Inventar a Vida

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A delicadeza do ser humano

04 de Maio de 2012 - 18:03 hscomente esta notícia

Rádio UEL FM

Rádio UEL FM / Psicanalista Ivan CapelattoPsicanalista Ivan Capelatto
Gosto muito de gente. Uma das felicidades da minha profissão de jornalista é estar sempre conversando com pessoas, especialmente a gente comum. Acabo conhecendo um pouco de sujeitos maravilhosos, os quais eu não encontraria se não fosse repórter. Gosto de saber como pensam, agem e reagem, como se movem na vida, suas dores e alegrias. Invariavelmente acabo afetada por essas pessoas e carregando um pouco delas comigo durante um bom tempo. Até que processo de tal forma aquilo que era do outro que passa a fazer parte de mim. Minha amiga jornalista Patrícia Zanin, que tem o dom da escuta do outro como só raras pessoas têm, conta que costuma ficar na cabeça com falas inteiras de seus entrevistados. Eu fico com sensações, ideias, trechos de falas, pensamentos, que generosamente compartilham comigo. A experiência delas me ajuda a me entender melhor. E não são as grandes vivências, mas as pequenas coisas do dia-a-dia que acabo carregando comigo.

Foi assim com uma jovem que tinha vários gatos em casa e passou a sofrer pressão de vizinhos para se livrar deles. Se estava certa ou errada em manter os animais em casa, não é o caso aqui, mas sim o quanto estava assustada. "Para mim, eu estava fazendo algo bom. Nunca imaginei viver uma situação dessas por estar cuidando de animais de rua." Não havia raiva em sua fala, mas perplexidade. Ela parecia realmente não conseguir encontrar um sentido na reação tão agressiva das pessoas. A pressão dos vizinhos afetou tanto a jovem que ela não conseguia mais sair na rua sem olhar para os lados. A ideia de que iriam invadir sua casa e colocar fogo passou a persegui-la. Ela se assustava até com o toque do telefone. Algo que parecia não ter maiores consequências, a abalou de tal forma que passou a viver com medo e assustada.

Eu acredito muito na força do ser humano, na sua capacidade de se reinventar, de encontrar saídas onde estas parecem não existir. Mas há também uma delicadeza que não pode ser desprezada, para a qual o psicanalista Ivan Capelatto chama a atenção em entrevista para a Rádio UEL FM, para a Patrícia Zanin, sobre Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). “As pessoas precisam acordar para a fragilidade extrema que é o ser humano. O ser humano é efetivamente afetivo, não é de plástico, uma coisa que simplesmente esquece o que aconteceu. Precisamos acordar para a vida”, alerta o psicanalista. “[É preciso] se importar. Se responsabilizar pelo outro.” A entrevista será postada no blog em duas partes.

Patrícia - Capelatto, você deu um curso com esse tema e as pessoas ficaram muito afetadas com a sua fala. O que você tem pesquisado sobre esse transtorno?
Capelatto -
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático, que a gente chama carinhosamente de TEPT, é uma modificação que pode ser na personalidade, no equilíbrio do organismo, pode causar doenças, vai mexer em todas as áreas do sujeito. E – diferente do distúrbio, que tem começo, meio e fim – o transtorno é para o resto da vida.

Patrícia - Mexe no sistema orgânico, fisiológico, mental?
Capelatto–
Em tudo. No psicológico, no sistema imunológico, nos hábitos, na vida social e afetiva. O TEPT é a reação a uma invasão que acontece na vida do sujeito – um assalto, a perda drástica de algo ou alguém – à qual não é permitido fazer o luto. Na perda pela doença, o sujeito vai fazendo o luto. Mas muitas vezes perde-se alguém de repente – assassinato, roubo, latrocínio – [a pessoa] quer chorar, gritar, fazer um escândalo, aí alguém vem e medica. Não deixa fazer o luto.

Qualquer evento (guerra, estupro, violência, bullying) que traga horror, angústia e que não sofra uma elaboração imediata, um atendimento adequado imediato, vai gerar o TEPT. O estupro é a causa maior do TEPT. Hoje o Brasil, infelizmente tem sido recordista, quase tanto quanto a África, em estupros de homens, mulheres e crianças. Hoje os homens estão sendo estuprados também. Não sei se vocês sabem disso, mas o número de estupros de homens é muito alto. É que os homens têm vergonha de dar queixa. São homens estuprados por homens. Testemunhas de violência, bulliyng, os sobreviventes de tragédias (cataclismos, enchentes), provavelmente também serão vítimas de TEPT.

