Quarta-feira, 22 de maio de 2013
- Londrina:Inventar a Vida
O humano no mundo contemporâneo
Psicanalista Ivan CapelattoNa terceira e última parte da entrevista sobre o tema, o psicanalista Ivan Capelatto explica porque ela inicia sempre na infância e nunca na vida adulta. Fala sobre como é comum confundir as alterações de humor dos pequenos com birra, por exemplo, por isso é fundamental estranhar sempre determinadas mudanças de comportamento para buscar ajuda o mais rápido possível.
O que aparentemente parece apenas mau humor pode esconder um problema que vai afetar a relação desta criança, adolescente e futuro adulto com a vida a ponto de comprometer suas relações amorosas, profissionais e afetivas e colocá-las em risco.
Patrícia - Por que a distimia aparece na infância? Não pode aparecer na vida adulta?
Capelatto – Ao sofrer uma decepção, o adulto saudável (neurótico) usa o tripé: raiva, medo, culpa. Se for depressivo, usa a depressão, se for psicótico usa a psicose. A distimia sempre começa na infância durante a formação da personalidade quando a criança ainda não tem defesas ou é saudável.
Patrícia – Até aos 9 anos?
Capelatto – Até aos 9 anos, quando a personalidade está formada. Depois é isso para o resto da vida. Aí vamos só trabalhar para melhorar o psiquismo. Melhorar o emocional.
Patrícia – Os pais podem confundir a distimia com o mau humor e por isso demorar para buscar tratamento?
Capelatto – Geralmente os distímicos falam "eu sempre fui assim". Porque eles não têm uma memória anterior à distimia. Está bem e daqui a pouco chora, fica irritado.
Erika – É preciso sempre achar que essa mudança de comportamento não é normal?
Capelatto – Sempre.
Patrícia – Tem que estranhar, então?
Capelatto – Estranhar e buscar ajuda. Quanto mais cedo, melhor o resultado. Como é recente o fato, a criança consegue contar e o terapeuta consegue resolver. A distimia não tem cura, tem que ser desmanchada. A partir do momento que o sujeito consegue perceber o que ele faz com ele mesmo e que isso é resultado de um impedimento por causa de algo, ele desmancha e para a distimia, simplesmente.
Patrícia – Isso não é curar?
Capelatto – A gente não chama de cura porque não é uma doença no sentido de que a personalidade foi afetada. O que foi afetado na distimia é a relação com a vida, com o mundo, mas não a personalidade. Ele continua tendo desejos, tanto que quando consegue o quer ele estraga. A personalidade, os desejos estão em ordem. O ganho, o prazer é que ficam comprometidos.
Erika - Se tudo está preservado é mais difícil de identificar a distimia? É preciso uma sensibilidade maior?
Capelatto – Exatamente. Às vezes você vê muita gente que vai tendo derrotas, mas teve vitórias e produziu a derrota. Não é um sujeito que não tem capacidade. Ele conquistou e destruiu. É uma distimia.
Erika – A distimia tem diferentes graus?
Capelatto – Tem comportamentos mais visíveis e outros mais suaves.
Erika – Não tem graus nos quais precisa de medicamento?
Capelatto – Geralmente precisa de medicamento quando o nível de sabotagem já é tão grande que a pessoa entra em uma depressão maior.
Patrícia – Pode ocasionar uma depressão e acho que muitas vezes é confundida com depressão. Há estatísticas, sobre isso?
Capelatto – Tem um livro enorme do Cordaz que é medico da Unifesp, e traz estatística. Nós já temos estatística brasileira. Mas muitas vezes é diagnosticada como depressão ou como bipolar, por causa da mudança do humor. A bipolaridade é muita rara e de repente todo mundo fala em bipolares, mas são distímicos.
Erika – Daí o tratamento acaba sendo equivocado?
Capelatto – Equivocado e o sujeito não sara. Começa a trocar de medicação, mas não vão ao ponto que é uma coisa mais simples que a bipolaridade, que é uma doença terrível. A bipolaridade não é um transtorno do humor. É uma psicose. E a distimia é um transtorno do humor, que piora quando há ganho. Então, imagina, o que mais queremos na vida é ter prazer. De repente, alguém quer ajudar o distímico. Ele piora.
Patrícia – Ele pode estar sendo medicado erroneamente, o que causa um sofrimento a mais para essa pessoa.
Capelatto – E se culpando por não estar melhorando. Então, quem tem filho pequeno saudável é importante notar se de repente ele fica irritadiço, se começa a não gostar do que gostava, se fica resistente a elogios – penteou o cabelo e alguém fala “ai que bonitinho” e ele vai lá e despenteia. Opa, vamos desconfiar que tem alguma coisa errada. Criança saudável que se decepciona com pessoas que gostam geralmente evoluem para distimia. Então, vamos prestar atenção. Opa, esse menino tá chorão, tá irritado, começou a quebrar brinquedo, não gosta mais do brinquedo que gostava, não quer mais agrado. Alguma coisa aconteceu. E o que aconteceu é que a mãe do amiguinho que ele ama o decepcionou. Então, vamos contar para ele que ela não é como ele. E quando as crianças percebem as diferenças elas conseguem dar conta disso. Mas tem que perceber lá na idade em que estão. Perceber isso depois [vai exigir] um trabalho terapêutico grande.
Patrícia – A impressão que se tem é que os serviços públicos, como os Caps, não têm preparo para lidar com a distimia. Como você, que viaja pelo Brasil, vê essa situação?
Capelatto – Então, eu acho que a vontade política é muito pequena. Mas eu vejo muita vontade nos médicos, principalmente nos pediatras, nas assistentes sociais, mas eles não têm recursos. Não se investe neles. Então, o Caps, por exemplo, às vezes é só um lugar. Mas eu posso falar de Campinas, que hoje tem vários Caps, vários AMEs e existe alguns médicos que por conta própria começaram a investir nos seus funcionários. Hoje Campinas tem um projeto de psicanálise para os funcionários dos Caps. As consultas estão demorando mais, só que ninguém está reclamando porque a qualidade do atendimento mudou. Muita gente está saindo da fila sem receita médica, porque desabafou. Mas a vontade não é política. É uma iniciativa dos próprios médicos. Um deles foi meu aluno na Unicamp e começou a montar projetos que estão se multiplicando por vontade dos profissionais. Já vi isso em outros lugares também.
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Conversar é o melhor remédioEste é um alerta que considero preciosíssimo. Temos muitas vezes uma forte tendência a querer preservar crianças, principalmente. Que mãe ou pai não ficou doído ao ver o filho ser rejeitado pelo amiguinho que ele adora? E a reação primeira de muitos pode ser justamente dizer: “Isso não é nada. Vai passar” ou ainda “Ele gosta de você sim”. Negar a causa da dor para varrê-la para baixo do tapete é uma reação quase automática, principalmente, quando nós adultos também não a suportamos. E o que nos mostra o psicanalista Ivan Capelatto é que se há uma forma de manter a saúde mental das crianças, não é escondendo o mundo com suas crueldades e dores, mas equipando-as psiquicamente para viver o que lhes cabe sem adoecer.
Erika – Como é possível preservar uma criança da decepção com um amigo, por exemplo? O que fazer depois que a criança sofre uma decepção?
Capelatto - As crianças, principalmente as lúcidas, têm a vantagem de contar para nós os fatos. Como aquela menina que foi abusada e contou para alguém o que aconteceu e esta pessoa disse que aquilo não era uma brincadeira. Então, neste momento este alguém tem que dizer para ela: “Isso não foi culpa sua. Ele fez isso porque não é como você. A sua amiguinha não te convidou porque ela não gosta tanto de você como você gosta dela”. Teria que ter um adulto pontuando que a decepção foi sofrida porque não são iguais. E a mãe que mente? Aí já fica mais complicado. Às vezes tem uma avó salvadora, uma professora salvadora que diz: “Ela é sua mãe, mas não é como você. Você não mente para ela, mas ela mente para você”. Para salvar as crianças da distimia teria que quebrar o espelho. Que é o que acontece futuramente quando essas pessoas entram numa terapia. A gente trabalha o tripé: medo, culpa e raiva. E geralmente a raiva está em ordem, o medo está exacerbado e tem uma culpa que ficou subjacente.
“Eu fui a razão disso. Então, agora tudo que acontecer de bom, como é para mim, vai quebrar. Vai ser ruim, porque é para mim.” No tripé, o medo fica exacerbado, mas a culpa é o sentimento que ficou sobrando. “Alguém não quis que eu fosse me despedir da minha vozinha porque eu não merecia. E aí eu fico sabendo que meus primos foram, então o que minha mãe fez não foi me poupar; foi não me valorizar.” A professora numa sala de aula fala: “Segunda-feira vou ensinar uma canção nova.” E não ensina. As crianças que estão mal nem lembram. Mas, a criança que está bem fala: “professora você não ia ensinar a canção”. “Ah, depois eu ensino”. Isso, se não tomar cuidado, vai trazer prejuízo para a criança saudável. Talvez não vá trazer uma distimia. Alguém tem que dizer: “Seu professor não é como você. Então não espere dele o que ele esperaria de você.” Crianças quando entram em decepção com o outro, alguém precisa vir e quebrar o espelho.
