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A intensa simplicidade das histórias de Angela

19 de Junho de 2011 - 19:40 hscomente esta notícia

Gilberto Abelha

Gilberto Abelha / "Não é simples ser simples"
Meus filhos cresceram ouvindo as histórias de Angela Lago. Eu a conheci antes mesmo de ser mãe. Foi na livraria Maluquinha, da Sueli Bortolin, que li um livro seu pela primeira vez: “De Morte”. Adorei. Anos mais tarde, eu a apresentei ao Lucas e ao Francisco por meio do velho que enganava a morte, até que, tendo considerado que o tempo vivido já lhe bastava, decide deixar-se levar. “De Morte” é um livro que até hoje os garotos – um tanto rapazes, já – têm bem vivo na memória. Contei a eles que iria entrevistar a autora e perguntei se lembravam da história. Claro que sim! Ainda riram do velho enganador. O livro está lá na estante, bem gasto, um tanto sujinho, a capa presa com durex de tanto que fora folheada.

O “ABC Doido” foi fiel companheiro de ambos durante o período de alfabetização e mesmo depois de as letras já não oferecerem mais tanto mistério. “Sua Alteza a Divinha” é outro livro de Angela Lago que tem um lugar especial entre as leituras de infância dos dois. As adivinhações propostas pela princesa aos pretendentes a sua mão, divertiram muito os meninos. Isso para falar apenas de algumas histórias desta escritora, pois são muitas que povoaram a infância dos meus filhos.

Há 24 anos, Angela Lago presenteia os leitores com um dom: traduzir em traços e palavras a intensidade da alma humana. Segue provocando estranhamentos e levando a descobertas que ajudam crianças e adolescentes – posso ouvir a Sueli (Bortolin) dizendo 'e adultos também!' – a saberem um pouco de si; a mergulhar em seu interior e emergir de volta com uma peça a mais de seu quebra cabeça. Ela já expôs seus trabalhos em muitos países e é autora publicada em vários, inclusive na China. Foram muitos prêmios na Eslováquia, Japão, Brasil, Espanha, França. “Mas meu melhor prêmio é quando uma criança me fala alguma coisa simpática.”

Angela esteve em Londrina participando do projeto Autores & Ideias, do Sesc. Na ocasião, concedeu entrevista para o Inventar a Vida e para a Patrícia Zanin, da Rádio UEL. Ela falou sobre sua busca pela simplicidade. Sobre como ser simples é belo e difícil. Falou sobre beleza, humanidade, seu processo de criação, sua relação com as crianças. Também participaram da entrevista, Sueli Bortolin, professora da UEL e fã apaixonada da escritora, e o diretor da biblioteca pública de Londrina, Rovilson da Silva. No blog, a entrevista será postada em três partes.

Patrícia – Gostaríamos que você falasse um pouco sobre a ideia da simplicidade. Tem uma frase sua muito bonita em entrevista para a Cosac Naify em que você fala: “Gostaria de ser simples em tudo. Simplicidade é a coisa mais bonita do mundo.” Como essa simplicidade afeta também as crianças?

É bonita e difícil a simplicidade. Temos que buscar a simplicidade o tempo todo. Ela é necessária quando a gente quer falar com a criança. É preciso que a linguagem seja coloquial, que a maneira de contar a história seja simples. Ser simples não é simples. É difícil. E estamos aí nesta peleja até hoje, tentando encontrar uma maneira de ser simples em tudo – na vida, na escritura, no desenho. Talvez um exemplo a ser buscado seja o das crianças, mesmo. Porque a espontaneidade tem alguma coisa de simplicidade, não é verdade? A criança é tão espontânea, tem um traço tão liberado, uma capacidade de montar metáforas novas em linguagem tão à tona, que talvez ela seja um mestre para nós aí na simplicidade, também.

Erika – Como você definiria essa simplicidade no seu trabalho?