Sintomas

Os sintomas são a revivência do evento. A pessoa começa a ter flashs, às vezes, começa a ter uma síndrome de despersonalização, a não querer lembrar, então agride as estruturas básicas da personalidade, começa a ter delírios. Ou começa a imaginar que aquilo vai acontecer de novo, então não quer voltar ao lugar onde aconteceu. Ou ao contrário começa a querer ver, a lembrar, a achar que todos na rua são parecidos com o ladrão que a assaltou e machucou. Às vezes a raiva faz com que queira conversar com o ladrão, saber por que matou o filho.

Todas as idades

O TEPT é um quadro gravíssimo que acontece com crianças, adolescentes, adultos, não há idade. Como pode acontecer imediatamente após o evento ou um ano, dois anos depois, quando alguém começa a adoecer as pessoas não se dão conta de que houve aquele gatilho lá atrás. Existe uma coleção de sintomas e o TEPT não tem cura. Tem que ser tratado constantemente. Ele pode desenvolver uma depressão que a gente chama de depressão maior que é a tristeza constante. Diferente das depressões menores, nas quais a pessoa fica triste depois fica bem, a depressão maior é uma tristeza linear. A pessoa começa a abandonar tudo até emprego, não consegue ficar perto daqueles que gosta, perde o apetite. As doenças associadas ao TEPT são muitas: somatizações, lúpus, câncer, quadros alérgicos até ao lugar onde mora. Mas o quadro mais grave é a depressão maior, que é uma coisa terrível. É crônica e complicada.

Patrícia – Como identificar esse transtorno em uma pessoa que a gente gosta e conhece?
Capelatto –
Quando a pessoa começar a falar do evento, a repeti-lo, a ter flashs do evento ou começar a modificar hábitos. Mas, o que mais precisamos fazer sempre que uma criança, adolescente, adulto for surpreendido por uma situação que nunca teve na vida, é levar para um profissional. Essas situações podem ser acidente de carro, assalto, ficar preso na enchente, o atropelamento de um cachorro, bullying, saber por telefone que a avó está com câncer, estupro, nas escolas tem havido estupros no banheiro. Se não tem recursos financeiros, deve procurar o CAPS que é um sistema de saúde. Alguém precisa cuidar, porque toda vez que a pessoa sofrer um evento que não é habitual e não ficar bem claro pode gerar um TEPT. Então, tem que fazer o luto, tem que conversar sobre aquilo, mesmo que aparentemente o evento pareça simples para as pessoas.

As crianças muitas vezes começam a ter medo das nuvens, porque houve um evento traumático: o raio caiu em casa e queimou a geladeira, a televisão. “Mãe quero assistir televisão.” “O raio queimou a televisão.” Essa frase é assustadora. Uma coisa que veio de fora entrou aqui dentro e queimou a televisão. Isso pode gerar um transtorno. Daqui a pouco o flash de uma máquina já gera todo um distúrbio neurovegetativo (taquicardia, sudorese, dor de barriga). Então as pessoas precisam sentar com a criança e ouvir o que ela está sentindo, talvez ajudá-la com desenho [pedir para a criança fazer um desenho sobre a situação].

As cenas de guerra que a mídia traz podem gerar o TEPT em uma criança. É como se ela tivesse testemunhando algo que não é habitual, então precisa ver a reação dela no dia seguinte. O 11 de setembro gerou uma legião de pessoas com TEPT, que hoje estão sendo tratadas com medicação e terapia. Os psiquiatras começaram a se especializar em TEPT porque foram muitas pessoas que viram os aviões e as torres caindo e as pessoas se jogando.

Patrícia – Primeiro de tudo precisa falar? A fala é o primeiro passo para que a pessoa possa entender e organizar o que está acontecendo?
Capelatto –
A fala é o primeiro passo. E da fala, vem algum sentimento, o medo, a raiva, o horror. Nos eventos mais incompreensíveis para nós, como o estupro, o horror que vem na fala já ajuda essa pessoa a começar a trabalhar esse luto. Muitas vítimas de estupro não conseguem falar. Porque o horror é tanto, que às vezes não há palavras para expressar o que se está sentindo. A raiva demora a chegar. A raiva no luto é o último elemento. Até chegar nela não há palavras para expressar o horror de ter vivido ou presenciado aquilo. Então, precisa contar a cena, o que estava acontecendo antes, descrever o lugar. Mulheres, homens, crianças que viveram o estupro sentem o cheiro do estuprador, descrevem o barulho que estava acontecendo, até falar.