Patrícia – Deixar claro essa diferença. Ela não é como você. Ela age diferente de você. Só essa mediação já resolve?
Capelatto - Só isso. Na verdade é fazer o luto. “Você gosta muito desse amiguinho, mas ele não gosta de você do mesmo jeito, por isso ele não convidou você para o aniversário.” Aí faz o luto, chora, percebe a diferença e a decepção fica com o outro. Eu me decepciono porque eu continuo pensando que eu fui o errado, que eu não sou amável. Mas aí ele que é diferente, ele que não consegue me amar. Eu continuo sendo bom, amável.
Erika – Não pode desqualificar esse sentimento da criança dizendo que aquilo que aconteceu não foi nada, para tentar preservá-la?
Capelatto - Nunca se preserva a criança. Sempre tem que dizer a verdade. Numa separação, numa morte, numa mudança, numa mudança de escola, nesses fatos de as pessoas rejeitarem. Sempre a verdade. A criança é inteligente. E as mais saudáveis são riquíssimas psiquicamente. Então, sempre a verdade.
Patrícia – Nua e crua?
Capelatto - Nua e crua ou através de símbolos. Desenhando, contando, mas falando e contando o porquê. Sempre a verdade.
Patrícia – A forma como essa verdade vai ser dita deve respeitar as fases do desenvolvimento?
Capelatto - Sempre a verdade. É por isso que no primeiro ano de vida que a criança tem poucos recursos, mas tem consciência, a gente pede para as mães não se afastarem dela. Porque como elas não sabem falar, não têm simbolismo, quando as mães se afastam elas entram em sofrimento que mais tarde vai trazer consequência.
Erika – O bebê também se decepciona?
Capelatto - Se decepciona e entra em temor. Só que não tem recurso linguístico e aí às vezes ele se psicotisa. Às vezes ele vai aos 7 anos trazer as sequelas do abandono, do tempo em que aquela mãe foi fazer cruzeiro porque achou que a criança de 3 anos não sente falta. Daí aos 7 anos não tem amiguinho, fala sozinho, mas como não dá trabalho a escola também não se preocupa. Tem um monte de zumbis por aí que não tiveram o primeiro ano de vida grudado na mãe.
Erika – Criança tem que dar trabalho?
Capelatto - Um bom trabalho. Fazendo perguntas, querendo saber. E os pais têm que responder sempre. Alguém tem que estar perto dessa criança ajudando ela. Não se livrando dela: “ah, isso aí normal”. E, nós temos que todos os dias ler os jornais e ver quantas crianças estão tentando aliviar suas angústias com álcool, com drogas, aos 11 anos. Quantas crianças estão aí sem sonho, não acreditam na vida e tiveram mãe, pai, mamaram, só que não têm recurso para se valorizar, não têm autoestima. Estão aí tentando se enfeitar com tatuagem, piercing e querendo cada dia um jogo diferente, porque não se saciam consigo mesmas. E as pessoas começam a achar tudo isso normal, não percebem o sofrimento por detrás deste monte de crimes, de bebedeiras, de acidentes, de gente morrendo, morrendo psiquicamente, esse monte de depressão, de suicídio. E isso vem de a gente não “perder” tempo com eles.
Tela Bom Humor de Matheo DurandPatrícia – Como você define distimia a partir das suas pesquisas?
Capelatto – É uma doença que tem a mesma história, o mesmo desenrolar da depressão, mas não é depressão. A distimia é uma doença do humor. Começa muito cedo, geralmente por volta dos 4 a 9 anos de idade. E é especialíssima porque atinge crianças saudáveis. Se a criança já vem evoluindo com uma depressão, uma neurose, uma psicose, ela não fica distímica. A distimia é uma doença de crianças saudáveis. Uma criança saudável é uma criança crente que todo mundo é como ela, que os amigos são como ela. E de repente acontece na vida dessa criança um fato que poderia se transformar em um Transtorno do Estresse Pós Traumático (TEPT), num fato depressivo, num fato psicótico, mas se transforma numa grande decepção.
A decepção gera a descrença
Uma criança de 6 anos que tem amiguinhos que ela gosta, que ela imagina que gostam dela e que ela acha que são como ela. Essa criança chega à escola na segunda-feira feliz, porque ela é feliz. Ela tem um bom humor. Essa criança gosta de quem ela gosta, é amante dos amiguinhos. Não é uma criança travesti, dessas que gostam por interesse. É uma criança saudável. De repente descobre que o melhor amiguinho dela, a melhor amiguinha dela (meninos e meninas, a distimia não faz distinção de gênero) – fez uma festa de aniversário na sexta-feira e não a convidou. Na verdade, se ela fosse convidada nem poderia ir porque era aniversário da avó dela. Mas, o problema não é ter ido ou não. É não ter sido amada, como ela ama. Esse choque, essa decepção, vai desencadear um episódio que vai ser para o resto da vida: a descrença.
O mal que a mentira causa
Outro episódio. Uma criança saudável foi brincar de boneca na casa da melhor amiguinha e lá tem um tio que viu as duas menininhas brincando e começou a brincar junto. Ele é um psicopata e começa brincar de papai e mamãe e daí a beija na boca, passa a mão no corpinho dela. Mas está tudo bem. Daí ela conta isso para alguém. E esse alguém fala que aquilo não foi brincadeira. E ela, que gostava desse tio da amiga, percebe que ele mentiu. Não foi o fator sexual que fez mal para ela, foi a mentira do adulto, a decepção com a pessoa. Mesmo que ela tenha sido estuprada, o que vai fazer mal é a mentira do adulto.
Vou dar um terceiro exemplo. A vozinha morreu e os pais querendo preservar a criança não contam e a deixam na casa de um vizinho. Ela percebe que tem algo errado. A mãe conta que a vozinha que ela gosta morreu. Ela se decepciona com a mãe, porque ela queria ter falado tchau para a vozinha. Ela se decepciona com a mãe e não com a morte.
Patrícia – Não é a situação em si, diretamente....
Capelatto – É o intermediário que a impediu de ver uma realidade. Essas coisas geram em crianças saudáveis uma decepção que eu chamo de descrença. A partir daí vai ocorrer um fenômeno que vai ter vários sintomas. O primeiro deles é o humor. A criança feliz, de repente está irritada, de repente está brava, de repente está chorona. E o que aconteceu? Nada. Ela muda o humor de repente. Segundo sintoma: ela passa o dia com sono, mas à noite não consegue dormir. Terceiro sintoma: ela almoçou e daqui a pouco está abrindo a geladeira querendo comer ou no dia seguinte, são quatro horas da tarde, ela não almoçou, e não está com fome. [Isso é] Distimia: ou um bom humor ou mau humor, ou uma grande fome ou sem fome.
E aí vem o sintoma mais terrível: a sabotagem. A criança fez uma redação, a professora adorou e a elogia no meio da sala de aula. E ela que é saudável começa a se sentir bem com isso, mas de repente, como está vindo algo bom e ela é descrente, ela começa a conversar consigo mesma assim: “Estão elogiando só para agradar. Não está tão boa assim”. E a próxima redação, talvez ela faça bem chula que é para não receber mais elogio. Esse é o sintoma mais especial da distimia. Quando começa haver coisas boas – um elogio, um ganho – o distímico começa a agredir o bem, o elogio, o ganho, porque a distimia é o medo que o ganho vire perda, que é a marca da descrença.
Sabotagem: o pior sintoma
Vou contar algumas experiências que tenho nestes 40 anos com distímicos. Os vestibulares antigamente – CECEM [realizava as provas de faculdades de medicina do estado de São Paulo], CECEA [organizava os exames das faculdades de humanas também no Estado de São Paulo] – não eram feitos como hoje, na cidade. A maior parte era realizada em São Paulo. Os meninos, meninas faziam cursinho em Campinas (SP), mas tinham que fazer vestibular em São Paulo. Tinha um menino inteligentíssimo, saudável, que fez cursinho durante um ano. Quando foi fazer o vestibular, esqueceu a carteira de identidade em Campinas. Ele estava tenso? Não. Ele se sabotou, se agrediu.
A menina distímica está apaixonada por aquele moço e eles começam a namorar. Hoje faz um mês que eles estão namorando e ela está muito feliz. O humor dela é um humor feliz. E o moço está apaixonado por ela. Eles saem para jantar para festejar e no meio do jantar este moço, que está muito feliz, pega na mão dela e fala: “não imaginava que a gente fosse se dar tão bem, você é uma criatura muito especial, eu te amo muito”. Aí ela começa a achar que não gosta mais dele, começa a achar defeitos nele e a achar um jeito de terminar o namoro.
Tive um caso recentemente de uma esposa extremamente inteligente e bela que tinha um marido que ela amava de paixão e começou a ficar de mau humor perto dele, se recusar a ter relações com ele. E ele foi se sentindo muito rejeitado. Eles se separaram e ela chegou ao ponto de dar a guarda dos filhos para ele. Numa sabotagem violenta. E aí ela procurou ajuda. O bom disso é que eu chamei esse ex-marido e contei o que era uma distimia. Ele começou a se lembrar da época de namoro. Quando ele a elogiava, ela chorava ou agredia; nas relações sexuais ela tinha orgasmo e chorava. E ele não entendia isso. Aí eles voltaram. Hoje ela está bem, mas teve que ser medicada porque chegou ao limite distímico de começar a agredir o próprio corpo.
