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Vísceras

14 de Maio de 2012 - 14:47 hscomente esta notícia

A música de Jenny Hval é uma geleira de poucos acordes conturbada por sentimentos ferventes. Verdadeira caneca de chá em nevasca persistente. Agudos capazes daquele aconchego interior, uma infusão cujas propriedades vão se espalhando nos ouvidos sem esquecer que lá fora faz frio. Muito frio. Um calor de lareira, cuja lenha é a palavra.

Misture melissa (a planta) com erva doce, sem açúcar, e aparece aquele mistério de um passado familiar que não vivemos, mas é tão nosso como se hoje fosse ontem. Ou boldo com menta, e há o refresco fundido com o amargo do que já não desejamos lembrar, embora pulse incontrolável nas veias. A vida é corda bamba esticada entre alegria e tristeza.

Norueguesa, Jenny Hval compõe a partir do improviso. É modal na maioria das vezes – aproveita construções musicais diferentes das escalas maior e menor, que regram nossa música. O que facilita a harmonia simples e os devaneios da voz que podem alcançar tanto esferas ancestrais quanto melodias pop, daquelas em que o adjetivo desconhece o adocicado das paradas de sucesso.

Meredith Monk, Laurie Anderson, Tori Amos, Kate Bush e até Patti Smith dão as caras de forma sutil nessa música um tanto etérea. Jenny Hval é escritora. E confere ao peso das sílabas um experimentalismo que agrega características da música contemporânea: a noção de ritmo é particular, o canto pode virar fala e as notas são escassas, mas com peso determinante. A dinâmica é de fogão a lenha, aquece de forma constante, sem exagero nem pressa. Jenny ainda não tem as pretensões da islandesa Bjork.

O que se ouve é neve branca de reflexos azuis. O disco Viscera (2011), lançado pela Rune Gramofon, é um compêndio introspectivo e sensual de uma alma em ebulição, carregado de influências literárias – como a música Portrait of the young girl as an artist revela. Blood Fight, com sua percussão tribal, mostra o sangue nas vísceras. Mesmo que lá fora haja apenas gelo.


Obrigado, Tinoco

06 de Maio de 2012 - 16:57 hscomente esta notícia

Só se falava em Pedro Leonardo quando Tinoco morreu, na semana passada. O ícone da música caipira foi embora sem conquistar 15% do noticiário dedicado ao jovem acidentado, o que ilustra bem como os veteranos do gênero têm sido maltratados. Pouca gente sabe que, após ter o câncer diagnosticado, Tinoco enfrentou dificuldades financeiras – a família chegou a rifar um carro usado. A ironia é que, culturalmente falando, a importância de Tinoco na dupla com Tonico é proporcionalmente inversa.

Tonico e Tinoco fazem parte de um time que moldou a música sertaneja: Raul Torres, Teddy Vieira, Vieira e Vieirinha, Palmeira, Angelino de Oliveira, Cornélio Pires, João Pacífico e tantos outros. Gente de pé no chão, que tocou em circo de lona furada e baile em tulha de café. Gente que fundiu rural e urbano, conquistando espaço no rádio e entrando, aos poucos, nas cidades, abrindo o caminho para o círculo milionário de megaespectáculos que se vê hoje.

Saíram a enxada, o galo cantando, a morena brejeira, a roça, a viola. Entraram caminhonetes importadas, botas texanas, piriguetes, baladas, música pop e gado para exportação. Como gênero musical mais lucrativo, a música sertaneja – ou sertanejo universitário, ou sertanejo pop – desenvolveu uma fobia do próprio passado, afastando as origens rústicas e simples do cotidiano de aviões, boates e hotéis requintados.

Claro que não se deve congelar o tempo ou voltar ao passado. Mas uma vez transformados em celebridades, os cantores sertanejos contemporâneos – sei que existem exceções – esqueceram quem abriu as portas.

É difícil esperar que Tinoco seja nacionalmente reconhecido se nem a própria música sertaneja – essa deslumbrada pela fama – o faz. Custaria muito pouco para quem ganha tanto dinheiro dizer ao menos um “obrigado”.


Voz do subúrbio

30 de Abril de 2012 - 14:17 hscomente esta notícia

Ele sorteou a sogra no bingo em uma única pedra, chamou o cunhado de “dízima periódica” e vendeu pintinhos coloridos – que ele mesmo pintava – na infância. Tornou-se um péssimo pintor de paredes, antes que a profecia se cumprisse e ele virasse Dicró, o último dos malandros, a voz do subúrbio.