Patrícia – Às vezes a gente perde um pouco a dimensão, tem famílias que insistem para que a pessoa verbalize. Isso pode gerar um constrangimento a mais para a pessoa?
Capelatto –
Às vezes querem que o outro fale pela curiosidade em ouvir, não pelo desejo de ajudar. A aproximação para ouvir a fala do outro tem que ser muito cuidadosa. Por exemplo, uma criança chegou em casa e a gente percebe que alguma coisa aconteceu. Então, vamos desenhar. “A mamãe, o papai tá percebendo que você não está bem. Vem aqui. Vamos desenhar o que aconteceu.” E, às vezes, foi um susto na perua que a estava trazendo da escola e ela não consegue falar porque está impregnada daquela sensação de horror. Ela faz parte dessa autoria. Ela testemunhou isso.

Tem que ter cuidado. Nunca falar que não foi nada. Jamais aliviar o horror ou a possível tragédia. Se a pessoa estava junto, fale do que está sentindo também. “Põe a mão no meu coração. Olha como eu estou assustada também. Estou com medo.” Se não estava junto, facilite para que a criança fale. Às vezes ela vem para casa e nós não percebemos e dali um ano ela começa a manifestar sintomas daquilo que aconteceu. Daí precisa de ajuda profissional, mesmo.

Patrícia – O que estou prestando atenção na sua fala é que assim como nas entrevistas sobre medo, raiva e culpa, nas quais você falou sobre não desqualificar esses sentimentos, o mesmo vale para o TEPT. Por que o impulso é de minimizar, não é?
Capelatto –
Como se agente qualificasse o evento pelo evento e não pelo sofrimento que a pessoa está tendo.

Patrícia – Essa é grande diferença, então? Fazer uma análise do evento e não do sofrimento?
Capelatto –
Por exemplo, uma criança que está no carro com o pai e que presencia o acidente do lado. Ela não sofreu o acidente, mas por ser testemunha ela pode ter um TEPT. E o pai fala: “Não aconteceu nada com a gente”. Ele não imagina o horror sentido pela criança. Imagine quanta coisa deve ter passado na cabeça de uma criança boa ao ter visto algo, ter ficado impotente frente a esse algo e ter associado isso a tanta coisa: à mãe, ao irmão, a ele mesmo. E aí alguém minimizar: “Não foi nada, esquece“. Não esquece. O estressor nunca é esquecido e no momento em que o pai fala esquece, ele está condenado esse filho a uma existência falida. Não esquece não. “Vamos falar sobre o que você está sentindo.” “Está com medo de que?” Essa fala já pode interromper um TEPT. Se não interromper vamos procurar ajuda. Porque a angústia, o horror que o TEPT traz vai interromper o desenvolvimento da personalidade ou se a personalidade já está formada vai desmontá-la.

Patrícia – TEPT convoca para viver o luto. Todos devem prestar mais atenção nesse processo.
Capelatto –
É necessário que a gente faça esse movimento para interromper o transtorno. Se não fizer o trabalho em cima do horror, se não fizer o luto, vamos ter o TEPT, que é para o resto da vida. E às vezes uma conversa, uma audição que se faça com a criança ou com o adulto, nós conservamos a qualidade de vida.

