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Praça Onze

13 de Maio de 2013 - 16:34 hscomente esta notícia

Passei por baixo dos Arcos da Lapa e segui a pé até o Sambódromo. A caminhada matinal, no Rio de Janeiro, não era para conhecer a Marquês de Sapucaí. Mas sim identificar os restos de outro templo do samba: a Praça Onze. Foi lá que tudo começou. Ou se difundiu: o choro, o samba, o desfile de carnaval.

Ali, no início do século 19, era mangue. Para urbanizá-lo, D. João VI construiu o Pequeno Largo do Rocio, em 1810. Depois vieram uma fábrica de gás (1854), o trem (1858) e os bondes (1859). Quando o Brasil venceu a batalha de Riachuelo, em 11 de junho de 1865, o lugar passou a se chamar Praça Onze.

Vieram a abolição (1888) e a República (1898). Casarões deram lugar a fábricas ou cortiços. Logo, os ex-escravos chegavam em busca de emprego e moradia barata. No final do século 19 a batucada já ressoava na praça, incluindo a casa da famosa Tia Ciata.

Lá, as escolas Deixa Falar, Portela e Mangueira fizeram seus primeiros desfiles. A Praça Onze tinha uma vida cultural tão intensa quanto seu substituto, o Sambódromo, fica às moscas. A Praça Onze foi um dos mais importantes berços do samba.

Até que a Avenida Getúlio Vargas resolveu atravessar o largo em 1942.
A querida Praça Onze foi destruída. Sobrou quase nada. Em 1979, o metrô do Rio foi inaugurado com a estação Praça Onze. Alguns cortiços sobrevivem ao entorno, onde o subemprego impera com a falta de estrutura. Virou lugar de passagem.

Pergunte sobre a Praça Onze a qualquer carioca da região: ele vai apontar a estação de metrô, como se ali nada existisse antes. A praça não foi só destruída, mas apagada da memória popular.
A única batucada que ouvi na Praça Onze foi um funk batidão.


Muito choro, pouco disco

09 de Maio de 2013 - 15:11 hscomente esta notícia

Muito choro, pouco disco
“Na Praça Clóvis/ minha carteira foi batida/ Tinha vinte e cinco cruzeiros/ e o teu retrato/ Vinte e cinco francamente achei barato/ pra me livrar/ do meu atraso de vida”. Basta um pequeno verso de Paulo Vanzolini para perceber a qualidade de sua obra.

Eis o zé-ninguém, caminhando entre anônimos metropolitanos com uma merreca no bolso, e ainda assim é roubado. Mas o samba é equilíbrio entre alegria e tristeza. A quantia é pequena, o benefício grande: livrar-se do amor enroscado na memória.

A maestria de Paulo Vanzolini está em tratar temas complexos com surpreendente simplicidade. Em melodia quase falada – como fazia Noel Rosa –, ele põe na corda bamba amor e desilusão, ingenuidade e sarcasmo, humor e melancolia, sem se afastar do linguajar das ruas. Resume, em tão pouco texto, a sabedoria do samba.

Certamente não era nele que Vinícius de Moraes pensava, já com a memória bagunçada pelo álcool, ao chamar São Paulo de “túmulo do samba”. Nem em Adoniran Barbosa, Germano Mathias, Vadico, Blecaute ou Geraldo Filme. A verdade é que a frase de Vinícius, um momento pontual de decepção com a boemia paulistana, ganhou fama fora de contexto.
Paulo Vanzolini foi um homem coerente. Frequentava os mesmos bares, geralmente simples e tradicionais, isento de badalação, escapando de qualquer deslumbramento com a celebridade que se tornou. Celebridade no sentido de sujeito notório pelas qualidades, não a fama instantânea advinda de qualquer macaquice.