Aprendeu o samba no terreiro da mãe (“a sogra da minha mulher é gente boa”), dedicado à umbanda. E foi lá, numa favela de Jacutinga, na Baixada Fluminense, que Zé Pelintra baixou para vaticinar: “Você ainda vai viajar muito de avião”. Dito e feito. Com a música Olha a rima, cheia de duplo sentido, Dicró viajou pela primeira vez a São Paulo. De avião.

Mas a carreira se consolidou mesmo quando o Bingo da sogra tornou a própria em alvo principal (“sogra deveria ter dois dentes, um para abrir cerveja e outro para doer o dia inteiro”). Tudo garganta. Dicró foi casado por mais de 40 anos (“sou um herói”) e considerava sua sogra uma “segunda mãe”.

Exímio tocador de caixinha de fósforo (“instrumento de pobre”), “prefeito” do Piscinão de Ramos, gourmet dos pés sujos da Praça Mauá, Dicró pedia Ré Maior ao pandeirista e torcia para que “nossos filhos não tenham padrastos”. A veia humorística rendeu uma hora de piadas em seu DVD do devedor – a hora seguinte é de puro pagode, aquele partido alto em que o improviso rola solto.

Em 1995, juntou-se a Moreira e Bezerra da Silva no disco Três malandros in concert – o trio satirizava Os Três Tenores e foi barrado ao tentar fazer uma foto dentro do Municipal do Rio de Janeiro.

Dicró nunca saiu do subúrbio (“onde moro ladrão tem medo de ir”), mas teve quadro no Fantástico, na Escolinha do Professor Raimundo (era o “ressaca eterna”), fez ponta em vários programas de tevê e até encarou comédia stand up. O improviso era sua profissão.

Chegou a escrever um livro, Dicró e salteado: “Só vou lançar depois que morrer porque senão minha mulher me mata”, revelou a Jô Soares. Infelizmente, deu-se a hora do livro chegar às prateleiras.


Dia do Choro

23 de Abril de 2012 - 14:03 hscomente esta notícia

Vez ou outra a cultura brasileira sofre da síndrome de Policarpo Quaresma, o personagem de Lima Barreto tão obcecado com o Brasil que considera a Língua Portuguesa um estrangeirismo e, por isso, propõe a volta do Tupi como idioma soberano. A marcha contra a guitarra elétrica, no fim dos anos 60, foi um deslumbre de Policarpo. Um surto que ainda tem seus espasmos, como se a influência estrangeira fosse um temor a se evitar.

Não há lógica em disfarçar nosso hibridismo. O choro, gênero raiz da identidade nacional, é uma variação tupiniquim da polca, da valsa, do schottisch e outros gêneros que permeavam os salões da aristocracia europeia no século 19. Nossa grande contribuição foi conferir a tudo isso uma forma brasileira de tocar – e compor.

Hoje, 23 de abril, é o Dia do Choro, uma homenagem ao nascimento de Pixinguinha (23/04/1897). Trata-se de um gênio, adjetivo que os poucos leitores dessa coluna nunca leram por aqui. Porque foi um intérprete soberano, porque moldou a música brasileira, porque sabia mais do que conseguiu realizar. E parte do que realizou, tornou eterno. Porque ainda foi um arranjador excepcional e pouco reconhecido.

Pois o choro não engessou. Cresceu, multiplicou-se, ganhou amplitude entre jovens e bons músicos que reconhecem o legado maravilhoso, trazendo-o à contemporaneidade. Jovens que respeitam as raízes de Jacob do Bandolim e Pixinguinha, e aprenderam com eles a capacidade de virar o calendário a favor.

O choro é nosso legado há mais de 100 anos. Não envelheceu. Abraçou do samba-canção ao rock, mantendo-se ele mesmo. Sua maior escola é a execução coletiva, na qual a melodia reina absoluta, mantendo um romance afoito com o ritmo, deixando a harmonia serpentear em forma de contraponto.

Pixinguinha poderia muito mais, não fosse esquecido à beira de um balcão consumindo duas garrafas de cachaça por dia. O choro nos ensina que os estrangeirismos são benéficos. Desde que saibamos o que nos faz brasileiros.


