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Vida e Cidadania |

desaparecimento

Três meses em busca de João Rafael

Sumiço de menino de Adrianópolis desencadeou uma busca incessante apoiada por cartazes e apelos nas redes sociais

  • Katia Brembatti
  • 24/11/2013 00:10

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do

de mistérios, o desaparecimento de João Rafael Kova

lski completa três meses neste dom

ingo. O menino de 2 anos sumiu em uma manhã de sábado, na zona rural de Adrianópolis, cidade do Vale do Ribe

ira, a 120 quilômetros de Curitiba. Desde então, milhares de pistas surgiram, com várias li

nhas de investigação, mas sem nenhuma perspectiva de desfecho.

Para chamar a atenção e divulgar fotos, manifestações já aconteceram em várias cidades do Brasil. Neste domingo, faixas e cartazes devem ser carregados na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro – mais de mil pessoas confirmaram presença no evento cadastrado no Facebook.

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    Polícia já recebeu centenas de telefonemas de pessoas que dizem ter visto João Rafael (Crédito: Arquivo de família)

    Polícia já recebeu centenas de telefonemas de pessoas que dizem ter visto João Rafael (Crédito: Arquivo de família)

Lorena Cristina da Con­ceição Santos, mãe do menino, se recusa a acreditar na hipótese, apontada pela polícia como a mais provável, de que o menino tenha caído no rio que passa nos fundos da casa da família. Ela argumenta que João Rafael não conseguiria passar pelo portão ou pela tela do galinheiro para chegar ao barranco. Como confia que o menino está vivo, Lorena entrou em uma busca que consome todo seu tempo. Nas várias viagens a Curitiba, ela vai a hospitais e delegacias. Busca informações e cobra investigações.

Os telefones de parentes e da polícia tocam várias vezes por dia. São informações sobre um menino loirinho, de olho azul, acompanhado de uma pessoa nada parecida com ele. Quando o relato tem dados específicos, como local e hora, a investigação pede gravações de sistema de vigilância. Famílias em Londrina e Pelotas (RS) foram importunadas e até hostilizadas. A boa vontade de pessoas que querem ajudar – mas não têm nenhuma informação concreta – tira o foco e pulveriza os esforços da investigação.

Quando recebe informações de que um menino parecido com o filho foi visto em algum lugar, Lorena telefona para a polícia local e pede que o caso seja apurado. Depois de gastar mais de R$ 3 mil em cartazes e contas de telefone, ela abriu uma conta bancária para receber doações. A mãe afirma que prestará contas dos gastos. Lorena acredita que alguns familiares de desaparecidos abandonam as buscas quando perdem as forças psicológicas e financeiras para continuar a procura. Como é ajudada por dezenas de voluntários, que atuam de forma autônoma, Lorena não sabe dizer quantos cartazes foram espalhados Brasil afora. Em Curitiba, é comum encontrar a foto do menino em ônibus, postes e supermercados.

Lorena conta com a força que recebe das redes sociais. “Se as pessoas estão lutando pelo meu filho, como eu vou desistir?”, pergunta ela, que está licenciada do cargo de professora no contraturno de um projeto social. Ela ainda precisa cuidar dos três filhos, incluindo a irmã gêmea de João Rafael. “A Poliana chora e beija a foto dele”, conta. A família alterna momentos de desespero e esperança.

Busca envolve informação para médicos

João Rafael foi diagnosticado com um problema no coração, conhecido popularmente como “sopro”. O resultado do exame chegou depois que ele havia sumido. Por isso, a campanha para encontrar o menino concentra esforços em divulgar a foto do menino para médicos. A esperança é que ele seja reconhecido caso precise de atendimento. Só no Facebook, uma postagem voltada a médicos teve 71 mil compartilhamentos.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) também acredita que os médicos podem ser os principais ajudantes do polícia na busca por crianças desparecidas. Um portal, lançado em outubro, reúne informações sobre os sumiços. “O profissional tem um senso de observação mais aguçado e também percebe o tipo de relacionamento que a criança tem com a pessoa que o levou ao hospital ou consultório”, explica Desiré Carlos Callegari, diretor de comunicação do CFM. Ainda não há informações se a divulgação ajudou na localização de crianças desaparecidas.