Aliás, por mais que Vanzolini ficasse no seu canto, os famosos o procuravam para o beija-mão, tanto gente séria quanto aventureiros em busca de respeitabilidade. Com a morte, após um longo período em que a saúde já não dava as caras, tevês, rádios e jornais trataram do compositor com íntima autoridade. Mas quem ouve Paulo Vanzolini (não vale citar Ronda nem Volta por cima)?
Basta procurar por aí, há muito pouco para se ouvir de Paulo Vanzolini nas lojas. O país comovido com o grande autor não foi capaz de manter discos fundamentais em catálogo.

Dos mais conhecidos, apenas Onze sambas e uma capoeira (Marcus Pereira, 1967) está à venda na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) por R$ 19,90, clássico para ser comprado sem hesitação. A gravadora Biscoito Fino (www.biscoitofino.com.br), que lançou uma caixa com quatro CDs em 2002, relançou a obra condensada em CD único, uma seleção do Acerto de contas de Paulo Vanzolini com Chico Buarque, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, entre outros. Em DVD, há o filme Um homem de moral (2009), de Ricardo Dias. São, portanto, apenas dois títulos (de áudio) em catálogo – e raros de encontrar. Eis o verdadeiro túmulo do samba.

O sorriso irônico de Paulo Vanzolini está iluminando o boteco lá de cima. Pois o sambista deveria ser menos chorado e mais ouvido.


Estúdio realidade

22 de Abril de 2013 - 16:10 hscomente esta notícia

O novo CD de Rodrigo Garcia Lopes abre e fecha ressaltando seu lado beat, o da poesia falada em happenings musicais cheios de suingue. Mas é no miolo que Canções do estúdio realidade esconde suas complexidades. A primeira delas é a palavra, mergulhada em melodia. As letras já não parecem poemas musicados. A segunda é a direção musical de André Siqueira, dando tal qualidade aos arranjos que eles, muitas vezes, roubam a cena.

Dizer que o CD, com distribuição da Tratore e patrocínio do Promic, mistura MPB e jazz é pouco. Há algo sinfônico no sentido com que as vozes se cruzam. A bateria de Rodrigo Serra, por exemplo, está longe de se restringir ao ritmo. O piano econômico de Mateus Gonsales fala pouco e toca muito, sempre em acordes abertos. Gabriel Zara divide o baixo com o próprio André, que empunha o inconfundível fretless construído por Renato Alves e faz um belo solo em Alba – canção praieira que disfarça uma ciranda.

Há momentos cinematográficos na tensão de Vertigem e uma delicadeza à Modern Jazz Quartet em Cerejas, talvez pelo vibrafone límpido de Marcello Casagrande. O suingue volta em Adeus, parceria visceral com Paulo Leminski. E é leminskiano o clima de haikai que pousa sobre Iluminações, parceria com Bernardo Pellegrini. É uma melodia que segue a fala, mas com direito a curvas fechadas no caminho. Com Neuza Pinheiro, Rodrigo assina a folk Butterfly, única em inglês.

Não é disco para se ouvir distraído. Ele clama por atenção, que revela tessituras imperceptíveis à primeira audição. Evite, portanto, aquelas caixinhas de computador. Canções... é para se abrir com volume e amplitude.

Seus detalhes, caminhos, pontos e cruzamentos é que são elas. Dão o clima, porque se trata de CD com arquitetura, ambiente. Há poesia, mas ela não é exatamente a ponta de lança. Cantador, Rodrigo Garcia Lopes especula sentimentos que assombram nossa condição humana. Com palavras ou sem.


Ernesto Nazareth

15 de Abril de 2013 - 14:22 hscomente esta notícia

No dia 1º de fevereiro de 1934, Ernesto Nazareth empreendeu uma fuga extraordinária. Aos 70 anos, pulou uma janela da Colônia Juliano Moreira e, por uma hora, de pijama listrado, correu pela mata, entre pedras e limo, até despencar no pequeno lago formado pela cachoeira que fornecia água ao manicômio. Três dias depois, seu corpo foi encontrado.