Olhamos para o mundo em espelho
As distimias são doenças do humor sempre iniciadas por um fator externo e que ocorrem em pessoas saudáveis. Para compreender isso é preciso perceber que a gente olha em espelho para o mundo. Quando somos saudáveis olhamos para o mundo e pensamos que todo mundo é saudável. Da mesma maneira que quando a gente é paranoico a gente pensa que todo mundo é paranoico. Então, uma criança sadia que não mente, que não frauda as coisas, pensa que todo mundo é assim. De repente uma mãe mente. A mãe diz: “Seis horas eu venho te buscar”. E são oito horas e a mãe não veio. Bateu o carro. Furou pneu. Isso não é mentira. Isso não causa distimia.
Mas de repente a criança descobre pela empregada que a mãe foi em outro lugar, que a mãe mentiu para ela. A mentira do adulto, a mentira do amigo, a psicopatia, a perversão do outro tira da criança a ideia de que o bem é bom. A partir daí todas as vezes que o bem acontecer, que ela estiver feliz com alguma coisa ela começa a entrar em uma ansiedade, num sentimento de horror quase.
Rádio UEL
Psicanalista Ivan CapelattoPatrícia – Imagino que deve ser difícil identificar a causa se isso aparece um ano depois, principalmente quando é criança. Identificar a causa me parece muito importante, não é?
Capelatto – Fundamental. Mas por incrível que pareça para a criança é mais fácil. Um bom terapeuta vai usar os meios simbólicos, então vamos sentar com lápis e papel e dali a pouco o horror estará impresso ali. Hoje temos meios como o HTP, teste do desenho. Por exemplo, com minha experiência, olho o desenho e já sei se tem um estupro atrás disso ou uma agressão física ou uma perda por morte. No HTP a criança se expressa. O adulto que começa o TEPT, um ano, dois anos depois já é mais difícil. Por exemplo, se ele foi estuprado vai ter pudores para contar. Um homem que foi testemunha de algo politicamente complicado, que sabe de algum assassinato, vai ter pudores para contar. Por isso a demora para se abrir. Às vezes larga o tratamento e adoece. Muitos frequentadores de centros oncológicos, suicidas, homicidas, serial killers, são sujeitos vítimas de TEPT. Eles começam a ter uma coisa chamada acting out. Começam a agredir o meio. Muitos adolescentes saem e começam a agredir. O próprio Wellingotn [rapaz que matou vários alunos de escola do Realengo/RJ e depois se matou] foi vítima de bullying, fez um TEPT e depois que a mãe e a avó morreram matou todo mundo. Ele foi estuprado, se fechou, ninguém cuidou; descobriu que era adotivo, mas ficou com a mãe e com a avó. A mãe e a avó morreram e [novamente] ele não foi cuidado. Então as pessoas vítimas de TEPT que não são cuidadas podem se tornar violentas com o mundo, porque o mundo ficou devendo para elas.
Patrícia – Isso está aparecendo muito? Por exemplo, na sua clínica, você tem mais de 30 anos, quantos anos você tem de psicoterapia?
Capelatto – Quase 40 anos.
Patrícia – Como esses casos estão aparecendo no seu trabalho?
Capelatto – Como a pós-modernidade tem convidado todo mundo a viver a sua própria vida, a gente está se desimportando com o outro. Nas famílias os pais estão muito adolescentes, a escola está muito preocupada com desempenho, ninguém está se importando com alguns sinais e sintomas que as pessoas têm. A sociedade está muito doente, violenta. Bullying está aí, os assaltos estão aí, muitas casas são assaltadas, muita gente é agredida. Esses dias a mídia noticiou aquele motorista de ônibus em São Paulo que teve um mal estar e machucou uma pessoa. A população o matou. Eu fico imaginando quantas crianças e adolescentes viram isso sem querer porque o pai estava assistindo ao Jornal Nacional e não puderam comentar. Eles foram testemunhas e alguns ficaram traumatizados. Isso pode amanhã trazer um desamparo e gerar o TEPT. Mas está todo mundo se importando com o próprio prazer, mesmo os pais – me desculpem os que não estão – os pastores, professores. Estão todos preocupados com o próprio umbigo. As pessoas não prestam atenção no que a mídia traz, as fotos de jornais, a maneira como as notícias são dadas. Tem plantão de notícia de manhã, quando tem criança assistindo ao desenho.
[Tem ainda] os pequenos eventos traumáticos: às vezes os pais passam bem devagarinho perto do motociclista morto; quantas casas foram assaltadas com crianças e ninguém percebeu que ela ficou horrorizada com aquilo. A revolta dos adultos ficou acima do horror da criança que não pode falar sobre o que sentiu. Vai ter TEPT. Os consultórios estão cheios de pessoas com Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Algumas fazendo doenças, algumas perdendo qualidade de vida, indo mal na escola, não querendo sair de casa, perdendo a vontade de comer ou comendo exageradamente, falando de assuntos relacionados àquilo fobicamente. E ninguém presta atenção. Quer dizer, tem um aluno doente que provavelmente amanhã pode até cometer um suicídio ou um homicídio ou entrar em depressão e ninguém presta atenção.
Tomar posse do horror
As pessoas não param para fazer o luto do cachorrinho que morreu e que às vezes é traumático porque foi atropelado; da vozinha que morreu; da mudança de casa; do bullying que o menino acabou de sofrer na escola. Vou falar a palavra de novo: o horror. O horror vai formar o estressor. O horror do alagamento, o horror do assalto, o horror do estupro, o horror do bullying. Então hoje a clínica está cheia de TEPTs, alguns vão evoluir para doenças físicas, outros para doenças emocionais severas. Tudo isso poderia ser evitado se as pessoas pudessem imaginar como somos frágeis e como coisas da TV não são corriqueiras quando acontecem a primeira vez conosco. Elas precisam ser faladas, ouvidas e transformadas num algo, numa palavra que nos deixe tomar posse do horror.
Patrícia – A gente está muito apressado e isso requer delicadeza, sensibilidade...
Capelatto – [requer] Se importar. Se responsabilizar pelo outro.
Patrícia – A criança que sabe que está acontecendo algo dentro da casa e não verbaliza também pode desenvolver um transtorno?
Capelatto – É um efeito dominó. A pessoa com TEPT em casa começa a se tornar alterada, doente e causa uma perda para os outros. Não é mais marido. Existe um filme americano, cujo título em português é ‘Os efeitos da fúria’, que conta um fato real acontecido numa lanchonete. Um sujeito com TPET entra armado atira e mata algumas pessoas. A história é dos sobreviventes que começaram a ter TEPT - crianças e adultos, inclusive um médico - e as mudanças em suas vidas. Um deles está com câncer e começa a desprezar a doença, a não se tratar; a menininha que perdeu o pai começa a falar com Deus. As pessoas veem que tem algo errado, mas ninguém procura ajuda. Todos entraram em uma falência psicológica terrível. Todos deveriam assistir. É a descrição de todos os sintomas do TEPT.
Então qualquer evento que não é habitual –a mãe foi tomar banho, caiu, machucou a cabeça e saiu sangue; a tempestade que deixou o telefone mudo, deixou sem luz – pode se transformar em TEPT se não falarmos sobre ele.
Patrícia – Tem que procurar ajuda.
Capelatto – Quem não tiver uma situação financeira para profissional particular, deve procurar os Caps, as universidades ou ficar atento ao dia-a-dia que hoje está tão terrível. A vida não nos oferece muita disneylândia, temos sempre notícias de doenças, acidentes, assaltos. Esse país perdeu a noção de respeito, de dignidade, essa estupidez do politicamente correto nos deixou humanamente incorretos. Hoje nós temos uma política de direitos humanos e não temos uma política de deveres humanos, temos direitos de ter prazer, de ter liberdade e não temos deveres mais. ‘Como se beber não dirija’? ’Eu tenho direito de beber e tenho direito de dirigir. Se eu matar alguém eu pago fiança’. Acabou a dignidade, a ideia de que ‘nossa além de me machucar eu posso machucar o outro, se fosse comigo tudo bem, mas eu posso matar o outro.’ As pessoas assaltam hoje não por necessidade, mas por prazer de tirar do outro. Como hoje tudo é politicamente correto existe uma noção assim: ‘Se você tem e eu não tenho você está errada. Você só tem porque eu não tenho’. Então, nós criamos um horror nesse país que não sei onde vai parar. Espero que surja algum meio de interromper essa estupidez. Quanto mais liberdade sexual, mais estupro. ‘Tenho que ter meu prazer com quem eu quiser, mesmo que o outro não queira’.
