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Laura Marling - Once I was an eagle

10 de Junho de 2013 - 14:51 hscomente esta notícia

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A inglesa Laura Beatrice Marling tinha apenas 20 anos quando apareceu nesta coluna pela primeira vez, ao lançar o disco I speak because I can (2010). Na época, a cantora e compositora impressionava pela profundidade de temas, especialmente se comparada às menininhas que pipocavam (ainda pipocam) no Brasil com um folk óbvio e infantilizado.

Agora ela está lançando Once I was an eagle, um disco tão bem acabado que não parece pertencer a esta jovem tímida e deprimida, às vezes obcecada pela morte. Sua música, em contrapartida, é pouco juvenil, embora misture ao pop a vasta tradição britânica do folk.

Aparentemente simples, o folk é daqueles gêneros musicais que exige dedicação. O domínio da linguagem precisa ser espontâneo, caso contrário – e acontece com frequência –, soa completamente canhestro.
Pois Laura tem essa bagagem. Foi iniciada no folk pelo pai. Adolescente, sentia-se deslocada por abraçar uma música que não pertencia a sua geração.

Seu violão ajudou-a a expurgar dois relacionamentos fracassados. Quando Laura Marling mergulha nos desvarios do amor, creiam, não se trata de namorico de portão. Ela sabe que um relacionamento, ao sair dos eixos, pode simplesmente abrir as portas do inferno.

Com a voz sensual, ela declara-se fechada emocionalmente em Master Hunter: “Se você quer uma mulher que lhe chame pelo nome, bem, essa mulher não sou eu”.

Há uma evolução rítmica no trabalho. As baladas cinzentas ganharam dinâmica percussiva. Seu próprio violão obedece aos impulsos de ataque e recuo, sem perder os modalismos inerentes ao folk. Mas a introspecção permanece na capacidade de escarafunchar dores escondidas.

Suas belas melodias confrontam o romance com o sarcasmo. E obedecem à facilidade de alcançar agudos emocionais, mas de firulas ponderadas, como Joni Mitchell. Embora a canadense saiba muito bem cantar tristezas, Laura Marling parece simplesmente ter uma nuvem carregada sobre a cabeça. E cultiva o estranho hábito – para tempos politicamente corretos – de chutar o balde: “Danem-se todas essas pessoas que nunca perdem o controle”, reclama em You know.

Once I was an eagle tem um arcaísmo positivo: é um álbum à moda antiga, em que as músicas se encadeiam e dialogam sobre sexo, paixão, e toda a miríade de sentimentos que giram nesta órbita. Há uma senhora maltratada pela vida atrás dos olhos dessa talentosa garota.


Madeleine Peyroux – The blue room

27 de Maio de 2013 - 14:08 hscomente esta notícia

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Já deu. O prazo de validade do clichê que dizia que Madeleine Peyroux é a Billie Holiday contemporânea venceu. Sorte de Peyroux, que se livra do estigma em The blue room (Decca/Universal). Claro, ainda há inflexões de Billie, especialmente na dicção de blues, mas o caráter country do disco faz com que ela, Madeleine, encontre voz própria.

A inspiração veio do clássico Modern sounds in country and western music (1962), quando Ray Charles fundiu soul e country. Com Peyroux, a coisa ficou ainda mais intimista. Por mais que haja uma orquestra de cordas e um piano Rhodes (de Larry Goldings), nada parece extrapolar a linha do bom senso para que a voz de Peyroux prevaleça. Uma voz crua, sussurrada como se contasse uma história ao pé do ouvido. Uma voz sem firulas.

Assim, temas manjados como Bye bye love tornam-se intimistas a ponto de serem reinventados. Born to lose, por exemplo, mostra a maioridade de Peyroux, emotiva sem se derramar. O repertório vai além de Ray Charles, e desenterra a ótima Guilty, de Randy Newman, compositor que hoje trabalha exclusivamente com cinema (Toy Story). Tudo em The blue room ressalta a capacidade interpretativa de Madeleine Peyroux (que no último disco, Standing on the rooftop, mostrava as próprias composições). Delicado, mas nada frágil, o CD não faz distinção entre pop, blues, jazz e country, tal o equilíbrio. Billie Holiday aplaudiria a discípula que se desgarrou.