Vinte e cinco anos se passaram até que um indignado Jacob do Bandolim refizesse o caminho para concluir: “Foi suicídio”. Quem conhece a seriedade de Jacob sabe que o bandolinista não empenharia a palavra em vão, ainda mais se tratando de seu grande mestre (saiba mais em www.ernestonazareth150anos.com.br).

O pianista e compositor Ernesto Nazareth nasceu há 150 anos, foi protagonista na conversão da música de salão européia em algo eminentemente brasileiro, é personagem absoluto de nossa música e, mesmo que seu toque chopiniano prezasse gêneros do século 19, foi um grande antropófago a transformar o estrangeiro em tupiniquim. Poucos modernistas o reconheceram, porém. Entre eles, o mais importante: Mário de Andrade, cujo conhecimento musical detectou no velho maestro a ousadia da brasilidade.

Não foi o único. Villa-Lobos, Arthur Rubinstein e Louis Moreau Gottschalk renderam-lhe admiração. Tangos e polcas de Nazareth foram editados na França e Estados Unidos. O maestro, entretanto, permanecia em seus palcos mais familiares, demonstrando pianos em lojas de instrumentos ou nas salas de cinema.

Tornou-se uma espécie de famoso anônimo, se é possível, estendendo sua influência aos dias de hoje enquanto vivia de subempregos. Muitos narram o fim melancólico, esquecido nos saguões dos cinemas, delirando ao piano antes das projeções. Seus tangos e polcas, porém, já integravam o imaginário do país.
Foi levado ao manicômio Juliano Moreira em decorrência da sífilis. A instituição ficou famosa por receber Lima Barreto, anos antes, e depois Arthur Bispo do Rosário, até que, nos anos 80, multiplicaram-se as denúncias de maus tratos.

Lá, Ernesto Nazareth teve outra certeza além de tocar piano: fugir.


Férias

08 de Abril de 2013 - 00:46 hscomente esta notícia

Se me falarem que um mês se passou desde a última coluna eu diria se tratar desses lapsos de tempo típicos da ficção. As férias são longas para quem nos vê de bermuda. Para o protagonista, duram um cochilo.

Deu tempo de reler autores que eu admirava na época da faculdade, como João do Rio (A alma encantadora das ruas), capaz de escarafunchar o submundo de um Rio de Janeiro embriagado pela belle époque parisiense, repórter primordial que desmaia em quartos escuros repletos de chineses consumindo ópio. (Sua contrapartida politicamente correta, Jota Efegê, decepciona em O Cabrocha ao tentar o mesmo, mas sucumbindo às morenas arredondadas, transformando a periferia num roteiro típico dos seriados de favela romantizados na tevê.)

Lima Barreto foi intolerante. Despejou sua bílis amarga, cheia de rebeldia, ridicularizando a sociedade. O Brasil era um imenso presunto, o “jambon” (Coisas do reino de Jambon), roído pelos aproveitadores e, ainda assim, conservando sua apetitosa forma de pernil suíno. Devorado ainda hoje, como nos lembram os parlamentares, sem perder suculência.
Lima esculhambou colegas jornalistas (e seus vícios de profissão) em Recordações do escrivão Isaías Caminha. Em troca, ganhou desafetos e um triste exílio editorial. E, de sobra, desancou Machado de Assis pelo apreço que este mantinha em se integrar à aristocracia.

Lima é ainda mal compreendido. Foi criado em hospício, viu o pai sucumbir à loucura e terminou, o próprio, internado. Um desajustado que não compreendia como Machado de Assis suportava tão bem a elite.
Três mulatos que sofreram ainda outros preconceitos: Lima era alcoólatra, Machado epilético e João do Rio, gay. Cada um, à sua maneira, espinafrou o Brasil de ontem.
Ou de hoje? Basta um cochilo.


Marchinhas

18 de Fevereiro de 2013 - 00:56 hscomente esta notícia

Se nossa MPB perdeu a capacidade de exercer a crítica política, coube à velha marchinha de carnaval destilar veneno e preservar uma prática que já foi marcante na música brasileira. Falei velha arriscando morder a língua, pois a marchinha está atual, fresca (às vezes afrescalhada), irônica e mordaz.