Rádio UEL FM
Psicanalista Ivan CapelattoFoi assim com uma jovem que tinha vários gatos em casa e passou a sofrer pressão de vizinhos para se livrar deles. Se estava certa ou errada em manter os animais em casa, não é o caso aqui, mas sim o quanto estava assustada. "Para mim, eu estava fazendo algo bom. Nunca imaginei viver uma situação dessas por estar cuidando de animais de rua." Não havia raiva em sua fala, mas perplexidade. Ela parecia realmente não conseguir encontrar um sentido na reação tão agressiva das pessoas. A pressão dos vizinhos afetou tanto a jovem que ela não conseguia mais sair na rua sem olhar para os lados. A ideia de que iriam invadir sua casa e colocar fogo passou a persegui-la. Ela se assustava até com o toque do telefone. Algo que parecia não ter maiores consequências, a abalou de tal forma que passou a viver com medo e assustada.
Eu acredito muito na força do ser humano, na sua capacidade de se reinventar, de encontrar saídas onde estas parecem não existir. Mas há também uma delicadeza que não pode ser desprezada, para a qual o psicanalista Ivan Capelatto chama a atenção em entrevista para a Rádio UEL FM, para a Patrícia Zanin, sobre Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). “As pessoas precisam acordar para a fragilidade extrema que é o ser humano. O ser humano é efetivamente afetivo, não é de plástico, uma coisa que simplesmente esquece o que aconteceu. Precisamos acordar para a vida”, alerta o psicanalista. “[É preciso] se importar. Se responsabilizar pelo outro.” A entrevista será postada no blog em duas partes.
Patrícia - Capelatto, você deu um curso com esse tema e as pessoas ficaram muito afetadas com a sua fala. O que você tem pesquisado sobre esse transtorno?
Capelatto - O Transtorno de Estresse Pós-Traumático, que a gente chama carinhosamente de TEPT, é uma modificação que pode ser na personalidade, no equilíbrio do organismo, pode causar doenças, vai mexer em todas as áreas do sujeito. E – diferente do distúrbio, que tem começo, meio e fim – o transtorno é para o resto da vida.
Patrícia - Mexe no sistema orgânico, fisiológico, mental?
Capelatto– Em tudo. No psicológico, no sistema imunológico, nos hábitos, na vida social e afetiva. O TEPT é a reação a uma invasão que acontece na vida do sujeito – um assalto, a perda drástica de algo ou alguém – à qual não é permitido fazer o luto. Na perda pela doença, o sujeito vai fazendo o luto. Mas muitas vezes perde-se alguém de repente – assassinato, roubo, latrocínio – [a pessoa] quer chorar, gritar, fazer um escândalo, aí alguém vem e medica. Não deixa fazer o luto.
Qualquer evento (guerra, estupro, violência, bullying) que traga horror, angústia e que não sofra uma elaboração imediata, um atendimento adequado imediato, vai gerar o TEPT. O estupro é a causa maior do TEPT. Hoje o Brasil, infelizmente tem sido recordista, quase tanto quanto a África, em estupros de homens, mulheres e crianças. Hoje os homens estão sendo estuprados também. Não sei se vocês sabem disso, mas o número de estupros de homens é muito alto. É que os homens têm vergonha de dar queixa. São homens estuprados por homens. Testemunhas de violência, bulliyng, os sobreviventes de tragédias (cataclismos, enchentes), provavelmente também serão vítimas de TEPT.
Sintomas
Os sintomas são a revivência do evento. A pessoa começa a ter flashs, às vezes, começa a ter uma síndrome de despersonalização, a não querer lembrar, então agride as estruturas básicas da personalidade, começa a ter delírios. Ou começa a imaginar que aquilo vai acontecer de novo, então não quer voltar ao lugar onde aconteceu. Ou ao contrário começa a querer ver, a lembrar, a achar que todos na rua são parecidos com o ladrão que a assaltou e machucou. Às vezes a raiva faz com que queira conversar com o ladrão, saber por que matou o filho.
Todas as idades
O TEPT é um quadro gravíssimo que acontece com crianças, adolescentes, adultos, não há idade. Como pode acontecer imediatamente após o evento ou um ano, dois anos depois, quando alguém começa a adoecer as pessoas não se dão conta de que houve aquele gatilho lá atrás. Existe uma coleção de sintomas e o TEPT não tem cura. Tem que ser tratado constantemente. Ele pode desenvolver uma depressão que a gente chama de depressão maior que é a tristeza constante. Diferente das depressões menores, nas quais a pessoa fica triste depois fica bem, a depressão maior é uma tristeza linear. A pessoa começa a abandonar tudo até emprego, não consegue ficar perto daqueles que gosta, perde o apetite. As doenças associadas ao TEPT são muitas: somatizações, lúpus, câncer, quadros alérgicos até ao lugar onde mora. Mas o quadro mais grave é a depressão maior, que é uma coisa terrível. É crônica e complicada.
Patrícia – Como identificar esse transtorno em uma pessoa que a gente gosta e conhece?
Capelatto – Quando a pessoa começar a falar do evento, a repeti-lo, a ter flashs do evento ou começar a modificar hábitos. Mas, o que mais precisamos fazer sempre que uma criança, adolescente, adulto for surpreendido por uma situação que nunca teve na vida, é levar para um profissional. Essas situações podem ser acidente de carro, assalto, ficar preso na enchente, o atropelamento de um cachorro, bullying, saber por telefone que a avó está com câncer, estupro, nas escolas tem havido estupros no banheiro. Se não tem recursos financeiros, deve procurar o CAPS que é um sistema de saúde. Alguém precisa cuidar, porque toda vez que a pessoa sofrer um evento que não é habitual e não ficar bem claro pode gerar um TEPT. Então, tem que fazer o luto, tem que conversar sobre aquilo, mesmo que aparentemente o evento pareça simples para as pessoas.
As crianças muitas vezes começam a ter medo das nuvens, porque houve um evento traumático: o raio caiu em casa e queimou a geladeira, a televisão. “Mãe quero assistir televisão.” “O raio queimou a televisão.” Essa frase é assustadora. Uma coisa que veio de fora entrou aqui dentro e queimou a televisão. Isso pode gerar um transtorno. Daqui a pouco o flash de uma máquina já gera todo um distúrbio neurovegetativo (taquicardia, sudorese, dor de barriga). Então as pessoas precisam sentar com a criança e ouvir o que ela está sentindo, talvez ajudá-la com desenho [pedir para a criança fazer um desenho sobre a situação].
As cenas de guerra que a mídia traz podem gerar o TEPT em uma criança. É como se ela tivesse testemunhando algo que não é habitual, então precisa ver a reação dela no dia seguinte. O 11 de setembro gerou uma legião de pessoas com TEPT, que hoje estão sendo tratadas com medicação e terapia. Os psiquiatras começaram a se especializar em TEPT porque foram muitas pessoas que viram os aviões e as torres caindo e as pessoas se jogando.
Patrícia – Primeiro de tudo precisa falar? A fala é o primeiro passo para que a pessoa possa entender e organizar o que está acontecendo?
Capelatto – A fala é o primeiro passo. E da fala, vem algum sentimento, o medo, a raiva, o horror. Nos eventos mais incompreensíveis para nós, como o estupro, o horror que vem na fala já ajuda essa pessoa a começar a trabalhar esse luto. Muitas vítimas de estupro não conseguem falar. Porque o horror é tanto, que às vezes não há palavras para expressar o que se está sentindo. A raiva demora a chegar. A raiva no luto é o último elemento. Até chegar nela não há palavras para expressar o horror de ter vivido ou presenciado aquilo. Então, precisa contar a cena, o que estava acontecendo antes, descrever o lugar. Mulheres, homens, crianças que viveram o estupro sentem o cheiro do estuprador, descrevem o barulho que estava acontecendo, até falar.
Patrícia – Às vezes a gente perde um pouco a dimensão, tem famílias que insistem para que a pessoa verbalize. Isso pode gerar um constrangimento a mais para a pessoa?
Capelatto – Às vezes querem que o outro fale pela curiosidade em ouvir, não pelo desejo de ajudar. A aproximação para ouvir a fala do outro tem que ser muito cuidadosa. Por exemplo, uma criança chegou em casa e a gente percebe que alguma coisa aconteceu. Então, vamos desenhar. “A mamãe, o papai tá percebendo que você não está bem. Vem aqui. Vamos desenhar o que aconteceu.” E, às vezes, foi um susto na perua que a estava trazendo da escola e ela não consegue falar porque está impregnada daquela sensação de horror. Ela faz parte dessa autoria. Ela testemunhou isso.
Tem que ter cuidado. Nunca falar que não foi nada. Jamais aliviar o horror ou a possível tragédia. Se a pessoa estava junto, fale do que está sentindo também. “Põe a mão no meu coração. Olha como eu estou assustada também. Estou com medo.” Se não estava junto, facilite para que a criança fale. Às vezes ela vem para casa e nós não percebemos e dali um ano ela começa a manifestar sintomas daquilo que aconteceu. Daí precisa de ajuda profissional, mesmo.
Patrícia – O que estou prestando atenção na sua fala é que assim como nas entrevistas sobre medo, raiva e culpa, nas quais você falou sobre não desqualificar esses sentimentos, o mesmo vale para o TEPT. Por que o impulso é de minimizar, não é?