Ozzy

22 de Maio de 2013 - 17:35 hscomente esta notícia

Não perguntem como a biografia de Ozzy Osbourne (Eu sou Ozzy, Ed. Benvirá, 416 páginas) caiu-me nas mãos e tampouco por que comecei a folheá-la. Tá, existe uma explicação, nostálgica: o Black Sabbath (eles vêm ao Brasil, em outubro, com shows em Porto Alegre, São Paulo e Rio) foi uma das bandas preferidas da minha adolescência.

Ozzy foi o roqueiro errado que deu certo. O cantor esganiçado, quase escapando do tom, ganha com o texto, cuja espontaneidade reproduz uma fala confusa. Ozzy achincalha a figura do rockstar e decepciona quem leva a sério o papo de heavy metal satanista. Toda a mise-em-scène de cruzes invertidas desaba diante das piadas – bastante inglesas –, como em um filme trash.

Exemplo: no começo do sucesso do Black Sabbath, o talentoso baterista Bill Ward telefona de madrugada: “Ozzy, minha casa está assombrada!”. Resposta: “Ótimo, então cobre ingressos e descole alguma grana”.
Porque as diabruras de Ozzy nada têm a ver com satanismo. Estão mais para um trem fantasma (lembram-se de Crazy Train?) cujos sustos provocam mais diversão do que medo.

É tanto sarro de si mesmo que esquecemos a capacidade do baixo de Geezer Butler – um escritor enrustido capaz de levantar questões ambientais em suas letras, lá nos anos 70, quando o petróleo era (dizem que ainda é) tudo. Ou na capacidade de superação de Tony Iommy, que reaprendeu a tocar guitarra usando implantes caseiros após perder dois dedos na linha de produção de uma fábrica em Aston, Inglaterra.

Sobra humor. Ozzy foi preso após um roubo “profissional”, em que usou luvas... furadas. Suas digitais o condenaram a alguns meses de convívio com um molestador de menores no pior presídio da região. Mesmo assim, Ozzy ri.

Ele foi afinador de buzinas, açougueiro especialista em tripas de boi, transformou o pijama em traje cotidiano e desconhecia a cueca.

Passou fome. Vê o rock como um saco de vaidades.

Uma ilha em um mar de biografados que se dizem gênios.


Final na praça

22 de Maio de 2013 - 14:12 hscomente esta notícia

Cheguei ao Rio de Janeiro na final do campeonato carioca, com Botafogo e Fluminense jogando em Volta Redonda porque o estádio do Engenhão estava interditado.

Como o hotel ficava no Largo do Machado, na fronteira entre Botafogo e Flamengo, a estrela solitária era soberana nas ruas.
Há muito boteco por ali, todos cheios no domingo à tarde. Todos com tevês ligadas no jogo. Mas o carioca não se contenta: ainda leva o radinho de pilha para o bar, colando-o ao ouvido para conferir a locução mais emocionante.

Foi num desses que parei – chamava-se Fidelense, mesa de plástico na calçada, para petiscar um frango a passarinho e observar a paixão carioca pelo futebol. Os poucos tricolores que passavam sofriam com o sarro: “Já era, hein?”.

E o futebol nem é desculpa para o carioca frequentar botecos. Estão todos na rua, todo dia, com seus cachorros e cigarros à mão. Andam pela praça, compram pão, tomam sucos, bebericam um café. O carioca adora a rua.

Deu no que deu: Botafogo marcou o golzinho salvador, garantindo o 20º campeonato carioca. No Largo do Machado, a vida era só risos.


Praça Onze

13 de Maio de 2013 - 16:34 hscomente esta notícia

Passei por baixo dos Arcos da Lapa e segui a pé até o Sambódromo. A caminhada matinal, no Rio de Janeiro, não era para conhecer a Marquês de Sapucaí. Mas sim identificar os restos de outro templo do samba: a Praça Onze. Foi lá que tudo começou. Ou se difundiu: o choro, o samba, o desfile de carnaval.

Ali, no início do século 19, era mangue. Para urbanizá-lo, D. João VI construiu o Pequeno Largo do Rocio, em 1810. Depois vieram uma fábrica de gás (1854), o trem (1858) e os bondes (1859). Quando o Brasil venceu a batalha de Riachuelo, em 11 de junho de 1865, o lugar passou a se chamar Praça Onze.

Vieram a abolição (1888) e a República (1898). Casarões deram lugar a fábricas ou cortiços. Logo, os ex-escravos chegavam em busca de emprego e moradia barata. No final do século 19 a batucada já ressoava na praça, incluindo a casa da famosa Tia Ciata.