No domingo, dia 10, O Globo trouxe uma pequena matéria: O mensalão caiu no samba, falando da irreverência com que o tema foi tratado pelos blocos do Rio de Janeiro.

A Sebastiana (Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro) registra em sua página (www.sebastiana.org.br) a marcha do bloco Imprensa que Eu Gamo, fundado por jornalistas em 1995: “Zé Dirceu se perdeu/ Antes ele do que eu/ A Carolina todo mundo viu pelada/ Menos o Lula que nunca sabe de nada”.

No bloco Meu Bem, Volto Já, fundado pelo escritor Marcio Paschoal, sobrou alfinetada: “Limão no olho, telefone , adultério/ Lady Jefferson, Delúbio e Valério”.

Pegou mais leve que a Banda da Barra: “Dirceu que levou meu dinheiro/ pro estrangeiro/ valeu Joaquim Barbosa, acabou com essa farra”.

Nos botecos do Rio, de boca em boca, rolou outra quadrinha: “É ou não é/ piada de salão/ Dirceu diz que não é/ chefe do mensalão”.

Já O dicionário da corrupção foi composto por Bel Meirelles, de São Paulo: “Sanguessuga é o mesmo que vampiro/ Cuecão é pra tampar o bundão/ Dossiê investiga em sigilo/ Salário mole chama mensalão”.

A coluna de Ricardo Setti, na Veja, deu outra dica. O Bloco do Pacotão, em Brasília, veio com essa: “Guido Mantega, que decepção/ o seu Pibinho não dá nem pro mensalão”.

Polêmica, noticiada pela Gazeta do Povo, provocou a marcha Na coxinha da madrasta, composta por Flávio Henrique para o baile da Banda Mole, em Belo Horizonte. A canção satiriza a câmara de vereadores da cidade: “Aqui em Beagá/ Agora nós temos Babá/ Para a tristeza dos metropolitanos/ O Babá cá vai ficar mais quatros anos”.

Deu rolo e Flávio Henrique foi convencido a retirar a marchinha da internet. Era tarde. Já estava replicada em inúmeros sites.


Um Cadeião de memórias

31 de Janeiro de 2013 - 16:02 hscomente esta notícia

O Cadeião de Londrina funcionou durante pouco mais de quatro décadas, e guarda o peso de todas elas. Basta atravessar uma porta, a que separa a ala mais recente da ala original – construída em 1953 –, para se deparar com histórias contadas exclusivamente ali, quando o estoque raspou a parede deixando marcas, milhares delas. Histórias que não são oficiais, nem têm começou ou fim. Quase todas, porém, tratam de amor, crime, morte, liberdade e desespero.

Basta atravessar a porta e entrar nos corredores: o ar já não é o mesmo, carregado e cinzento como as paredes que, de tantas cores empalidecidas, nenhuma predomina.

O ambiente não é menos triste no pátio ensolarado, tomado pelo mato. Lá, um Jesus Cristo de traços primários tornou-se testemunha de olhos serenos, mas abertos.
As cicatrizes do Cadeião espalham-se pelos pavilhões, corredores, escadas, banheiros, cozinha e celas. A luz enfraquecida atravessa as grades para bater no cimento esburacado, na tinta que se foi deixando uma infinidade de rabiscos, pichações e colagens.

Lá, as paredes falam: “Se sua estrela não brilha, não venha apagar a minha”; “Triste vida em vão quem tem a vida na vida de uma mulher da vida”; “Vida longa para meus inimigos, para que eles consigam assistir minha vitória”; “Fantasia é um bom lugar para as férias, mas realidade é onde se passa a vida”; “Nós não morremos, nos reagruparemos no inferno para roubar o diabo”.