Capelatto – Como se agente qualificasse o evento pelo evento e não pelo sofrimento que a pessoa está tendo.
Patrícia – Essa é grande diferença, então? Fazer uma análise do evento e não do sofrimento?
Capelatto – Por exemplo, uma criança que está no carro com o pai e que presencia o acidente do lado. Ela não sofreu o acidente, mas por ser testemunha ela pode ter um TEPT. E o pai fala: “Não aconteceu nada com a gente”. Ele não imagina o horror sentido pela criança. Imagine quanta coisa deve ter passado na cabeça de uma criança boa ao ter visto algo, ter ficado impotente frente a esse algo e ter associado isso a tanta coisa: à mãe, ao irmão, a ele mesmo. E aí alguém minimizar: “Não foi nada, esquece“. Não esquece. O estressor nunca é esquecido e no momento em que o pai fala esquece, ele está condenado esse filho a uma existência falida. Não esquece não. “Vamos falar sobre o que você está sentindo.” “Está com medo de que?” Essa fala já pode interromper um TEPT. Se não interromper vamos procurar ajuda. Porque a angústia, o horror que o TEPT traz vai interromper o desenvolvimento da personalidade ou se a personalidade já está formada vai desmontá-la.
Patrícia – TEPT convoca para viver o luto. Todos devem prestar mais atenção nesse processo.
Capelatto – É necessário que a gente faça esse movimento para interromper o transtorno. Se não fizer o trabalho em cima do horror, se não fizer o luto, vamos ter o TEPT, que é para o resto da vida. E às vezes uma conversa, uma audição que se faça com a criança ou com o adulto, nós conservamos a qualidade de vida.
Patrícia – Você falou que não dá para curar. As pessoas vão ficar a vida inteira se tratando. Esse tratamento é terapia?
Capelatto – Terapia. Às vezes alguma medicação de início. Por exemplo, uma pessoa que foi estuprada, que presenciou um terremoto, um alagamento, uma pessoa que perdeu tudo na enchente, perdeu filho com tiro em assalto, precisa ser medicada e ter um acompanhamento psicoterápico intensivo no começo. Depois pode visitar o terapeuta uma vez por mês, uma vez a cada seis meses, mas nunca se afastar. É um tratamento para o resto da vida. Se interromper o tratamento um evento parecido retoma todos os flashes, a gente chama de revivecências. Volta tudo porque como é um transtorno não se cura. Tanto o cérebro quanto o psiquismo vão retomar aquilo. Por isso que a gente chama de estresse. Mesmo o estressor estando distante, o estresse continua presente. Alguém, por exemplo, que perdeu um ente querido num latrocínio. Essa pessoa vai estar cercada de informações [sobre latrocínio], mesmo que ela não veja televisão, na fila do banco alguém contar um caso sobre latrocínio e vai desencadear na pessoa aquilo que está vivo no horror. Então, essa pessoa precisa correr lá para o terapeuta e contar o que ela escutou, senão a revivecência volta. É como se ela vivesse tudo como momento em que aconteceu.
Patrícia – Pode ser uma pessoa sem ser o terapeuta? Um cuidador, alguém de confiança que pode fazer esse papel em alguns casos?
Capelatto - Quando no momento do evento a pessoa começar a falar, às vezes um irmão, um pai, a esposa, sim. Quando o TEPT começa um, dois anos depois, tem que ser um profissional.
Ilustração de Eliana Louvison e Cláudio da Costa “A repetição é uma das condições da elaboração mental necessária para a construção e internalização de representações psíquicas e sociais. Sem uma rede, tecida a partir de um árduo trabalho de representação, a criança, o jovem e o adulto não darão conta de experimentar as experiências com o vazio e a incerteza que os acompanhará no decorrer de toda a vida” (“CONTE OUTRA VEZ” – Eliana Louvison)
Contar e contar e contar
Sem repetição você cola, copia, reproduz, mas não elabora o próprio pensamento. A repetição é a condição necessária para produzir o próprio pensamento. Claro que não temos apenas essas construções, também colamos, copiamos, repetimos. Mas só falamos um conceito com nossas próprias palavras quando o elaboramos.
No projeto [Conte Outra Vez], para bebês até 2 anos as educadoras repetem a mesma história por três meses. Em casa os pais devem repetir enquanto a criança pedir. E, às vezes, ela pede para repetir um único trecho. E se você mudar esse trecho ela diz: ‘não é assim’. Por isso ler a história é uma boa experiência, porque aí não corre o risco de mudar o seu rumo e também porque quando a criança ouve alguém ler se dá conta de que tem uma equivalência entre a palavra escrita e a falada. Se a criança não ouvir alguém lendo, ela lê mal. Por isso hoje no Brasil os jovens até escrevem, mas têm muita dificuldade em ler. A criança que ouve a história lida, lê com uma fluência maravilhosa.
Histórias não traumatizam
As histórias que ajudam são as menos amputadas. Porque quando reduzem a história retiram o que incomoda, que é exatamente o que deveria ficar. Retiram aquilo que acham que vai traumatizar. Mas é o contrário, o que é retirado é o que vai dar um sentido e um nome para aquilo que existe. Mas a tendência é tirar essas partes. “Vou contar uma história que não tem final feliz?” Mas tem tanta coisa na vida que não tem final feliz.
Tenho esperança que isso ajude também os pais a narrarem a realidade. Nosso mundo é o da notícia em tempo real, da internet, da televisão. Sem mediação essas notícias são traumáticas em qualquer idade, principalmente na forma como são apresentadas: uma tragédia e depois um novo sanduíche do McDonald´s. Se você não perder um tempinho com a elaboração disso, onde você coloca isso? Mas se forem mediadas, se tiver um adulto narrando, não tem problema.
As histórias e o supereu
Ilustração de Eliana Louvison e Cláudio da CostaAs histórias podem trazer efeito em várias instâncias do nosso aparelho psíquico. Nesse projeto o objetivo era que tivesse efeito principalmente na capacidade de sociabilidade da criança. Aprender o que é bom e ruim, o que é certo e errado, o que é bonito e feio, é muito complicado. Não são valores absolutos. O bom faz o bem, mas pode fazer o mal. Isso requer elaboração para que a criança possa relativizar. Esse relativizar se dá nas relações intersubjetivas, nas quais a criança vai compondo uma teia que vai lhe dar condições de fazer o julgamento de valor, de dizer ‘isso é bom para mim, isso não é’.
Isso é autonomia: eu dar conta de fazer o julgamento e não simplesmente reproduzir um manual sobre certo e errado e correr o risco de me equivocar extremamente. A autonomia de fazer os atributos de julgamento que antecedem as nossas escolhas é um processo complicado que precisa dessa instância chamada supereu. Eu tenho esse conjunto de ideias internalizadas e essas são compartilhadas.
O que regula a todos
Outra coisa que eu observo é que tem uma política da autonomia que está equivocada, que é: a criança pode escolher sempre. E com isso está se retirando a ideia de que tem um universal, de que tem alguma coisa que regula a todos. Isso fragiliza o eu, porque não é imantado em algo. A história de certa forma dá o que regula a todos sem ter que colocar os pais para filosofar sobre ética.
A ideia de que o bem deve vencer o mal parece careta, mas isso ainda é universal, apesar de hoje vermos o mal versus o mal. A trama das novelas, que são assistidas pelas crianças, mostra o mal versus um mal maior. Tem desenhos animados sanguinolentos, por exemplo, mas tudo bem, se for o bem versus o mal. Mesmo que o mal vença. Na vida, às vezes, o mal vence. O problema que a gente tem tomado cuidado para criança antes dos 13 anos é quando é o mal versus o mal, porque se perde o par antitético (bem/mal, bonito/feio, certo/errado) e aí você entra no patamar do poder, da perversão.
O mesmo acontece com a sexualidade. Eu acho uma judiação quando uma adolescente de 12 anos sai expondo o corpo de uma forma maravilhosa e ninguém diz para ela: 'Olha isso vai provocar desejo nos homens e nas mulheres. Você dá conta?'. Isso basta, não precisa reprimir, dizer para trocar de roupa, colocar saia cumprida, cobrir os peitos. Eu não faria isso jamais e nem acho que essa é a indicação. [O que estamos dizendo é que] o corpo ser objeto de desejo é universal. Isso não mudou e a garota precisa saber.
Ilustração de Eliana Louvison e Cláudio da CostaA primeira história que escolhemos foi a de “João e Maria”. Olhávamos para aquelas crianças [da creche do Jardim João Turquino] e dizíamos: “São João e Maria”. Elas são deixadas na creche por questão de fome, de privação, de falta de dinheiro. Ninguém as coloca lá porque quer que eduquem seus filhos. Eram crianças que não podiam ficar indefesas, tinham que perder a ingenuidade muito cedo. Elas faziam o percurso de João e Maria. Com 5, 6, 7 anos tinham que andar sozinhas pelo bairro e se livrar de assédios de droga, por exemplo. João e Maria não chamam o Conselho Tutelar e nem vão para terapia depois. Eles se viram.
