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O consumo e a publicidade na infância foram discutidos pelo projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, entre os meses de março e maio, em vários eventos, nos quais foi apresentado o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, dirigido por Estela Renner. Laís Fontanelle, psicóloga e coordenadora de educação e pesquisa do projeto, conversou com este blog sobre o assunto.

Ela abordou as consequências do atravessamento das mídias nas relações intersubjetivas da criança e do adolescente: desde a erotização precoce até a obesidade; passando por uma inversão de valores, especialmente, a confusão entre ser e ter. O ser querido, amado, digno de afeto e reconhecimento do outro, parece estar inexoravelmente associado aos produtos que se tem. Laís propõe uma reflexão de pais, educadores, do Estado sobre seus papéis na formação dessas crianças e adolescentes.

Alguns dados disponibilizados pelo Instituto Alana nos colocam a dimensão do problema: 30 segundos é o tempo suficiente para uma marca influenciar uma criança; até os 10-12 anos, a criança não tem capacidade crítica para compreender o caráter persuasivo das mensagens publicitárias; até os 4 anos, a criança não distingue a publicidade do programa. Leia abaixo a entrevista com Laís Fontanelle.

Assista ao documentário

A cultura do consumo propagada pela publicidade está alterando as relações intersubjetivas da criança e do adolescente?

Hoje não podemos mais negar que as mídias são um vetor de construção de subjetividade, identidade e valores na vida de crianças e adolescentes. Temos dados de que a criança brasileira está entre as que mais assistem TV no mundo. Ela passa mais tempo em frente da tela do que se relacionando com outra criança ou na escola. Então, temos de fato outra pedagogia instalada que não é mais a família, a escola, a Igreja, mas as informações vindas pelas mídias. E aí, temos um problema, porque dentro das mídias temos a publicidade, que é uma comunicação de mercado falando com as crianças e fomentando essa cultura de consumo no momento em que elas ainda não estão preparadas para lidar com essas mensagens.

Por que elas não estão preparadas?

Porque até os 12 anos, a criança não tem a capacidade de abstração crítica formada. Se nós pensarmos que nós, adultos, recebemos esses apelos de consumo e já nos inebriamos e consumimos sem reflexão, imagina o efeito para a criança, que não tem esse filtro. Então, ela é mais vulnerável nessa relação. A publicidade tem um enorme poder de fomentar o desejo na criança. Temos toda uma nova configuração familiar, perdas de espaços públicos, crianças confinadas em espaços privados se relacionando sozinhas com as mídias, mas, ainda assim, segundo pesquisas, a publicidade é o principal fator de influência na compra de produto infantil. Então, a gente não pode negar o impacto que ela tem, por isso que o Criança e Consumo atua em duas frentes: regulação da publicidade dirigida à criança, para que os excessos sejam coibidos e na frente da educação, conscientizando pais e professores para que tragam esse tema para pauta na sua relação com a criança.

Como você disse, as relações intersubjetivas da criança estão sendo atravessadas o tempo todo pela mídia. Quais as consequências?

São muitas. Se a gente pensar que esse atravessamento está ajudando a formar valores e identidades, a gente tem aí um problema que é: “Quais são esses valores que estamos passando para nossas crianças”? Estamos formando crianças mais consumistas, materialistas e menos humanas. De início já temos esse problema. Aí temos outros, como a questão da sustentabilidade. As crianças estão em fase de formação de hábitos, aprendendo a consumir sem reflexão e isso tem um impacto sobre o planeta. Podem comprar tudo a qualquer hora porque é isso que está sendo vendido, só que os recursos são finitos.

Outro impacto é o relacionado à violência, pois a maioria das crianças não tem poder aquisitivo para comprar e cresce desejando isso. Temos dados da Fundação Casa de que muitos crimes e delitos são, muitas vezes, relacionados à busca pelos produtos anunciados. A erotização precoce é outro efeito das mídias sobre as crianças, além de gravidez na adolescência e prostituição infantil. Os últimos dados da pesquisa da WCF apontam que as meninas brasileiras se deixam explorar sexualmente não só por fome, como a gente acreditava, mas pela busca de produtos caros.