Textos, desenhos e sinais perdem-se na penumbra. Cada parede é uma mistura de rebocos, infiltrações, gambiarras, restos de tecido, pedaços de jornais, fotos de mulheres nuas, pichações. De perto, apresentam infinidade de cores e formas em camadas sobrepostas de tinta e cimento. De longe, predomina um fúnebre cinza-amarelado, uma cor amorfa. As grades enferrujadas lembram o tempo, sempre lento, da cadeia.

Bokão, Truta, Leo, Rogin, Gambá, Nego, Tito, Gordo, Dino, Frajola, Klebin, Fernando, André, Jango, Piu-Piu, Pedrin, o que poderiam nos contar? Nomes que se embrenharam pelas rachaduras, descascados, tijolos, emendas, fiações. Brigam com os espaços vagos do esquecimento para construir um edifício de memórias

Fábio Luporini/JL

Fábio Luporini/JL /
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O martírio de Lincoln

24 de Janeiro de 2013 - 15:48 hscomente esta notícia

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Os ombros são curvados, as roupas amarrotadas. A voz, rouca e até enfraquecida, às vezes se sobrepõe em momentos de firmeza. O Lincoln de Daniel Day-Lewis, que estreia amanhã nos cinemas do Brasil – e de Londrina – com a chancela de Steven Spielberg, apresenta o 16º presidente dos Estados Unidos acaipirado e atormentado por dúvidas, intuitivo até, mas cuja retidão de caráter acaba por fortalecer o mito.

Lincoln gosta de contar histórias e piadas, tem simpatia pelos negros – aqui o termo pejorativo nigger, ao contrário do Django Livre de Tarantino, não provocou qualquer polêmica –, está perto do povo e longe do aspecto severo e resoluto imortalizado nos livros de história, embora a semelhança seja uma das qualidades do filme. Eis que, humanizado, demonstrando fisicamente as consequências de pressões e embates, Lincoln torna-se personalidade factível, crescendo em heroísmo.

Bom até a medula, mas nem sempre correto, o presidente enfrenta discussões de relacionamento com a instável, porém sensata esposa (Sally Field) – acusada de insanidade –, e não hesita em esbofetear o filho na ilusão de afastá-lo do alistamento. É um Lincoln capaz de ceder os mapas estratégicos da Guerra Civil Americana para o filho menor brincar, e que mantém um luto constante, pedra de gelo na alma, pela morte de outro filho no conflito.

Nesse contexto, Lincoln enfrenta a oposição dos democratas para aprovar a 13ª emenda, que liberta os escravos dos EUA. O fim da escravidão levaria, por consequência, ao desfecho da Guerra Civil. Mas resta a dúvida: como manter a unificação de um país com economia e cultura eminentemente escravocratas?
Eis o presidente enfrentando lobbies ruralistas, democratas conservadores – os republicanos aparecem como verdadeiros visionários –, preconceitos e mais um sem número de tramoias e negociatas. Mas prossegue, quase suicida, na inabalável retidão de seus objetivos. São praticamente 150 minutos desnudando os intrincados bastidores políticos da América do século 19.

Como a história é particularmente complexa, o roteiro não deixa espaços em branco. Amarra tudo em competentes diálogos, orquestrando para que a mão de Spielberg conduza os sentimentos, contidos na maior parte do filme, mas extravasados nos momentos em que a partitura de John Williams cresce em compassos lacrimosos.
A linearidade da narrativa evita ousadias e lembra a Via Crúcis – o sofrimento de Lincoln aumenta conforme os acontecimentos se fecham em perigoso cerco, até que a redenção vem acompanhada pela morte.

Capaz de acabar com a guerra e a escravidão, unificando um país rachado, o presidente humanizado de Spielberg acaba por reafirmar o mito. Tecnicamente impecável, emotivo e heroico, Lincoln é talhado para o Oscar (para o qual recebeu nada menos que 12 indicações).


