o fluxo de produtos hoje sujeitos a licenças não automáticas.

A movimentação será continuamente averiguada pelos dois lados, que farão reuniões periódicas de avaliação. Não foram definidos os produtos liberados nem em que ritmo nem quando.

Brasil e Argentina acordaram também rediscutir, a partir de julho, o acordo automotivo bilateral. A ideia é incrementar a produção comum, na região, de automóveis e autopeças.

Produtos

O Mercosul fechou acordo para ampliar de 100 para 200 os produtos que países do bloco podem excluir da Tarifa Externa Comum (TEC) e sobre os quais podem aplicar tarifas de importação.

O Paraguai era o único dos quatro membros da cúpula que não havia aprovado a entrada da Venezuela – Brasil, Argentina e Uruguai a aceitaram –, alegando que o governo de Chávez não cumpre todas as cláusulas democráticas.

Agora, a entrada da Vene­­zuela será oficializada no dia 31 de julho, no Rio de Janeiro, em encontro extraordinário dos chefes de Estado sul-americanos.

Chávez

Chávez, que não estava em Mendoza, falou à emissora Telesur e demonstrou satisfação com a notícia, afirmando que o seu país passa a fazer parte de um dos grupos mais fortes do mundo, que representa um “escudo contra o imperialismo”. Poder esse que vai aumentar com a participação venezuelana. “Temos uma das reservas mais importantes de petróleo, gás e água do mundo”, disse.

De acusador a acusado, o Paraguai tem sido criticado pela forma como conduziu o processo de 30 horas que levou ao impeachment de Fernando Lugo na semana passada. Assunção foi suspensa do Mercosul no último domingo e, com a decisão de ontem, continuará assim por mais dez meses, até a próxima eleição, no dia 21 de abril do ano que vem.

“Meu país crê que houve­­ uma ruptura de ordem demo­­crática na República do Para­­guai. Não há no mundo um juízo político ou de qualquer outra natureza que leve apenas duas horas”, disse Cristina Kirchner, a presidente da Argentina, ao dar início ao encontro dos chefes de Estado.

“Temos um compromisso democrático fundamental e devemos respeitar a manifestação dos interesses legítimos de nossos povos”, ressalvou a presidente Dilma Rousseff, que assumiu a presidência temporária do Mercosul pelos próximos seis meses.

Mais tarde, a União dos­­ Países Sul-Americanos (Una­­sul) respaldou a decisão do­­ Mer­­cosul.

Novo presidente paraguaio diz que país fica livre para buscar acordos

O presidente do Paraguai, Federico Franco, que assumiu o governo após a deposição de Fernando Lugo pelo Congresso, disse ontem que, com a suspensão, o país estará livre para buscar acordos e relações com outros países.

“Ao ser suspenso, o Para­­guai está liberado para tomar decisões. Vamos analisar os custos e benefícios. Vamos fazer o que for mais conveniente para os interesses do Paraguai”, afirmou o presidente ao ser questionado sobre a possibilidade de estabelecer acordos comerciais diretos com Estados Uni­­dos, China e outros blo­­cos­­ comerciais.

O governo de Franco classificou a suspensão de ilegal.

O presidente da União In­­ dustrial Paraguaia, Eduardo Felippo, propôs a realização de um plebiscito para decidir sobre a saída do Paraguai do Mercosul, após o anúncio da entrada da Venezuela no bloco. “Consideramos que não são cumpridos os estatutos e o regulamento do Mercosul. Não podem permitir o acesso de nenhum Estado sem que o Paraguai o aceite”, disse.

Para o presidente deposto Fernando Lugo, os chefes de Estado do Mercosul resolveram castigar a classe política do Paraguai por ter quebrado a ordem democrática.

Entrevista
“Economicamente é interessante o ingresso dos venezuelanos”

Rodolfo Stancki

A entrada da Venezuela no Mercosul foi possível porque Brasil, Argentina e Uruguai consideram o governo venezuelano democrático. Essa análise é da professora de Direito Internacional das Faculdades Integradas do Brasil, Larissa Ramina.

Algumas medidas do governo de Hugo Chávez são classificadas como antidemocráticas. Aceitar a Venezuela e suspender o Paraguai no Mercosul não é uma contradição?

Essa análise é complexa porque precisamos definir se consideramos a Venezuela como antidemocrática. Na visão dos governos do Mercosul – como o de Dilma [Rousseff, no Brasil] e de Cristina [Kirchner, da Argentina] –, Chávez lidera um país progressista e não antidemocrático.

O Mercosul ganha ou perde com a entrada da Venezuela?

A Venezuela é uma grande economia exportadora de petróleo. Em termos econômicos, isso interessa muito. Quanto mais países economicamente interessantes [no Mercosul], melhor. Mas é preciso certa margem de manobra para fazer com que os países não se envolvam nesses imbróglios que, muitas vezes, o presidente Hugo Chávez leva a Venezuela a se complicar.

São países que pertencem a outras entidades de integração. Temos aí entre oito e nove projetos de integração regional na América Latina e não é fácil conciliar. São negociações bastante complexas. Também tem a questão de que, se o Mercosul fechar acordos com outros países, deixamos de lado a integração do cone sul e entramos em uma integração continental.

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