Lá, as escolas Deixa Falar, Portela e Mangueira fizeram seus primeiros desfiles. A Praça Onze tinha uma vida cultural tão intensa quanto seu substituto, o Sambódromo, fica às moscas. A Praça Onze foi um dos mais importantes berços do samba.

Até que a Avenida Getúlio Vargas resolveu atravessar o largo em 1942.
A querida Praça Onze foi destruída. Sobrou quase nada. Em 1979, o metrô do Rio foi inaugurado com a estação Praça Onze. Alguns cortiços sobrevivem ao entorno, onde o subemprego impera com a falta de estrutura. Virou lugar de passagem.

Pergunte sobre a Praça Onze a qualquer carioca da região: ele vai apontar a estação de metrô, como se ali nada existisse antes. A praça não foi só destruída, mas apagada da memória popular.
A única batucada que ouvi na Praça Onze foi um funk batidão.


Muito choro, pouco disco

09 de Maio de 2013 - 15:11 hscomente esta notícia

Muito choro, pouco disco
“Na Praça Clóvis/ minha carteira foi batida/ Tinha vinte e cinco cruzeiros/ e o teu retrato/ Vinte e cinco francamente achei barato/ pra me livrar/ do meu atraso de vida”. Basta um pequeno verso de Paulo Vanzolini para perceber a qualidade de sua obra.

Eis o zé-ninguém, caminhando entre anônimos metropolitanos com uma merreca no bolso, e ainda assim é roubado. Mas o samba é equilíbrio entre alegria e tristeza. A quantia é pequena, o benefício grande: livrar-se do amor enroscado na memória.

A maestria de Paulo Vanzolini está em tratar temas complexos com surpreendente simplicidade. Em melodia quase falada – como fazia Noel Rosa –, ele põe na corda bamba amor e desilusão, ingenuidade e sarcasmo, humor e melancolia, sem se afastar do linguajar das ruas. Resume, em tão pouco texto, a sabedoria do samba.

Certamente não era nele que Vinícius de Moraes pensava, já com a memória bagunçada pelo álcool, ao chamar São Paulo de “túmulo do samba”. Nem em Adoniran Barbosa, Germano Mathias, Vadico, Blecaute ou Geraldo Filme. A verdade é que a frase de Vinícius, um momento pontual de decepção com a boemia paulistana, ganhou fama fora de contexto.
Paulo Vanzolini foi um homem coerente. Frequentava os mesmos bares, geralmente simples e tradicionais, isento de badalação, escapando de qualquer deslumbramento com a celebridade que se tornou. Celebridade no sentido de sujeito notório pelas qualidades, não a fama instantânea advinda de qualquer macaquice.

Aliás, por mais que Vanzolini ficasse no seu canto, os famosos o procuravam para o beija-mão, tanto gente séria quanto aventureiros em busca de respeitabilidade. Com a morte, após um longo período em que a saúde já não dava as caras, tevês, rádios e jornais trataram do compositor com íntima autoridade. Mas quem ouve Paulo Vanzolini (não vale citar Ronda nem Volta por cima)?
Basta procurar por aí, há muito pouco para se ouvir de Paulo Vanzolini nas lojas. O país comovido com o grande autor não foi capaz de manter discos fundamentais em catálogo.

Dos mais conhecidos, apenas Onze sambas e uma capoeira (Marcus Pereira, 1967) está à venda na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) por R$ 19,90, clássico para ser comprado sem hesitação. A gravadora Biscoito Fino (www.biscoitofino.com.br), que lançou uma caixa com quatro CDs em 2002, relançou a obra condensada em CD único, uma seleção do Acerto de contas de Paulo Vanzolini com Chico Buarque, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, entre outros. Em DVD, há o filme Um homem de moral (2009), de Ricardo Dias. São, portanto, apenas dois títulos (de áudio) em catálogo – e raros de encontrar. Eis o verdadeiro túmulo do samba.

O sorriso irônico de Paulo Vanzolini está iluminando o boteco lá de cima. Pois o sambista deveria ser menos chorado e mais ouvido.