Testemunha ocular

18 de Abril de 2012 - 17:34 hscomente esta notícia

Antes que a voz da discórdia serpenteie por aqui – e ela virá a semear dúvidas –, garanto, minha senhora, que os fatos a seguir são verdadeiros como o famoso gol do Pelé após três chapéus na zaga do adversário. O incidente deu-se nos anos 90, quando eu era franzino feito uma vara de pescar e não havia celular com câmeras digitais para comprovar o ocorrido – como a jogada inesquecível do Rei, lá por 1900 e suspensório, tornou-se mito na boca do povo.

Descendo a Rua Pernambuco, no centro de Londrina, a assoviar qualquer coisa, vejo, ao longe, tal sujeito dobrando a esquina em minha direção, ziguezagueando mais do que o ataque do Santos. Ele corria no meio da rua, com fôlego de perseguido, esbaforindo frases:

-Eles não vão me pegar, não vão.

Eis a cena de cinema. Pois virou a esquina, atrás do dito, verdadeira multidão. Uma balbúrdia de filme do Eiseinstein, repleta de atletas da academia ali perto mais senhores de calça social segurando o maço de cigarro no bolso da camisa, madames indignadas bramindo sacolas raivosas, molecada pronta pra qualquer folia, enfim, populares aos montes fechando subitamente a rua atrás do ladrão.

Como, minha senhora? Se era ladrão? Só tive certeza depois que ele passou por mim, implorando para não ser derrubado (e ladrão corre com pernadas longas, parecendo mais lento do que é).

-Pega esse cara aí, pô!, gritavam.

Não peguei. Nem a contramão do tumulto, nem a descida a favor, fariam com que eu, digamos, pegasse homem. Esquivei, e a manobra foi mal recebida pela turba que se esforçava na subida atrás do trombadinha. Ou melhor, trombadão. Um ou outro perseguidor ensaiou reclamar comigo, especialmente o baixinho de camisa regata que ficou menos bravo ao perceber que os colegas de academia passavam reto.

Olhei para trás, acompanhando a bagunça. Então, do açougue acima, saiu um rapaz de botas brancas e avental manchado de sangue. Foi ele o autor da voadora, acertando em cheio o ombro do fugitivo, que tombou num capote fenomenal.

A turba o alcançou ainda no chão, onde o capiau começou a apanhar dos fortões da academia – inclusive do baixinho, agora pleno de si. Voaram isqueiros, bolsas, lenço de cabelo, sapato Vulcabrás, caneta Kilométrica, melão de feira, óculos bifocais. Um senhor barrigudo enrolava o cinto na mão, doido para sentar a porrada, quando o carro da polícia chegou com estardalhaço.

Ao toque da sirene, a vítima – sim, minha senhora, ele apanhou tanto que virou vítima – deixou escapar expressões de alívio. Preferia a cadeia ao linchamento. Mas a polícia quis fazer moral afastando o povo para, ela mesma, dar conta do serviço. Sob uma saraivada de cassetetes, o sujeito foi jogado no camburão.

Uma rapariga, dessas que ficam deslocadas à luz do Sol, me segredou, mordendo o lábio inferior de raiva, que o detido havia roubado a correntinha de ouro de outra moçoila de hábitos noturnos, distraída ao procurar certa clínica, fragilizada a ponto de desmaiar com o susto.

Não era inteligente, o rapazola, pois cometeu o delito em frente à academia. Na fuga, errou novamente, virando a esquina em direção à subida. Já fraquejava da maratona quando foi atingido pelo açougueiro. Danou-se. Tivesse descido, chegaria com a velocidade dos que precisam salvar a pele às matas do Lago Igapó. E, dali, só Deus sabe.

Não seria pego. E eu não perderia tempo tentando, com esta crônica, imitar desbragadamente o estilo do Stanislaw Ponte Preta, o saudoso Sergio Porto.


Keith Richards da viola

15 de Abril de 2012 - 16:29 hscomente esta notícia

Da seringa que deslizou de um saxofone no aeroporto de Honolulu às cutucadas ao apetite sexual de Mick Jagger, o que mais chama a atenção na autobiografia Vida, de Keith Richards, diz respeito à formatação dos Rolling Stones. Afora o estilo “nem aí” do guitarrista, o melhor do livro está na paixão pela música – e não pelo sucesso.
Nem as brigas, overdoses, prisões, turnês avassaladoras e veneno destilado sobre Brian Jones ou Bill Wyman superam os momentos em que Keith Richards explica sua busca por um som cru, sujo, sem firulas, para ser tocado com amigos – às vezes nem tão amigos.