Temos ainda a diminuição da brincadeira criativa, que parece um impacto menor frente a esses outros, mas não é, porque a criança se relaciona, aprende, amadurece pela brincadeira. Ela precisa brincar. Além disso, a gente tem uma questão seríssima de saúde pública que é a obesidade infantil. Hoje, 30% da população infantil brasileira tem sobrepeso e 15% é obesa. Isso já foi provado e há uma movimentação mundial sobre o impacto da publicidade na alimentação não saudável dirigida à criança.

Podemos falar em empobrecimento da relação intersubjetiva. E essas são algumas das consequências desse empobrecimento?

Mais ou menos. Porque por um lado, se temos o empobrecimento da relação intersubjetiva, a gente tem a tecnologia e as mídias proporcionando muita coisa bacana. Talvez nunca os adolescentes tenham escrito tanto, como nos blogs. É uma nova forma de relação. Não sei se é mais empobrecida. Acho forte a gente dizer isso. Estamos falando do problema de como a comunicação de mercado faz com que as relações, talvez, sejam esvaziadas. Às vezes as crianças crescem achando que se tiverem determinados produtos vão ser mais aceitas, queridas. Então, como eu falei, os valores estão sendo distorcidos, mas elas se relacionam, talvez como nunca antes.

Temos, então, a transformação destas relações?

Eu diria que há outras formas de se relacionar. São formas contemporâneas que têm todo um aparato tecnológico, que proporcionam essa nova forma de relação. A gente não pode negar que existe uma relação sendo estabelecida entre crianças e adolescentes. Se eles têm seiscentos amigos no facebook, a amizade não é igual como era a da pracinha antigamente, mas não podemos fazer uma apologia romantizada do retorno dessa época. Estão [as crianças e adolescentes] se relacionando e a gente tem que olhar para isso e entender que tipo de relação está sendo estabelecida. Eles continuam tendo o primeiro amor. Antes a menina escrevia em diário, hoje ela tem um blog. Não sei se os conflitos, as angústias, os medos são diferentes de outros tempos. Acho que a forma com que a gente se expressa é muito diferente, porque temos outro suporte. A criança hoje já nasce inserida nesta lógica.

A criança está percebendo o adulto de outra forma?

Sem dúvida. O que a publicidade faz? Traz a criança para outro patamar ao olhá-la como consumidora, como mini adulto. O universo adulto foi aproximado do infantil. Porque, se nas relações de consumo eu olho uma criança da mesma forma como olho um adulto, eu os coloco de igual para igual. Isso é ruim porque a criança não está pronta. Ela pode ser muito esperta e entender os aparatos tecnológicos da linguagem virtual melhor do que um adulto, mas não tem a capacidade crítica formada. A criança precisa do auxílio de um adulto para lidar com o mundo, pois não tem autonomia moral ainda. E isso é uma via de mão dupla, se o adulto colocou a criança no mesmo patamar que ele, a criança também passou a vê-lo de igual para igual e a desejar as mesmas coisas que ele.

Isso talvez enfraqueça a relação de autoridade do adulto com a criança?

Sem dúvida. Porque você tem uma publicidade dizendo: “Pede para o seu pai”, “Faz desse jeito para conseguir o que você quer”. A criança detém um poder que ela não tinha antigamente, até pelo domínio da tecnologia, como eu falei. Os pais acham as crianças muito sabidas porque sabem lidar com um DVD e esquecem que elas não têm a compreensão total das mensagens.

As transformações que ocorreram desde a criação do conceito de infância até o século XXI encurtaram esse período da vida?

A infância está sendo encurtada e transformada. O conceito de infância foi criado quando surge a prensa tipográfica, porque tem algo que vai dividir o mundo adulto do mundo infantil: o mundo letrado. Para a criança saber os segredos, as histórias do mundo adulto, ela teria que aprender a ler e a escrever. Com o advento das mídias eletrônicas isso cai por terra, porque basta a criança ligar um botão para acessar uma informação. Os dois mundos são aproximados.

Quais os cuidados, na sua avaliação, que devem ser tomados com essa aproximação entre os universos adulto e infantil?

O Estado tem que regulamentar a publicidade, os pais têm que dialogar, dar exemplos, se colocar como autoridade de novo. Os educadores têm que trabalhar o tema do consumo em sala de aula, o tempo da criança em frente da televisão deve ser reduzido para no máximo duas horas por dia. Além disso, dependendo da idade, deve haver um adulto com ela, um adulto que funcione como filtro da mensagem que está sendo dirigida à criança.