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A escutadora de histórias

02 de Setembro de 2011 - 19:33 hscomente esta notícia

Roberto Custódio

Roberto Custódio /
"Talvez fosse interessante perguntar a ela como foi construindo ao longo de sua vida a percepção que tem sobre as pessoas que estavam ao seu redor." Essa colocação da psicanalista Graziela Santi, no último texto do blog, me levou de volta à Cida. Nesse novo encontro me deparei com uma mulher apaixonada por histórias. Ela não é uma contadora delas. É uma escutadora. Encontrei também uma mulher que vive literalmente das mãos. As portas fechadas foram muitas, mas não estancaram Cida. Ela se recusou a se desfazer em lamentações e queixas. A vida insiste e pulsa nessa mulher que aprendeu a tecer saídas com as mãos ágeis e precisas que reformam e consertam - É preciso ganhar o pão – mas que também imprimem autoria. Cida quer mais. Precisa fluir. Criar. A vida a assalta nas horas mortas da noite e rouba-lhe o sono. Lá vai Cida entregar-se a uma nova ideia e transformá-la em marca sua. Cida inventa e se reinventa. Esses parecem ser os alimentos que sustentam a lucidez e clareza dessa mulher, naquilo que tanto me comoveu e encantou: ela sabe escutar o outro. Seja ele criança, adolescente, jovem, velho. Se é humano, Cida escuta. E como nos mostrou a psicanalista Graziela Santi: ”quando nos colocamos interessados na fala do outro, estamos legitimando que aí tem algo interessante que merece ser ouvido. Além de darmos humanidade ao outro, legitimamos que ele tem um saber. Todos nós temos histórias para contar e ao falar podemos nos ouvir. Às vezes podemos nos surpreender com o que falamos. E quando quem nos ouve legitima que há um sentido em nossa fala, podemos mudar um comportamento que se repetia porque ainda não havia sido entendido”. Paro aqui, para que escutem Cida. Afinal,esse é o propósito deste post.

Cida, por ela mesma

Infância

Meus pais trabalhavam na lavoura. A gente se criou em sítio, em várias regiões do Paraná. Eu vim aqui para o União da Vitória (bairro da periferia de Londrina) há 20 anos. Com sete anos eu já cuidava dos meus irmãos, eram oito. Minha mãe ia pra lavoura ajudar meu pai e eu que ficava com eles. Meu pai e minha mãe trabalhavam bastante, mas eram muito presentes. A gente cresceu devendo obediência a eles. Tudo a gente perguntava se podia ou não. E não era não. A gente obedecia. Lembro que tinha 17 anos e já tinha meu filho mais velho, que tem 28 anos, e ainda obedecia meu pai e minha mãe. Foi assim a vida inteira. Meu pai ensinou a gente que não podia nunca contar um segredo e que não devia querer saber de coisas ruins.

Escutadora de histórias

A gente era muito pobre, então na hora do jantar, todos os filhos pegavam seus pratinhos, sentavam no chão e meu pai e minha mãe contavam histórias pra gente. Os vizinhos, amigos adultos, também contavam histórias. Ainda hoje eu adoro ouvir histórias. Só não gosto de histórias de fantasmas (risos). Gosto de romances, de amores desencontrados, daqueles que as pessoas se apaixonam depois se casam com outro e anos mais tarde se reencontram e o amor ainda resiste; gosto também daquelas histórias de milagres, sabe? Aquelas que a pessoa está na beira do abismo e pede com tanta fé que tudo muda. Eu mesma vivi histórias assim. Quando meu filho de 12 anos nasceu, a gente correu muito risco. Fiquei internada na UTI. Mas pedi com fé. Antes de ir pra cirurgia eu falei com Deus. ‘O senhor sabe que eu quero muito esse neném. Se o senhor deixar ele comigo eu vou ficar muito feliz. Mas é o senhor quem sabe.” Deu tudo certo. Eu ainda gosto muito de ouvir histórias de vida. Tenho muitos amigos de 20 e poucos anos e gosto muito de ouví-los contando quando se apaixonam. Eu e meu marido também conversamos muito. Ele me conta as histórias que aconteceram com ele quando era criança, o que ele ouviu, o que ele fez e eu conto as minhas histórias também.