Eu era um moleque arranhando a guitarra Tonante, com um dos três captadores envenenado artesanalmente e um pedal overdrive que mais parecia um tijolão. E aqueles riffs tão simples dos Stones saíam quadrados, por mais que os ouvidos se esforçassem.

Richards revela o truque, já conhecido entre músicos e fãs antenados: em vez da afinação usual, ele adota a afinação de banjo adaptada à guitarra, reduzida muitas vezes a cinco cordas. A ideia veio dos Everly Brothers, reforçada por Gram Parsons e, depois, Ry Cooder (além de uma penca de gente). É como se fosse outro instrumento, cuja lógica e digitação mudam completamente, algo mais próximo ao modalismo dos bluesmen rurais.

Ao descobrir a afinação aberta (a preferida é em Sol – Sol-Ré-Sol-Si-Ré, mas também em Mi ou Ré), no fim dos anos 60, Keith Richards imprimiu um novo rumo aos Stones. Ela está em Jumping Jack Flash, Brown Sugar, em todo o Exile on Main Street e até em Start me up. A afinação aberta permite que as cordas soltas formem um acorde, algo muito parecido às afinações de nossas violas caipiras, que parecem ampliar o som. Era, ao mesmo tempo, uma forma de preservar as raízes blues/country do grupo inglês em um ambiente sintomaticamente pop.

Da mesma forma que não se considera um grande guitarrista – talvez sua qualidade esteja na falta de virtuosismo –, Keith Richards não faz do recurso um segredo. Como um velho e bom violeiro, ele joga o anzol para fisgar adeptos – e perpetuar a música em que acredita. Aposentadoria? Só na morte.


Whitney Houston

13 de Fevereiro de 2012 - 14:48 hscomente esta notícia

Prima de Dionne Warwick e filha da cantora Cissy Houston, Whitney Houston foi cantora gospel antes de enveredar pelo mundo soul/pop. Tinha uma técnica vocal tremenda, embora o hit I always love you, tirado do repertório de Dolly Parton, fosse exageradamente açucarado, com notas prolongadas à exaustão. Whitney Houston conheceu o lado fúnebre do sucesso que vira ocaso. Bateu recordes de vendas enquanto se frustrava na vida pessoal, incluindo uma longa dependência química. Foi adorada no auge e, uma vez dependente, tornou-se alvo da mídia urubu, que se refestela com a derrocada alheia. Os meandros do sucesso não servem para qualquer estômago. Mas ninguém está preocupado com isso. Apenas louva-se a fama e chora-se o desfecho. O eclipse entre uma e outro é varrido para baixo do tapete. Quando Whitney tentou retomar a carreira, há alguns anos, parecia uma caricatura. Muitos entre os que hoje lamentam a triste passagem não se comoveram com a batalha pela vida. A decadência desperta instintos bizarros como o prazer de assistir, em praça pública, a derrocada de uma popstar. Alivia-nos o fato de que os famosos estão sujeitos às tragédias das pessoas comuns. Quando a morte vem, fica tarde para lamentações.


Preces e canções

30 de Janeiro de 2012 - 16:45 hscomente esta notícia

Se a noite é longa, assombrada por dores na alma, há uma voz anciã e grave cantando os descaminhos do mundo. Essa voz é de Leonard Cohen, traduzindo em metáforas os medos mais profundos e indizíveis. Eis Old Ideas (Columbia), o novo disco – que tem lançamento internacional amanhã – do poeta que sucumbiu à canção ao extrair das palavras fiapos de melodias mais poderosos do que muitos cantos acrobáticos podem expressar. Aos 75 anos, Cohen sabe da escassez do tempo, cuja maré vem de encontro a uma sabedoria que pertence ao universo dos sentimentos e receios, do labirinto escuro em que todos nos debatemos.
Talvez por cutucar o desconhecido, há no disco o soar de preces, disfarçadas em canções lavradas na palavra. Leonard Cohen fala mais do que canta, extraindo a melodia de cada inflexão de forma simples e emocionante, transparecendo a eterna passagem da existência.
Passagem cuja proximidade Leonard Cohen antevê. Going Home abre o disco buscando o perdão, o alívio, para ir “sem tristeza”, “sem peso”, “sem vestes” para “um lugar melhor”. É nu que Leonard Cohen se apresenta em Old Ideas, completamente despojado de adereços. Em Amen, quase um hino, sua voz assume o acúmulo dos anos, soando em grave profundo com adorno de um coral gospel a lembrar que a melodia, meramente sussurrada, é maior do que Cohen faz parecer.
Afinal, 43 anos se passaram desde que o jovem poeta improvisou versos em Woodstock ao violão. Tanto tempo depois, Cohen consegue valorizar cada nota, transformando-as na prece de uma vida inteira.