[Nessa perspectiva] O bullying, por exemplo, é uma coisa interessante de se pensar. Como tem que ser resolvido? Equipando as pessoas para se defenderem. E não acreditando que não vão mais judiar e tirar o sarro umas das outras. É assim a vida. [Os personagens] João e Maria usam da mentira positiva, da astúcia, da dissimulação. Coisas que são tabu, sentimentos vistos como se fossem do mal. E a história “O Escorpião e a Rã”? Curioso, quando a gente colocou essa história falaram: ‘Como contar uma história dessas?’ Mas gente essa é a história deles, convoca a perder a ingenuidade. Diz: cuidado!
Chapeuzinho Vermelho
Reconhecendo a expressão da sexualidade
Penso que as crianças, hoje, estão sendo privadas de informação sobre dois temas complicados: sexualidade e agressividade. Vou fazer uma analogia. Está se apresentando a ideia de que a ação do homem na crosta terrestre é responsável pelos acontecimentos no interior da Terra, como: erupção de vulcões, terremotos. Temos que cuidar da crosta terrestre para que não seja devastada. Mas sob o que acontece no interior, na natureza da Terra, quem somos nós para interferir? O mesmo acontece com coisas do humano. Em seu interior há forças terríveis que ele precisa domar: a sexualidade e a agressividade. Não temos controle sobre essas forças, por mais que você cuide, que viva em uma família harmoniosa. Podemos fazer com que se manifestem da forma mais adequada, para garantir a sociabilidade. Mas não podemos fazer de uma pessoa, um anjo.
Aqui entram novamente as histórias. “Chapeuzinho Vermelho” nada mais é do que uma menina que resiste a reconhecer a sexualidade, que ela vê. Ela vê que não é a vovó. Olhos grandes, boca grande. Não é a vovó. Ela viu que não é uma relação casta. Não é uma figura de amor. É um lobo desejante. E ela se deita com ele, porque não quer ver que não existe apenas relação de amor, de cordialidade. Tem outras coisas regendo as relações humanas.
Não sei por que razão ninguém quer falar disso. É muito curioso. A gente vive num mundo em que muitos preconceitos já foram superados. Mas é impressionante, os pais e educadores não querem dizer: ‘Isso é a expressão da sua sexualidade, da sua raiva’. Como se as crianças fossem sujeitos castos e dóceis. É o mesmo com os jovens. Eles estão transpirando sexualidade e não querem ver. Daí, a chapeuzinho vermelho engravida com 13 anos. Claro que engravida. Ninguém nomeou. Ninguém narrou que o corpo descoberto podia atrair o desejo de um homem. Ninguém diz: ‘Essa roupa vai atrair o desejo de um homem. Fica esperta!’
O que nos cabe é aguentar e nomear
Como tudo isso passa depois por um processo de recalcamento, seria desumano convocar as pessoas a lidarem com essas forças. Olha que interessante: pai e mãe não veem sexualidade de filho. Educador vê. O lugar subjetivo de pai e mãe faz com que eles não vejam filho se masturbando, erotizando as relações. Como nas relações de parentesco a sexualidade deve ser eliminada, recalcada, é bom que não veja mesmo.
Então, não é que a sexualidade esteja mais precoce nas crianças. É que elas estão indo mais cedo para um espaço onde as pessoas podem ver a sexualidade delas. Desde que não seja um comportamento inadequado, que expresse uma dificuldade da criança, as educadoras devem fazer vista grossa. Porque se você faz uma repressão precoce, vai trazer problemas futuros gravíssimos. Então, tem que aguentar [essa expressão da sexualidade da criança, que pode escandalizar, a princípio] e tem que ir apresentando nomeação [por meio das histórias] para a criança dar conta disso que está experimentando.
Por exemplo, os bebês mordem. Mas não é a mordida em si que incomoda. É que as educadoras conseguem perceber que ali tem um prazer, de quem morde e de quem foi mordido. Isso assusta, porque passamos por esse processo e recalcamos e quando isso se apresenta de novo, mexe com esse recalque.
Compreendendo o interior humano
Nesse sentido a formação [por meio do projeto “Conte Outra Vez”] é importante. Apresentamos o interior da Terra. Aí, as educadoras começam a entender que esses comportamentos [em relação à sexualidade e à agressividade] da criança são a erupção de algo, a expressão disso, o desequilíbrio daquilo. Então, vamos ver o que se faz com isso e não ficar com esse ideal de que esse sujeitinho é um anjo ingênuo. As histórias mexem com as educadoras que também vão elaborando suas questões referentes a essas forças internas.

Durante 20 anos, foram muitas as tentativas da psicanalista Eliana Louvison, de levar sua experiência para além do atendimento individual no consultório. Experimentou muitos fracassos. Chegou perto de desistir deste desejo. Mas dona de um dom ímpar – “(...) costurar os restos e transformá-los em algo novo e mais belo do que o que se perdeu.” – fez mais uma tentativa.
Em 2000, apoiada pelas irmãs claretianas Elza e Francisca que acolheram seu desejo, ainda sem nenhuma proposta em mente, criou o projeto Conte Outra Vez, desenvolvido em centros de educação infantil de Londrina – a princípio na creche recém inaugurada, à época, Menino Deus no bairro João Turquino – com o propósito de apresentar as tramas da vida às crianças de até 6 anos, por meio das histórias clássicas da literatura infantil. Ajudá-las a nomear sentimentos e emoções, preservar a imaginação e a criatividade delas, desenvolver valores éticos e sociais.
Este ano, a experiência de 10 anos foi transformada no livro “Conte Outra Vez – Histórias Infantis para Formação de Crianças”, no qual relata a experiência para dar destinação e sustentar seu desejo, o trabalho na formação das educadoras, a importância e o papel das histórias infantis no desenvolvimento de crianças. As ilustrações belíssimas da própria Eliana e de Claudio Francisco da Costa complementam a intensidade e poesia do livro.
Aqui no blog, Eliana Louvison conta um pouco sobre esse trabalho e discute temas densos que nos convocam à reflexão. A entrevista será publicada em três posts.
“Gosto muito de fazer dos restos alguma coisa nova. Daquilo que poderia ser jogado fora pego algumas partes, dou asas à imaginação, aciono meus recursos criativos e monto alguma coisa que novamente passa a fazer parte de minha vida ou daqueles que fazem parte da minha história.” (Eliana Louvison)
Era uma vez...
A questão mais forte que mobilizou meu trabalho foi a angústia da irmã Elza. A creche (Menino Deus) estava inserida em um bairro, o João Turquino, que era o mais violento da cidade e que também tinha as vivências mais comuns. Como estabelecer objetivos educacionais, visando valores cristãos e éticos (afinal a creche ia ser dirigida por uma irmã claretiana) estando inserida nesta realidade? Eu insistia que não podíamos entrar com um discurso moral sobre certo e errado, bonito e feio, honesto e desonesto. Como dizer para essa criança não mentir, se ela precisa da mentira como recurso ético, inclusive? Não a mentira perversa, mas a mentira como recurso de sobrevivência. Se ela for verdadeira, vai ser devorada por essa realidade.
Daí surge a ideia de contar histórias. O “Era uma vez em um reino distante” cria o deslocamento no tempo e no espaço necessário para tratarmos dessa realidade contraditória, paradoxal, trágica, ao mesmo tempo em que abordamos o dia a dia das crianças, sem entrar diretamente na questão. Sem esse deslocamento, a criança angustia demais. São crianças realmente abandonadas. Você vai dizer: ‘Olha, você está abandonada’. Não dá.
A escolha das histórias
As narrativas clássicas, que tratam de questões humanas universais, foram coletadas da tradição oral a partir do que era vivido naquele momento. Então, compiladas elas serviam para transmitir os ideais iluministas. Assim, essas narrativas tratam das angústias que todos têm. É impressionante como ao oferecê-las às crianças, elas começam a contar sobre suas vidas. Antes, não sabiam contar. Com as narrativas, têm acesso a essa realidade e podem falar sobre si.
Por que se narrar?
Saber contar é importante porque somos uma narrativa. Quem somos nós senão uma ficção sobre nós mesmos? Nossa identidade não é algo cristalizado, definido. A gente é o que a gente narra sobre a gente. E a nossa narrativa é composta pela nossa percepção e pela dos outros, que nos rodeiam. Então, se a criança consegue contar o que está vivendo, ela está se constituindo. Tem um exemplo muito interessante. A criança está vivendo uma experiência de medo e, às vezes, não sabe que se chama medo. Você começa a contar histórias, para os pequenininhos, de um ano e pouco, de lobo mau, três porquinhos, bruxa e eles começam a falar que têm medo. As mães e os pais em casa interpretam assim: ‘Começaram a contar história e agora ele tá com medo.’ Não! Não é que agora ele está com medo. Ele já experimentava esse sentimento, só que agora sabe nomear o que está sentindo e consegue comunicar isso ao pai, à mãe. Então, não entra em estado de angústia.
A narrativa tem a capacidade de antecipar uma interpretação mais geral, que a criança usa para dar sentido ao que está vivendo. É bonitinho de ver, as crianças começam a contar coisas de casa. Agora elas sabem contar que o pai está em conflito com a mãe, sabem fazer a leitura. Antes, só testemunhavam um negócio que não sabiam bem o que era.