Vijay Iyer Trio

21 de Janeiro de 2013 - 14:58 hscomente esta notícia

Se há sangue novo no jazz, sem dúvida é o de Vijay Iyer, filho de indianos nascido em Nova York e PhD em ciência da música por Berkeley. Pianista, escreve para orquestra, quartetos de cordas, teatro, cinema e balé, além de flertar com a música pop, especialmente o hip hop. Tem mais, o rapaz de 42 anos acumula prêmios, entre eles o de melhor grupo de jazz de 2012 pelo The New York Times, justamente com o disco Accelerando.

Ouvindo o CD, percebe-se que a descrição acima é enxuta para resumir um talento renovador do jazz, capaz de aglutinar as linhas hot e cool com a mesma intensidade, fazendo música para o corpo e a alma.

Accelerando mistura composições próprias, como Bode, a imponente faixa de abertura, com temas conhecidos. O entrosamento com Stephen Crumb, contrabaixista de bastante groove, e Marcus Gilmore, baterista capaz de suingar sem correr – ele, por sinal, é neto do fabuloso Roy Haynes.

O ritmo, com todas as suas complexidades, é o mote do álbum, somado à capacidade de Iyer em preencher brechas harmônicas cavadas entre as curvas da melodia. O registro, em geral, é médio, e o piano não despeja notas em grande volume, mas concentra-se na estrutura do tema, apostando em repetições que podem ser encaradas como loopings que se renovam e se transformam.

Human Nature, hit do Thriller de Michael Jackson, é o tema mais conhecido – e nos faz lembrar a versão de Miles Davis, datada pela sonoridade eletrônica restrita aos anos 80 -, transformado aqui em um jazz progressivo, com momentos de forte improviso, embora Iyer não seja um improvisador tradicional. Sua interpretação recai principalmente sobre acordes e arpejos, com um toque vanguardista de pós-Bop.

Talvez a mais bela das faixas seja The village of virgins, trecho do balé The River, de Duke Ellington. Há algo de blues neste encantamento ensolarado porém melancólico, um desfecho à altura de Accelerando, capaz de retomar o caráter festivo do jazz primordial sem perder a profundidade reflexiva da melodia. Para ouvir até sair cantarolando pelas esquinas.


Eterno Jovem

14 de Janeiro de 2013 - 14:39 hscomente esta notícia

“Estou tecnicamente morto”, disse Paulo Francis, nos anos 90, sobre sua inadequação à contemporaneidade. A frase me veio diante da infantilidade cultural em voga, em especial na seara pop. É difícil não ficar deslocado diante de cantores que ainda recendem a talco, duplas com hits onomatopaicos, cantoras com mais pernas do que talento, roqueiros com cara de mau sem acertar um Lá Maior, eletrônica brega travestida de sofisticada, talentos decadentes buscando um sopro de modernidade e tosquices a rodo.

Não se trata de intolerância. Respeito o gosto alheio. O problema é a tentativa constante – e os meios de comunicação batem na tecla – de pintar o melhor dos cenários. É aí que relembro Francis: para este universo, estou tecnicamente morto. Parei no século 20.

A eterna juventude sempre foi um mito da cultura pop. “Quero morrer quando ficar velho”, cantava o The Who. Michael Jackson viveu na mansão chamada Terra do Nunca. Madonna insiste em se vestir de cheerleader.

Com a adolescência estendendo-se para além dos 40 anos, os cinemas foram entupidos com filmes ruins sobre antigos heróis dos quadrinhos. Um flashback capaz de vencer a barreira das gerações – o cantor bonitinho adorado pela filha também rouba os olhares da mãe. As idades se fundem no mesmo gosto. Nivelando por baixo, ocorre o milagre da multiplicação de público e renda.

Há quem resista, como David Bowie, que envelhece dignamente e pretende lançar, em março, Where are we now?, seu primeiro disco em uma década, com a ingrata missão de comprovar a existência de música pop para adultos. Capaz de abalar certezas, Bowie reaparece justamente quando o mito da eterna juventude dobra-se ao peso do tempo.


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