Estúdio realidade

22 de Abril de 2013 - 16:10 hscomente esta notícia

O novo CD de Rodrigo Garcia Lopes abre e fecha ressaltando seu lado beat, o da poesia falada em happenings musicais cheios de suingue. Mas é no miolo que Canções do estúdio realidade esconde suas complexidades. A primeira delas é a palavra, mergulhada em melodia. As letras já não parecem poemas musicados. A segunda é a direção musical de André Siqueira, dando tal qualidade aos arranjos que eles, muitas vezes, roubam a cena.

Dizer que o CD, com distribuição da Tratore e patrocínio do Promic, mistura MPB e jazz é pouco. Há algo sinfônico no sentido com que as vozes se cruzam. A bateria de Rodrigo Serra, por exemplo, está longe de se restringir ao ritmo. O piano econômico de Mateus Gonsales fala pouco e toca muito, sempre em acordes abertos. Gabriel Zara divide o baixo com o próprio André, que empunha o inconfundível fretless construído por Renato Alves e faz um belo solo em Alba – canção praieira que disfarça uma ciranda.

Há momentos cinematográficos na tensão de Vertigem e uma delicadeza à Modern Jazz Quartet em Cerejas, talvez pelo vibrafone límpido de Marcello Casagrande. O suingue volta em Adeus, parceria visceral com Paulo Leminski. E é leminskiano o clima de haikai que pousa sobre Iluminações, parceria com Bernardo Pellegrini. É uma melodia que segue a fala, mas com direito a curvas fechadas no caminho. Com Neuza Pinheiro, Rodrigo assina a folk Butterfly, única em inglês.

Não é disco para se ouvir distraído. Ele clama por atenção, que revela tessituras imperceptíveis à primeira audição. Evite, portanto, aquelas caixinhas de computador. Canções... é para se abrir com volume e amplitude.

Seus detalhes, caminhos, pontos e cruzamentos é que são elas. Dão o clima, porque se trata de CD com arquitetura, ambiente. Há poesia, mas ela não é exatamente a ponta de lança. Cantador, Rodrigo Garcia Lopes especula sentimentos que assombram nossa condição humana. Com palavras ou sem.


Ernesto Nazareth

15 de Abril de 2013 - 14:22 hscomente esta notícia

No dia 1º de fevereiro de 1934, Ernesto Nazareth empreendeu uma fuga extraordinária. Aos 70 anos, pulou uma janela da Colônia Juliano Moreira e, por uma hora, de pijama listrado, correu pela mata, entre pedras e limo, até despencar no pequeno lago formado pela cachoeira que fornecia água ao manicômio. Três dias depois, seu corpo foi encontrado.

Vinte e cinco anos se passaram até que um indignado Jacob do Bandolim refizesse o caminho para concluir: “Foi suicídio”. Quem conhece a seriedade de Jacob sabe que o bandolinista não empenharia a palavra em vão, ainda mais se tratando de seu grande mestre (saiba mais em www.ernestonazareth150anos.com.br).

O pianista e compositor Ernesto Nazareth nasceu há 150 anos, foi protagonista na conversão da música de salão européia em algo eminentemente brasileiro, é personagem absoluto de nossa música e, mesmo que seu toque chopiniano prezasse gêneros do século 19, foi um grande antropófago a transformar o estrangeiro em tupiniquim. Poucos modernistas o reconheceram, porém. Entre eles, o mais importante: Mário de Andrade, cujo conhecimento musical detectou no velho maestro a ousadia da brasilidade.

Não foi o único. Villa-Lobos, Arthur Rubinstein e Louis Moreau Gottschalk renderam-lhe admiração. Tangos e polcas de Nazareth foram editados na França e Estados Unidos. O maestro, entretanto, permanecia em seus palcos mais familiares, demonstrando pianos em lojas de instrumentos ou nas salas de cinema.

Tornou-se uma espécie de famoso anônimo, se é possível, estendendo sua influência aos dias de hoje enquanto vivia de subempregos. Muitos narram o fim melancólico, esquecido nos saguões dos cinemas, delirando ao piano antes das projeções. Seus tangos e polcas, porém, já integravam o imaginário do país.
Foi levado ao manicômio Juliano Moreira em decorrência da sífilis. A instituição ficou famosa por receber Lima Barreto, anos antes, e depois Arthur Bispo do Rosário, até que, nos anos 80, multiplicaram-se as denúncias de maus tratos.

Lá, Ernesto Nazareth teve outra certeza além de tocar piano: fugir.