Na contenção, na economia da linguagem. Tem um conto chinês muito bonito, que o Ítalo Calvino conta nas propostas para o novo milênio. Um desenhista pediu 10 anos para desenhar um caranguejo. Passados esses 10 anos, ele pediu mais 10, depois mais 10. Depois de passado esse tempo enorme, em um único traço, desenhou o caranguejo mais rapidamente, mais simples, mais bonito que já haviam desenhado. É isso a simplicidade. É esse trabalho de polimento diário até conseguir, com um único traço, desenhar um caranguejo; trazer à tona uma expressão, uma história. Contenção é um exercício diário. O que eu posso falar com menos palavras, mais forte ficará. A fala poética tem que ser condensada para ser expressiva, para provocar estranhamento e, portanto, levar a descobertas. Ela tem que ser também de alguma forma aberta a leituras diferentes e essa simplicidade pule tanto que transforma uma pedra em cristal. Então, é possível ler o texto de maneiras diferentes, justamente porque ele atingiu essa qualidade de prisma, de cristal, e não de pedra bruta. Seria por aí.

Rovilson – Você busca também essa contenção no traço do desenho? Embora haja essa simplicidade, quando vemos suas ilustrações é como se nós não déssemos conta de ver tudo numa passada de olhos.

Eu, às vezes, faço desenhos que, aparentemente, lembram os de criança, são singelos. Mas, a simplicidade não é isso. Essa é uma forma de expressão possível, mas eu posso ser simples também quando desenho com muitos detalhes, querendo provocar alguma alucinação, querendo fazer com que tenham estranhamento diante do livro. [Ela pega livros dela e vai dando exemplos]. Aqui, são sapatos de campo de concentração, embora numa primeira leitura possam parecer peixes. Às vezes, sou um pouco barroca, o que seria o contrário da simplicidade. E esse olhar que se perde, porque é deslumbrado, é muito próprio do barroco. O barroco quer isso. Te deixa um pouco tonto, para mostrar seu poder sobre você. O meu barroco não é esse. Eu quero mostrar que eu me alucino diante da história e não só alucinar o leitor, mas dizer da minha própria alucinação diante do tema de Psique [um de seus livros]. [Dizer] que eu também estou entre dragões, que eu também reconstruo meu tempo dentro do tempo de Psique; dentro do tempo do mito. Então, se eu for falar da simplicidade [no livro Psique], talvez ela esteja em certa limpeza do livro como um todo. Da primeira à última página, busco ser coerente, não há nada que seja desnecessário. Eu uso o branco da página. As imagens todas fazem algum sentido, mesmo que aparentemente barrocas, elas contam uma história. Talvez aí eu possa falar de simplicidade, no traço não. Ele é elaborado, ele é lento.


Patrícia – É no conjunto, então?

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É no conjunto. O fato de Psique passar por todas as imagens como uma sombra e só se revelar no final. Só quando ela fez toda sua trajetória é que ela consegue a forma humana. No mito, ela consegue a forma de deusa. Mas para nós é essa humanidade que nós estamos buscando. Essa humanidade maior que só uma pessoa depois de uma longa travessia pode conseguir.

Patrícia – Como você sai de um processo de criação? Esse processo de alucinar-se para alucinar o leitor. Como é para você, quando termina uma obra, Angela?

Há sempre uma sensação de insatisfação muito grande quando a gente termina um projeto. A gente termina quase que por cansaço, ou porque tem que entregar, ou porque vê que já se esgotou. Aquilo naquele momento é seu limite. A gente se conforta na ideia de que vai haver um próximo livro no qual vai se exercitar e, talvez, conseguir ir um pouco mais longe. Agora, para mim também é bom variar, sair de um livro aonde eu me deixei levar muito profundamente e ir para um livro mais alegre, mais de brincadeira. [Também é bom para mim] ter outras atividades. Eu mantenho meu site, estudo violoncelo, faço jardinagem. Então, essas outras atividades são terapêuticas, também. Fazer um livro também é terapêutico, eu acho; em última análise a gente está sempre se colocando e se liberando de fantasmas.


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