“Conte Outra Vez tem se revelado uma criação com vida mais longa que as anteriores, na medida em que tenho conseguido manter minha promessa. Meu desejo é o que impera e dá direção.” (Eliana Louvison).
Alguém que conta a história
Mesmo que se use a narrativa de uma história infantil bem elaborada, todo o processo de construção da subjetividade requer mediação. Sujeitos largados na floresta, criados por animais, vivem e crescem. Mas não falam. Porque a mediação é um humano outro que antecipa o sentido. O bebê, por exemplo. A mãe fica chutando (para descobrir o que ele tem): ‘Está com dor, com cólica, está mal humorado.’ Esse blábláblá vai convocando o aparelho psíquico a funcionar. Se não fizermos isso não viramos seres humanos.
Mas como convocar um educador, um pai, uma mãe, a ficar narrando as tramas intrapsíquicas, se isso, geralmente, é feito na base de um recalque? Ninguém vai ficar se narrando para o filho. Ninguém faz isso. Parece que os indígenas fazem, porque têm tempo para ficar contando, contando, contando, narrando o dia inteiro. Nós não fazemos mais isso. Aí entram as histórias nas quais o autor decidiu falar sobre a nossa existência.
Por isso, nós escolhemos as clássicas e as do Rubem Alves que metaforizam as grandes angústias humanas. Tem uma história deste autor, ‘O Medo da Sementinha’, em que a palavra morte não aparece. Mas trata da morte. É impressionante como quando a contamos, a criança começa a perguntar: ‘Meu pai vai morrer? Não sei quem vai morrer?’
“Assim como um bom quadro não precisa de título para afetar nossos sentidos, uma boa música não precisa de tradução para nos fazer rir ou chorar (...), histórias bem contadas e escritas não precisam ser interpretadas. Elas falam por si só.” (Eliana Louvison)
Funções das histórias clássicas
As histórias clássicas têm duas grandes funções. Nomeação: oferecer palavras para que a criança possa dizer de si e do outro. Ensinar a narrar: para que eu possa narrar a meu respeito, mesmo que eu crie as ficções mais doidas, não importa. A preocupação não é se de fato você está falando de si tal como é, porque todas as narrativas que fazemos de nós são provisórias. Quando você gruda numa história e não a revê, você adoece.
Essas narrativas clássicas não descrevem uma realidade. Elas vão mostrando como a coisa vai mudando, vai se transformando. O bom vira mau, o mau vira bom, o que estava por baixo fica por cima. A história dos Três Porquinhos, por exemplo, fala na verdade de um só, que a cada momento age de uma forma. Nós temos os três porquinhos dentro de nós. Uma hora somos o porquinho que está com a casa mais vulnerável, em outra conseguimos agir bem com as intempéries da vida, em outra nos aliamos e fazemos cumplicidade para dar conta de algumas coisas. O mal é relativizado. Tem hora que você tem que ser mauzinho. A história de João e Maria é fantástica. Tem uma hora que a Maria joga a bruxa no forno.
Roberto Custódio

Cida, por ela mesma
Infância
Meus pais trabalhavam na lavoura. A gente se criou em sítio, em várias regiões do Paraná. Eu vim aqui para o União da Vitória (bairro da periferia de Londrina) há 20 anos. Com sete anos eu já cuidava dos meus irmãos, eram oito. Minha mãe ia pra lavoura ajudar meu pai e eu que ficava com eles. Meu pai e minha mãe trabalhavam bastante, mas eram muito presentes. A gente cresceu devendo obediência a eles. Tudo a gente perguntava se podia ou não. E não era não. A gente obedecia. Lembro que tinha 17 anos e já tinha meu filho mais velho, que tem 28 anos, e ainda obedecia meu pai e minha mãe. Foi assim a vida inteira. Meu pai ensinou a gente que não podia nunca contar um segredo e que não devia querer saber de coisas ruins.
Escutadora de histórias
A gente era muito pobre, então na hora do jantar, todos os filhos pegavam seus pratinhos, sentavam no chão e meu pai e minha mãe contavam histórias pra gente. Os vizinhos, amigos adultos, também contavam histórias. Ainda hoje eu adoro ouvir histórias. Só não gosto de histórias de fantasmas (risos). Gosto de romances, de amores desencontrados, daqueles que as pessoas se apaixonam depois se casam com outro e anos mais tarde se reencontram e o amor ainda resiste; gosto também daquelas histórias de milagres, sabe? Aquelas que a pessoa está na beira do abismo e pede com tanta fé que tudo muda. Eu mesma vivi histórias assim. Quando meu filho de 12 anos nasceu, a gente correu muito risco. Fiquei internada na UTI. Mas pedi com fé. Antes de ir pra cirurgia eu falei com Deus. ‘O senhor sabe que eu quero muito esse neném. Se o senhor deixar ele comigo eu vou ficar muito feliz. Mas é o senhor quem sabe.” Deu tudo certo. Eu ainda gosto muito de ouvir histórias de vida. Tenho muitos amigos de 20 e poucos anos e gosto muito de ouví-los contando quando se apaixonam. Eu e meu marido também conversamos muito. Ele me conta as histórias que aconteceram com ele quando era criança, o que ele ouviu, o que ele fez e eu conto as minhas histórias também.
Queria ser escritora
Eu sempre soube que não queria trabalhar pra ninguém. Queria trabalhar pra mim. Eu não sei ler nem escrever. Mas se eu tivesse estudado eu queria ser escritora. Meu marido fala: ‘tá vendo? Quem mandou fugir da escola?’ Mas não foi bem assim que aconteceu [Não há vestígio de queixa ou lamentação na fala de Cida].
Pra falar a verdade é o meu trabalho. Eu fico o dia inteiro aqui. Terça-feira e quinta-feira trabalho com as crianças e adolescentes. Sexta-feira eu trabalho com as senhoras (sempre com oficinas de artesanato). Na segunda-feira e na quarta-feira tenho o grupo de produção para geração de renda (também fazendo trabalhos manuais). Eu levanto todo dia às 5 horas. Vou à academia,depois volto, limpo a casa, lavo a roupa, faço almoço, tomo banho e 9 horas estou aqui no trabalho. Quando comecei a trabalhar com criança aqui, fiquei na dúvida se ia dar certo. Mas fui me encontrando. Se eu pudesse trazia tudo quanto é criança prá cá (Projeto Eurobase). Quando chega uma pedindo vaga e a assistente social fala que não tem, eu fico olhando pra ela assim (sabe?), na esperança que ela fale que pode ficar. Eu às vezes digo: ‘mas não tem jeito de encaixar ele aqui, ele tá querendo tanto vir’. Eu acho que se está querendo vir é porque acha legal e se acha legal é uma forma de a gente tá sabendo mais dessa criança, do que acontece com ela no dia a dia. É uma forma de a gente ganhar mais essa criança.
Sabedoria de Cida
Se eu pudesse me dirigir aos pais, eu me dirigia assim: ‘tem que ouvir o que os filhos querem contar, mesmo que seja algo sem graça, pra ele é muito importante. Aquilo que a criança vem contar é o mundo dela, mesmo que pra gente não tenha importância nenhuma’. Eu vejo pelo meu filho de 6 anos. Ele fez um chapéu na escola ontem e veio me mostrar. Tem pais que falam: ‘sai pra lá com isso’. Eu paro, olho, quero saber como ele fez, ele conta todo importante, todo feliz. Eles ficam muito felizes com a atenção que a gente dá pra eles. Eu dou atenção pra tudo e pra todos. Eu penso assim: ‘tá acima de tudo o respeito do ser humano com o outro. Se você desrespeita o outro, você desrespeita a si próprio, porque é tudo ser humano.’ E pai e mãe tem que ter paciência. Meus pais não tinham não, mas eu queria que tivesse. Fui aprendendo na prática. Eu acho que pai e mãe tem que saber onde o filho está. O que está fazendo. Tem que dizer o que é certo e o que é errado. Tem coisa que todo mundo tem que saber. Não interessa se gosta ou não. Assim é que é. Tem que cumprir algumas regras que são pra todo mundo, não tem jeito. E pai e mãe se não tiver presente não ensina isso.
Roberto Custódio

O que somos se constrói em parte por meio da narrativa, da nossa capacidade de nos contarmos e em parte pela forma como o outro nos conta, nos reconhece. A nossa humanidade se inscreve no olhar do outro e assim nos tornamos o que somos. Existimos no outro, e o outro em nós. Nós que negamos a humanidade ao outro ao reduzir sua existência aos boletins de ocorrências policiais; ao reproduzir fragmentos de uma vida como se fosse toda ela.
Diariamente, jogamos na vala dos espectros, que existem apenas na condição de violência, países, cidades, bairros, pessoas. Fazemos isso, especialmente, por meio da mídia, com seus programas policiais e suas páginas sem espaço e tempo para a vida, apenas para uma ínfima parte dela. Olhamos para esse outro, não como o outro que existe em nós, mas como a parte negada de nós: o feio, o sujo, o transgressor.