Férias

08 de Abril de 2013 - 00:46 hscomente esta notícia

Se me falarem que um mês se passou desde a última coluna eu diria se tratar desses lapsos de tempo típicos da ficção. As férias são longas para quem nos vê de bermuda. Para o protagonista, duram um cochilo.

Deu tempo de reler autores que eu admirava na época da faculdade, como João do Rio (A alma encantadora das ruas), capaz de escarafunchar o submundo de um Rio de Janeiro embriagado pela belle époque parisiense, repórter primordial que desmaia em quartos escuros repletos de chineses consumindo ópio. (Sua contrapartida politicamente correta, Jota Efegê, decepciona em O Cabrocha ao tentar o mesmo, mas sucumbindo às morenas arredondadas, transformando a periferia num roteiro típico dos seriados de favela romantizados na tevê.)

Lima Barreto foi intolerante. Despejou sua bílis amarga, cheia de rebeldia, ridicularizando a sociedade. O Brasil era um imenso presunto, o “jambon” (Coisas do reino de Jambon), roído pelos aproveitadores e, ainda assim, conservando sua apetitosa forma de pernil suíno. Devorado ainda hoje, como nos lembram os parlamentares, sem perder suculência.
Lima esculhambou colegas jornalistas (e seus vícios de profissão) em Recordações do escrivão Isaías Caminha. Em troca, ganhou desafetos e um triste exílio editorial. E, de sobra, desancou Machado de Assis pelo apreço que este mantinha em se integrar à aristocracia.

Lima é ainda mal compreendido. Foi criado em hospício, viu o pai sucumbir à loucura e terminou, o próprio, internado. Um desajustado que não compreendia como Machado de Assis suportava tão bem a elite.
Três mulatos que sofreram ainda outros preconceitos: Lima era alcoólatra, Machado epilético e João do Rio, gay. Cada um, à sua maneira, espinafrou o Brasil de ontem.
Ou de hoje? Basta um cochilo.


Marchinhas

18 de Fevereiro de 2013 - 00:56 hscomente esta notícia

Se nossa MPB perdeu a capacidade de exercer a crítica política, coube à velha marchinha de carnaval destilar veneno e preservar uma prática que já foi marcante na música brasileira. Falei velha arriscando morder a língua, pois a marchinha está atual, fresca (às vezes afrescalhada), irônica e mordaz.

No domingo, dia 10, O Globo trouxe uma pequena matéria: O mensalão caiu no samba, falando da irreverência com que o tema foi tratado pelos blocos do Rio de Janeiro.

A Sebastiana (Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro) registra em sua página (www.sebastiana.org.br) a marcha do bloco Imprensa que Eu Gamo, fundado por jornalistas em 1995: “Zé Dirceu se perdeu/ Antes ele do que eu/ A Carolina todo mundo viu pelada/ Menos o Lula que nunca sabe de nada”.

No bloco Meu Bem, Volto Já, fundado pelo escritor Marcio Paschoal, sobrou alfinetada: “Limão no olho, telefone , adultério/ Lady Jefferson, Delúbio e Valério”.

Pegou mais leve que a Banda da Barra: “Dirceu que levou meu dinheiro/ pro estrangeiro/ valeu Joaquim Barbosa, acabou com essa farra”.

Nos botecos do Rio, de boca em boca, rolou outra quadrinha: “É ou não é/ piada de salão/ Dirceu diz que não é/ chefe do mensalão”.

Já O dicionário da corrupção foi composto por Bel Meirelles, de São Paulo: “Sanguessuga é o mesmo que vampiro/ Cuecão é pra tampar o bundão/ Dossiê investiga em sigilo/ Salário mole chama mensalão”.

A coluna de Ricardo Setti, na Veja, deu outra dica. O Bloco do Pacotão, em Brasília, veio com essa: “Guido Mantega, que decepção/ o seu Pibinho não dá nem pro mensalão”.

Polêmica, noticiada pela Gazeta do Povo, provocou a marcha Na coxinha da madrasta, composta por Flávio Henrique para o baile da Banda Mole, em Belo Horizonte. A canção satiriza a câmara de vereadores da cidade: “Aqui em Beagá/ Agora nós temos Babá/ Para a tristeza dos metropolitanos/ O Babá cá vai ficar mais quatros anos”.

Deu rolo e Flávio Henrique foi convencido a retirar a marchinha da internet. Era tarde. Já estava replicada em inúmeros sites.


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