O delegado Harry Herbert, que por muitos anos trabalhou na investigação do desaparecimento de crianças, explica que a família não deve esperar 24 horas para comunicar o sumiço à polícia. Quanto mais cedo as buscas começarem, maiores as chances de encontrar a criança. “O procedimento é chamar a polícia imediatamente. Se foi um caso de sequestro, por exemplo, o cerco pode se fechar e impedir a fuga”, diz. A estratégia consiste em reconstituir os últimos momentos da criança e conversar com várias pessoas para montar um perfil. Herbert comenta que entre os passos iniciais estão a procura em hospitais, o monitoramento de pedidos de resgate, a identificação se a família tem rixas ou poderia ser alvo de vingança e até mesmo apuração se os parentes estão tentando encobrir uma situação de negligência.

Investigação

Polícia não descartou hipótese da queda no Rio Ribeira

Uma fralda achada no Rio Ribeira, perto da casa de João Rafael Kovalski, está sendo periciada pela polícia. Ainda não se sabe se há material genético suficiente para fazer um teste de DNA. Outra evidência foi descartada recentemente: um boné igual ao que o menino usava, também encontrado no rio, tinha fios de cabelo, mas já estavam deteriorados e não puderam ser analisados. Como muitos moradores de Adrianópolis têm o mesmo modelo de boné, a peça não foi considerada um indício. João Rafael demonstrava ter fascinação pelo rio. Equipes do Corpo de Bombeiros e ribeirinhos mergulharam na região durante duas semanas, sem encontrar outras pistas.

A polícia também procura suspeitos em Tietê (SP). Vizinhos de João Rafael dizem ter visto um casal, num carro preto, com placas da cidade paulista, pedindo informações bem no momento em que a criança desapareceu. Assim como no caso do menino Joaquim Marques Pontes, encontrado morto em um rio de São Paulo neste mês, um cachorro treinado para farejar vestígios foi usado nas buscas – sem influenciar nas investigações. A delegada Araci Carmen Costa, do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), assegura que todos os esforços estão sendo realizados para desvendar o caso.

Serviço: Telefone do Sicride: (41) 3224-6822.

195 crianças

...foram consideradas desaparecidas no Paraná em 2013. Todas, à exceção de João Rafael, foram localizadas. Na maioria dos casos elas são encontradas menos de 24 horas após o desaparecimento. O Sicride cuida apenas de casos de crianças que ainda não completaram 12 anos. A maioria das situações envolve meninas acima dos 10 anos. Casos de reincidência são comuns. Envolvimento amoroso, briga com os pais e problemas familiares em decorrência de separação ou vícios lideram o motivos de desaparecimento.

15 pessoas

...fazem parte do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), para investigar todos os casos no Paraná. O caso João Rafael já soma 750 páginas de inquérito. Procurar pessoas desaparecidas é uma responsabilidade da Polícia Civil.

25 casos

...de crianças desaparecidas continuam abertos no Paraná. Algumas sumiram há mais de 30 anos. Apesar do tempo de investigação, a procura não é abandonada. A cada mês surgem novas páginas de apuração nos volumosos inquéritos. O trabalho de envelhecimento digital das fotos, para mostrar como as crianças seriam na fase adulta, é considerado essencial para ajudar nas buscas.

134 mil internautas

...seguem a página “Todos Juntos por João Rafael”, do Facebook. O comediante Fabio Porchat, do programa Porta dos Fundos, aderiu à campanha e publicou mensagem sobre João Rafael. O nome do menino aparece em 977 mil menções no Google. A cobrança chegou às redes sociais do governador Beto Richa. Pressionado, ele respondeu que todos os esforços estão sendo feitos.

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