Patrícia – Você falou que não dá para curar. As pessoas vão ficar a vida inteira se tratando. Esse tratamento é terapia?
Capelatto –
Terapia. Às vezes alguma medicação de início. Por exemplo, uma pessoa que foi estuprada, que presenciou um terremoto, um alagamento, uma pessoa que perdeu tudo na enchente, perdeu filho com tiro em assalto, precisa ser medicada e ter um acompanhamento psicoterápico intensivo no começo. Depois pode visitar o terapeuta uma vez por mês, uma vez a cada seis meses, mas nunca se afastar. É um tratamento para o resto da vida. Se interromper o tratamento um evento parecido retoma todos os flashes, a gente chama de revivecências. Volta tudo porque como é um transtorno não se cura. Tanto o cérebro quanto o psiquismo vão retomar aquilo. Por isso que a gente chama de estresse. Mesmo o estressor estando distante, o estresse continua presente. Alguém, por exemplo, que perdeu um ente querido num latrocínio. Essa pessoa vai estar cercada de informações [sobre latrocínio], mesmo que ela não veja televisão, na fila do banco alguém contar um caso sobre latrocínio e vai desencadear na pessoa aquilo que está vivo no horror. Então, essa pessoa precisa correr lá para o terapeuta e contar o que ela escutou, senão a revivecência volta. É como se ela vivesse tudo como momento em que aconteceu.

Patrícia – Pode ser uma pessoa sem ser o terapeuta? Um cuidador, alguém de confiança que pode fazer esse papel em alguns casos?
Capelatto -
Quando no momento do evento a pessoa começar a falar, às vezes um irmão, um pai, a esposa, sim. Quando o TEPT começa um, dois anos depois, tem que ser um profissional.


"Conte Outra Vez"

04 de Novembro de 2011 - 18:41 hscomente esta notícia

 / Ilustração de Eliana Louvison e Cláudio da Costa Ilustração de Eliana Louvison e Cláudio da Costa
Quem tem o hábito de contar histórias para crianças com certeza já ouviu: “Conta outra vez”. Os pequenos costumam pedir para que se repita a mesma história inúmeras vezes. Depois de um tempo partem para outra. Esse pedido tem um porquê. Assim como os personagens mais aterradores e suas atitudes igualmente assustadoras têm uma razão de ser e não devem ser suprimidos. Estes são alguns dos temas abordados no último post da entrevista com a psicanalista Eliana Louvison, sobre seu livro “Conte Outra Vez – Histórias Infantis para Formação de Crianças”.

O livro é resultado de 10 anos de trabalho desenvolvido em dois centros de educação infantil de Londrina – Menino Deus, no Jardim João Turquino e Santo Antônio, no Parque Guanabara. O assunto é muito mais amplo e é abordado de forma intensa no livro, assim, uma dica para aqueles que querem se aprofundar no tema: não deixem de lê-lo. “Conte Outra Vez –Histórias Infantis para Formação de Crianças” pode ser encontrado no Centro de Educação Infantil Santo Antônio, na Avenida Madre Leônia Milito, 499. Fone: 3339 0392

“A repetição é uma das condições da elaboração mental necessária para a construção e internalização de representações psíquicas e sociais. Sem uma rede, tecida a partir de um árduo trabalho de representação, a criança, o jovem e o adulto não darão conta de experimentar as experiências com o vazio e a incerteza que os acompanhará no decorrer de toda a vida” (“CONTE OUTRA VEZ” – Eliana Louvison)

Contar e contar e contar

Sem repetição você cola, copia, reproduz, mas não elabora o próprio pensamento. A repetição é a condição necessária para produzir o próprio pensamento. Claro que não temos apenas essas construções, também colamos, copiamos, repetimos. Mas só falamos um conceito com nossas próprias palavras quando o elaboramos.
No projeto [Conte Outra Vez], para bebês até 2 anos as educadoras repetem a mesma história por três meses. Em casa os pais devem repetir enquanto a criança pedir. E, às vezes, ela pede para repetir um único trecho. E se você mudar esse trecho ela diz: ‘não é assim’. Por isso ler a história é uma boa experiência, porque aí não corre o risco de mudar o seu rumo e também porque quando a criança ouve alguém ler se dá conta de que tem uma equivalência entre a palavra escrita e a falada. Se a criança não ouvir alguém lendo, ela lê mal. Por isso hoje no Brasil os jovens até escrevem, mas têm muita dificuldade em ler. A criança que ouve a história lida, lê com uma fluência maravilhosa.

Histórias não traumatizam

As histórias que ajudam são as menos amputadas. Porque quando reduzem a história retiram o que incomoda, que é exatamente o que deveria ficar. Retiram aquilo que acham que vai traumatizar. Mas é o contrário, o que é retirado é o que vai dar um sentido e um nome para aquilo que existe. Mas a tendência é tirar essas partes. “Vou contar uma história que não tem final feliz?” Mas tem tanta coisa na vida que não tem final feliz.