Marsalis & Clapton

23 de Janeiro de 2012 - 14:18 hscomente esta notícia

Talvez devêssemos uma prece a São Norman Granz, inventor da jam session Jazz at The Philharmonic, pela inspiração que deu a Wynton Marsalis no Jazz at The Lincoln Center, em Nova York. Com o projeto, o trompetista vem proporcionando encontros inusitados. O critério é simples: tratar a música com seriedade. Coisa que Eric Clapton sempre fez, com exceções no período de dependência química. Mas justiça seja feita: a sobriedade o trouxe de volta às raízes da música americana.

Tradicionalista, Wynton tem sua Meca: New Orleans. E a ela dirige os arranjos, calcados em hinos anglicanos, marchas, boogie-woogies, blues, spirituals e jazz. Tanto que é à sombra de Louis Armstrong que Ice Cream abre o CD/DVD Wynton Marsalis & Eric Clapton play the blues (Warner), com os contrapontos típicos da era hot jazz dos anos 20.

É uma linguagem estranha a Clapton, cuja guitarra destoa em timbre da formação. Mas o guitarrista há muito abandonou os delírios de virtuose e já não esconde que também gosta de ser músico de apoio. Seus solos continuam intensos, mas aparecem menos do que o título faz supor. Em contrapartida, o resultado coletivo é sensacional.

Forty Four (Howlin’ Wolf) traz riff de Little Girl (John Mayall) na época dos Bluesbrakers de John Mayall. A banda é um espetáculo de contraponto. Mesmo a batida Layla ganha contornos inéditos com solos alternados de Clapton e Marsalis.

Distantes do universo popstar, ambos compartilham mais do que solam, bem no espírito de Norman Granz. Esse caráter coletivo é o segredo do disco, que pode ser ouvido gratuitamente em wyntonmarsalis.com/discography (o DVD tem várias faixas no YouTube).


Elis Regina

16 de Janeiro de 2012 - 13:44 hscomente esta notícia

A cantora brasileira mais marcante pós-Carmem Miranda tinha faísca no olhar, gengivas altas que levavam o sorriso até o nariz, temperamento apimentado e sobrancelhas desenhadas. Para muita gente Elis Regina é sinônimo de tristeza, clichê que faz algum sentido nas inúmeras coletâneas que costumam reduzir sua obra.

Cotada para ser a nova Celly Campelo, Elis Regina mostrou unhas e dentes incabíveis na frivolidade ingênua dos primórdios do rock. Consolidou-se com Edu Lobo, que conferia a harmonia da bossa nova a temas populares, como Arrastão (com Vinicius de Moraes).

A senda de Elis Regina, porém, revelou-se com Preciso aprender a ser só, dos irmãos Paulo e Marcos Valle. A emoção – que hoje é tratada pelas artes como debilidade popularesca – tomou-lhe definitivamente as rédeas.

Com César Camargo Mariano, transformou o fácil em difícil. A dupla pegava temas simples, como É com esse que eu vou (Pedro Caetano), dava um banho de harmonia e a música ressurgia sob medida para o abismo existencial de Elis. Era afinadíssima sorrindo ou chorando, alternando ambos com facilidade, dando abertura à interpretação jazzística que devia muito à música negra.
Elis adorava o samba sem ser sambista, as marchinhas sem ser carnavalesca, e passou incólume pela jovem guarda, bossa nova e tropicália – embora flertasse com todos os movimentos.

Era capaz de revelar importantes compositores ou gravar a vinheta de abertura do Fantástico. Elis tratava temas banais ou inesquecíveis com a mesma força, sempre expondo as vísceras. Atirava-se no abismo de si mesma sem conhecer a altura da queda. Consumiu-se, deixando uma sombra sobre a quantidade incrível de cantoras contemporâneas, muitas com bastante técnica e pouca personalidade.


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