Queria ser escritora

Eu sempre soube que não queria trabalhar pra ninguém. Queria trabalhar pra mim. Eu não sei ler nem escrever. Mas se eu tivesse estudado eu queria ser escritora. Meu marido fala: ‘tá vendo? Quem mandou fugir da escola?’ Mas não foi bem assim que aconteceu [Não há vestígio de queixa ou lamentação na fala de Cida].

Motivo de alegria

Pra falar a verdade é o meu trabalho. Eu fico o dia inteiro aqui. Terça-feira e quinta-feira trabalho com as crianças e adolescentes. Sexta-feira eu trabalho com as senhoras (sempre com oficinas de artesanato). Na segunda-feira e na quarta-feira tenho o grupo de produção para geração de renda (também fazendo trabalhos manuais). Eu levanto todo dia às 5 horas. Vou à academia,depois volto, limpo a casa, lavo a roupa, faço almoço, tomo banho e 9 horas estou aqui no trabalho. Quando comecei a trabalhar com criança aqui, fiquei na dúvida se ia dar certo. Mas fui me encontrando. Se eu pudesse trazia tudo quanto é criança prá cá (Projeto Eurobase). Quando chega uma pedindo vaga e a assistente social fala que não tem, eu fico olhando pra ela assim (sabe?), na esperança que ela fale que pode ficar. Eu às vezes digo: ‘mas não tem jeito de encaixar ele aqui, ele tá querendo tanto vir’. Eu acho que se está querendo vir é porque acha legal e se acha legal é uma forma de a gente tá sabendo mais dessa criança, do que acontece com ela no dia a dia. É uma forma de a gente ganhar mais essa criança.

Sabedoria de Cida

Se eu pudesse me dirigir aos pais, eu me dirigia assim: ‘tem que ouvir o que os filhos querem contar, mesmo que seja algo sem graça, pra ele é muito importante. Aquilo que a criança vem contar é o mundo dela, mesmo que pra gente não tenha importância nenhuma’. Eu vejo pelo meu filho de 6 anos. Ele fez um chapéu na escola ontem e veio me mostrar. Tem pais que falam: ‘sai pra lá com isso’. Eu paro, olho, quero saber como ele fez, ele conta todo importante, todo feliz. Eles ficam muito felizes com a atenção que a gente dá pra eles. Eu dou atenção pra tudo e pra todos. Eu penso assim: ‘tá acima de tudo o respeito do ser humano com o outro. Se você desrespeita o outro, você desrespeita a si próprio, porque é tudo ser humano.’ E pai e mãe tem que ter paciência. Meus pais não tinham não, mas eu queria que tivesse. Fui aprendendo na prática. Eu acho que pai e mãe tem que saber onde o filho está. O que está fazendo. Tem que dizer o que é certo e o que é errado. Tem coisa que todo mundo tem que saber. Não interessa se gosta ou não. Assim é que é. Tem que cumprir algumas regras que são pra todo mundo, não tem jeito. E pai e mãe se não tiver presente não ensina isso.

Roberto Custódio

Roberto Custódio /
Mãos que ganham o pão e criam
Comecei a fazer tapete pra ajudar em casa porque meu marido estava desempregado. Gosto de trabalho manual. Pra você ter uma ideia, eu faço trabalhos manuais aqui (no Eurobase) e em casa, no final de semana, costuro pra fora. Eu faço reformas e consertos de roupas. Tem final de semana que eu tenho 100 a 150 peças pra arrumar. Mas gosto mesmo é de criar. De inventar peças. A ideia de uma peça vem de noite e eu perco o sono, tenho que levantar e ir trabalhar nela. Não sai do jeito que eu quero e eu insisto até ficar como eu quero. Isso me deixa feliz. Pra mim, pra ser feliz não precisa muita coisa, não. O que me tira do sério é faltar coisa para os meus filhos ou não ter como pagar uma conta. Não suporto dever para os outros. Eu também adoro ser independente, ter meu dinheiro. Se tiver como manter minhas contas em dia e conseguir dar o que meus filhos precisam, tá bom demais.


heloisa bolelli | 13/09/2011 | 18:07

interessantes as colocações de cida e da graziela. penso que cida é assim: ela não presta atenção na letra da música; mas sim, sente a música. cida, no fundo, é uma professora de escutatória.

ancora
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