Tenho esperança que isso ajude também os pais a narrarem a realidade. Nosso mundo é o da notícia em tempo real, da internet, da televisão. Sem mediação essas notícias são traumáticas em qualquer idade, principalmente na forma como são apresentadas: uma tragédia e depois um novo sanduíche do McDonald´s. Se você não perder um tempinho com a elaboração disso, onde você coloca isso? Mas se forem mediadas, se tiver um adulto narrando, não tem problema.

As histórias e o supereu

 / Ilustração de Eliana Louvison e Cláudio da CostaIlustração de Eliana Louvison e Cláudio da Costa

As histórias podem trazer efeito em várias instâncias do nosso aparelho psíquico. Nesse projeto o objetivo era que tivesse efeito principalmente na capacidade de sociabilidade da criança. Aprender o que é bom e ruim, o que é certo e errado, o que é bonito e feio, é muito complicado. Não são valores absolutos. O bom faz o bem, mas pode fazer o mal. Isso requer elaboração para que a criança possa relativizar. Esse relativizar se dá nas relações intersubjetivas, nas quais a criança vai compondo uma teia que vai lhe dar condições de fazer o julgamento de valor, de dizer ‘isso é bom para mim, isso não é’.

Isso é autonomia: eu dar conta de fazer o julgamento e não simplesmente reproduzir um manual sobre certo e errado e correr o risco de me equivocar extremamente. A autonomia de fazer os atributos de julgamento que antecedem as nossas escolhas é um processo complicado que precisa dessa instância chamada supereu. Eu tenho esse conjunto de ideias internalizadas e essas são compartilhadas.

O que regula a todos

Outra coisa que eu observo é que tem uma política da autonomia que está equivocada, que é: a criança pode escolher sempre. E com isso está se retirando a ideia de que tem um universal, de que tem alguma coisa que regula a todos. Isso fragiliza o eu, porque não é imantado em algo. A história de certa forma dá o que regula a todos sem ter que colocar os pais para filosofar sobre ética.

A ideia de que o bem deve vencer o mal parece careta, mas isso ainda é universal, apesar de hoje vermos o mal versus o mal. A trama das novelas, que são assistidas pelas crianças, mostra o mal versus um mal maior. Tem desenhos animados sanguinolentos, por exemplo, mas tudo bem, se for o bem versus o mal. Mesmo que o mal vença. Na vida, às vezes, o mal vence. O problema que a gente tem tomado cuidado para criança antes dos 13 anos é quando é o mal versus o mal, porque se perde o par antitético (bem/mal, bonito/feio, certo/errado) e aí você entra no patamar do poder, da perversão.

O mesmo acontece com a sexualidade. Eu acho uma judiação quando uma adolescente de 12 anos sai expondo o corpo de uma forma maravilhosa e ninguém diz para ela: 'Olha isso vai provocar desejo nos homens e nas mulheres. Você dá conta?'. Isso basta, não precisa reprimir, dizer para trocar de roupa, colocar saia cumprida, cobrir os peitos. Eu não faria isso jamais e nem acho que essa é a indicação. [O que estamos dizendo é que] o corpo ser objeto de desejo é universal. Isso não mudou e a garota precisa saber.


Nem castos, nem dóceis

11 de Outubro de 2011 - 18:04 hscomente esta notícia

 / Ilustração de Eliana Louvison e Cláudio da CostaIlustração de Eliana Louvison e Cláudio da Costa
“Quase todas as histórias falam sobre a sexualidade, essa força que une e desune que faz com que se ame e odeie. A sexualidade e a agressividade são as principais questões humanas que devem ser tratadas desde sempre, desde a mais tenra idade”, afirma a psicanalista Eliana Louvison. Nessa parte da entrevista, a psicanalista aborda um tema delicado. Os adultos são bastante resistentes em falar sobre sexualidade e agressividade com crianças e adolescentes. No entanto, essas são forças que eles experimentam desde pequenos e por meio das histórias infantis clássicas conseguem nomear.

As histórias auxiliam também as educadoras, do projeto “Conte Outra Vez” desenvolvido pela psicanalista durante 10 anos nas creches do Jardim João Turquino e do Parque Guanabara, a entender que alguns comportamentos, embora assustem, a princípio, nada mais são do que expressão dessas forças. Eliana Louvison lançou recentemente o livro “Conte Outra Vez –Histórias Infantis para Formação de Crianças” e em entrevista ao blog fala sobre essa experiência e o papel das histórias no desenvolvimento das crianças.