E é com certo espanto e um bocado de ceticismo que reagimos diante da revelação de que existe vida – como a vida da gente dita de bem – nos bairros narrados apenas a partir da violência. Pois bem, nesses bairros tem horta comunitária, tem mães que levam os filhos para a escola, tem pais que trabalham, tem adolescentes que ensinam outros adolescentes. Tem adultos preocupados com o futuro das crianças. E tem Cida, 45 anos, que atua em projeto social no bairro onde vive. Não há apenas uma, mas algumas Cidas. Talvez mais reservadas, não se contem como Cida se conta e revela um pouquinho de cada uma delas.
Cida tem outra história para contar. Uma história que não encontramos em qualquer esquina de bairros, cidades, países da gente de bem. Onde o feio não parece tão feio quanto lá, onde vivem os sujos e malvados. Cida olha para crianças e adolescentes do bairro como crianças e adolescentes, e não com o olhar contaminado pela representação midiática que os condena como mazelas sociais e criminosos em potencial.
Essa mulher aprendeu, sabe-se lá onde e como, que criança dita “difícil” tem de ser ouvida, acolhida e não expulsa. Eu já vi escola particular, com seus especialistas, negar ao pai a matrícula do filho com o seguinte argumento: “Seu filho não nos interessa mais.” O comportamento do garoto não era conveniente para a escola. Cida – lá do bairro onde não existem humanos, só protagonistas da violência – recebeu uma menina na sua oficina de artesanato, encaminhada pelo professor de futebol do projeto social onde ela atua. O professor estava longe de querer ver a garota pelas costas.
Queria ajudar. Por isso a encaminhou para Cida e às outras mulheres da oficina. Ele havia esgotado os seus recursos para atendê-la. “Não sei o que fazer. Ela bate, xinga, joga pedra nas outras crianças”, disse o professor à Cida. A garota chegou recusando abraço, beijo e qualquer contato físico. “Fui abraçá-la e ela escapou por debaixo do meu braço”,lembra Cida. “Nós bobeamos e a menina quebrou cadeira e mesa.” E foi nessa parte da história que a humanidade de Cida me encheu de alegria.
“Quando vi isso, falei para as outras mulheres: “Ichi! Essa menina não pode sair daqui, não! Vai saber de quantos lugares ela já foi expulsa. Isso não pode, não. Deixa a pessoa muito pra baixo!” Abençoada Cida. A menina, que fugia de abraço, hoje é uma criança afetuosa. E, assim como ela, muitos foram e são acolhidos. Cida opera os milagres de forma absurdamente óbvia: “Cinco minutos com uma criança, um adolescente e dá para saber o que aconteceu.” Como? “É só ouvir o que eles têm para dizer”, conta. “Eu chego sem xingamento. E eles falam. É que eu quero ouvir.”
Assim, Cida se inscreve no mundo, esbanjando capacidade de escutar o outro, de acolher aqueles que estão mais fragilizados e para os quais as portas se fecham, de não se desorganizar subjetivamente diante das “coisas feias” que fazem crianças e adolescentes. A psicanalista Graziela Rebouças Santi nos ajuda a refletir um pouco sobre como é possível colocarmos para fora a Cida que há em nós.
Em um mundo que, habitualmente, reduz o outro ao que ele apresenta de menos dignificante, quais recursos internos são acionados para que se olhe o outro em sua totalidade. O que Cida tem que parece faltar a tantos de nós?
Na verdade, não tem uma receita para se construir recursos internos. Recursos internos falam de um conjunto de coisas, como capacidade de pensamento, de associação, de observação, que reunimos ao longo da vida e que colocamos em prática diante de situações difíceis. Assim, podemos nos afastar um tanto do que está à nossa volta para agirmos de modo benéfico.
Certamente esses recursos não são genéticos, podemos aprendê-los, por exemplo, se temos algum cuidador que nos ensinou a pensar, a ter bom senso, a nos defender, a usar a agressividade de modo benéfico e não como descarga. Mas existem pessoas que conseguem desenvolver tais recursos por elas mesmas. Pessoas que conseguem ter uma saúde psíquica ao observar o mundo ao seu redor, que sabem expressar seus sentimentos com clareza e pedir o que querem, mesmo estando num contexto muito desfavorável. Não agimos exclusivamente por modelos.
Existem seres humanos saudáveis em todos os contextos possíveis e certamente a Cida é um deles. Ela tem uma capacidade de se doar que parece legítima e se doa na medida certa, sem ficar rendida. Penso que ela se doa, mas depois pode voltar ao seu lugar. Ou seja, se doa, mas não se coloca numa posição onipotente de salvadora do mundo.
Talvez fosse interessante perguntar a ela como foi construindo ao longo de sua vida esta percepção sobre as pessoas que estavam ao seu redor, como foi aprendendo a ler os simbolismos. Cida tem muitos recursos simbólicos, a capacidade de simbolização é muito importante na vida. Começamos a simbolizar quando crianças, usando brinquedos e brincando. Aí começamos a construir esta capacidade que depois vai se aprimorando. O trabalho que ela desenvolve em uma oficina de artesanato pode trazer muitos simbolismos: como vamos tecendo a vida, a espera para que uma peça fique pronta, usarmos uma colagem que nos agrada.
Enfim, é um exercício que nos permite colocar nossas belezas para fora.
Como se constitui o que chamamos de saúde mental e que nos faz capaz de colocar o outro em nossa perspectiva cotidiana?
Freud, em toda sua teoria, que, aliás, foi sendo construída ao longo de suas observações e inquietações, formulou o conceito de saúde mental que manteve permanente até o seu final. Para Freud, saúde mental é poder saber amar e saber trabalhar.
Para isso, só aprendemos fazendo, tentando, construindo. Poder pensar no que gostamos é um bom começo. Penso que Cida faz o que gosta, sabe onde encontrar prazer. Quando realizamos uma atividade e podemos tirar prazer do que fazemos, estamos nos dando o melhor reconhecimento e assim não precisamos que o outro nos avalie e nos descubra, podemos legitimar o que somos e o que sabemos.
Cida não se sente vítima do seu meio, da sua condição financeira, isto fala de uma posição subjetiva, o modo como nos relacionamos na vida com os outros e com os objetos que estão ao nosso redor. Parece que ela se pergunta o que pode fazer e assim não permite ficar submetida ao outro. É uma pessoa inquieta no melhor sentido da palavra.
Cida parece conseguir olhar para as crianças e adolescentes e não reduzi-los às “coisas feias” que fazem. Isso falta em muitos lugares, inclusive em várias escolas, no ambiente familiar. Por que é tão importante suportar essas “coisas feias”?
Certamente não costumamos nos ocupar com o que nos traz mais trabalho. A criança ou o adolescente dito ‘difícil” é aquele que nos dá trabalho, ou seja, aquele que precisa que um outro decodifique suas ações, leia seu comportamento, porque ele mesmo não está conseguindo se entender.
Ninguém que de fato queira sair de casa o faz com barulho, gritando ou batendo porta. Quando age assim está pedindo para ser cuidado, para que o segurem em casa. Precisa ter certeza de que vão tolerá-lo mesmo ele mostrando suas coisas feias. As coisas feias que estão dentro dele. Cida pode olhar para estas coisas feias do outro sem se chocar.
Talvez, por sua história de vida, tenha adquirido a percepção de que quem faz muito barulho anunciando-se assim é porque está pedindo para ficar. A expulsão pode ocasionar que a repetição se propague na vida dessa criança até que ela encontre alguém que finalmente possa fazê-la parar. Às vezes, ela encontra na polícia, na lei essa contenção e aí provavelmente já estará no caminho de uma delinquência.
Quem vai sendo expulso com frequência, se não tiver ajuda ou algum recurso interno para poder perceber o que está fazendo, vai somente jogando para fora sua raiva, seu ódio e não poderá também suportar o mínimo de frustração.
Ao querer saber sobre o outro, Cida permite que ele se narre, se conte. O que é preciso em nós para a escuta e qual o efeito sobre o outro?
Talvez Cida se coloque a escutar a fala de muitas crianças e adolescentes estando numa posição de mãe, ou seja, usando seus recursos maternos de acolhimento, afeto, de libidinização, de investimento. Escuta de verdade quando se sabe quem se é e o que se é e sabe o que pode oferecer ao outro. Como eu disse, ela não parece se colocar como uma mãe onipotente, mas como uma mãe tranquila, que quer saber sobre o outro, sem lhe dar receitas ou sem invadir sua privacidade.
Quando nos colocamos interessados na fala do outro, estamos legitimando que aí tem algo interessante que merece ser ouvido. Além de darmos humanidade ao outro,legitimamos que ele tem um saber. Todos nós temos histórias para contar e ao falar podemos nos ouvir. Às vezes podemos nos surpreender com o que sai da nossa boca. E quando quem nos ouve legitima que há um sentido em nossa fala, podemos mudar um comportamento que se repetia porque ainda não havia sido entendido ou, ainda, pensarmos que de fato temos que nos cuidar. Se for o caso, pensar: “Puxa, é sério o que acontece comigo.”