João e Maria
Perder a ingenuidade sem perder a esperança

A primeira história que escolhemos foi a de “João e Maria”. Olhávamos para aquelas crianças [da creche do Jardim João Turquino] e dizíamos: “São João e Maria”. Elas são deixadas na creche por questão de fome, de privação, de falta de dinheiro. Ninguém as coloca lá porque quer que eduquem seus filhos. Eram crianças que não podiam ficar indefesas, tinham que perder a ingenuidade muito cedo. Elas faziam o percurso de João e Maria. Com 5, 6, 7 anos tinham que andar sozinhas pelo bairro e se livrar de assédios de droga, por exemplo. João e Maria não chamam o Conselho Tutelar e nem vão para terapia depois. Eles se viram.

[Nessa perspectiva] O bullying, por exemplo, é uma coisa interessante de se pensar. Como tem que ser resolvido? Equipando as pessoas para se defenderem. E não acreditando que não vão mais judiar e tirar o sarro umas das outras. É assim a vida. [Os personagens] João e Maria usam da mentira positiva, da astúcia, da dissimulação. Coisas que são tabu, sentimentos vistos como se fossem do mal. E a história “O Escorpião e a Rã”? Curioso, quando a gente colocou essa história falaram: ‘Como contar uma história dessas?’ Mas gente essa é a história deles, convoca a perder a ingenuidade. Diz: cuidado!

Chapeuzinho Vermelho
Reconhecendo a expressão da sexualidade

Penso que as crianças, hoje, estão sendo privadas de informação sobre dois temas complicados: sexualidade e agressividade. Vou fazer uma analogia. Está se apresentando a ideia de que a ação do homem na crosta terrestre é responsável pelos acontecimentos no interior da Terra, como: erupção de vulcões, terremotos. Temos que cuidar da crosta terrestre para que não seja devastada. Mas sob o que acontece no interior, na natureza da Terra, quem somos nós para interferir? O mesmo acontece com coisas do humano. Em seu interior há forças terríveis que ele precisa domar: a sexualidade e a agressividade. Não temos controle sobre essas forças, por mais que você cuide, que viva em uma família harmoniosa. Podemos fazer com que se manifestem da forma mais adequada, para garantir a sociabilidade. Mas não podemos fazer de uma pessoa, um anjo.

Aqui entram novamente as histórias. “Chapeuzinho Vermelho” nada mais é do que uma menina que resiste a reconhecer a sexualidade, que ela vê. Ela vê que não é a vovó. Olhos grandes, boca grande. Não é a vovó. Ela viu que não é uma relação casta. Não é uma figura de amor. É um lobo desejante. E ela se deita com ele, porque não quer ver que não existe apenas relação de amor, de cordialidade. Tem outras coisas regendo as relações humanas.

Não sei por que razão ninguém quer falar disso. É muito curioso. A gente vive num mundo em que muitos preconceitos já foram superados. Mas é impressionante, os pais e educadores não querem dizer: ‘Isso é a expressão da sua sexualidade, da sua raiva’. Como se as crianças fossem sujeitos castos e dóceis. É o mesmo com os jovens. Eles estão transpirando sexualidade e não querem ver. Daí, a chapeuzinho vermelho engravida com 13 anos. Claro que engravida. Ninguém nomeou. Ninguém narrou que o corpo descoberto podia atrair o desejo de um homem. Ninguém diz: ‘Essa roupa vai atrair o desejo de um homem. Fica esperta!’

O que nos cabe é aguentar e nomear

Como tudo isso passa depois por um processo de recalcamento, seria desumano convocar as pessoas a lidarem com essas forças. Olha que interessante: pai e mãe não veem sexualidade de filho. Educador vê. O lugar subjetivo de pai e mãe faz com que eles não vejam filho se masturbando, erotizando as relações. Como nas relações de parentesco a sexualidade deve ser eliminada, recalcada, é bom que não veja mesmo.

Então, não é que a sexualidade esteja mais precoce nas crianças. É que elas estão indo mais cedo para um espaço onde as pessoas podem ver a sexualidade delas. Desde que não seja um comportamento inadequado, que expresse uma dificuldade da criança, as educadoras devem fazer vista grossa. Porque se você faz uma repressão precoce, vai trazer problemas futuros gravíssimos. Então, tem que aguentar [essa expressão da sexualidade da criança, que pode escandalizar, a princípio] e tem que ir apresentando nomeação [por meio das histórias] para a criança dar conta disso que está experimentando.

Por exemplo, os bebês mordem. Mas não é a mordida em si que incomoda. É que as educadoras conseguem perceber que ali tem um prazer, de quem morde e de quem foi mordido. Isso assusta, porque passamos por esse processo e recalcamos e quando isso se apresenta de novo, mexe com esse recalque.

Compreendendo o interior humano

Nesse sentido a formação [por meio do projeto “Conte Outra Vez”] é importante. Apresentamos o interior da Terra. Aí, as educadoras começam a entender que esses comportamentos [em relação à sexualidade e à agressividade] da criança são a erupção de algo, a expressão disso, o desequilíbrio daquilo. Então, vamos ver o que se faz com isso e não ficar com esse ideal de que esse sujeitinho é um anjo ingênuo. As histórias mexem com as educadoras que também vão elaborando suas questões referentes a essas forças internas.


Costurando restos, criando o novo

28 de Setembro de 2011 - 17:07 hscomente esta notícia

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Era uma vez um desejo, muita tenacidade e um dom de transformar restos em novas experiências. Essa história é daquelas difíceis de sairmos iguais após mergulharmos em sua leitura. Ao final da última página ficamos inquietos. Algo fica fora do lugar nos cutucando, nos fazendo pensar por um longo tempo. Claro, se nos entregarmos a ela. E ficamos até um tanto constrangidos em não mergulharmos de ponta diante da entrega da narradora, que se conta com tamanha integridade que nos conduz aos nossos mares internos, nada mansos.

Durante 20 anos, foram muitas as tentativas da psicanalista Eliana Louvison, de levar sua experiência para além do atendimento individual no consultório. Experimentou muitos fracassos. Chegou perto de desistir deste desejo. Mas dona de um dom ímpar – “(...) costurar os restos e transformá-los em algo novo e mais belo do que o que se perdeu.” – fez mais uma tentativa.

Em 2000, apoiada pelas irmãs claretianas Elza e Francisca que acolheram seu desejo, ainda sem nenhuma proposta em mente, criou o projeto Conte Outra Vez, desenvolvido em centros de educação infantil de Londrina – a princípio na creche recém inaugurada, à época, Menino Deus no bairro João Turquino – com o propósito de apresentar as tramas da vida às crianças de até 6 anos, por meio das histórias clássicas da literatura infantil. Ajudá-las a nomear sentimentos e emoções, preservar a imaginação e a criatividade delas, desenvolver valores éticos e sociais.

Este ano, a experiência de 10 anos foi transformada no livro “Conte Outra Vez – Histórias Infantis para Formação de Crianças”, no qual relata a experiência para dar destinação e sustentar seu desejo, o trabalho na formação das educadoras, a importância e o papel das histórias infantis no desenvolvimento de crianças. As ilustrações belíssimas da própria Eliana e de Claudio Francisco da Costa complementam a intensidade e poesia do livro.

Aqui no blog, Eliana Louvison conta um pouco sobre esse trabalho e discute temas densos que nos convocam à reflexão. A entrevista será publicada em três posts.


“Gosto muito de fazer dos restos alguma coisa nova. Daquilo que poderia ser jogado fora pego algumas partes, dou asas à imaginação, aciono meus recursos criativos e monto alguma coisa que novamente passa a fazer parte de minha vida ou daqueles que fazem parte da minha história.” (Eliana Louvison)

Era uma vez...

A questão mais forte que mobilizou meu trabalho foi a angústia da irmã Elza. A creche (Menino Deus) estava inserida em um bairro, o João Turquino, que era o mais violento da cidade e que também tinha as vivências mais comuns. Como estabelecer objetivos educacionais, visando valores cristãos e éticos (afinal a creche ia ser dirigida por uma irmã claretiana) estando inserida nesta realidade? Eu insistia que não podíamos entrar com um discurso moral sobre certo e errado, bonito e feio, honesto e desonesto. Como dizer para essa criança não mentir, se ela precisa da mentira como recurso ético, inclusive? Não a mentira perversa, mas a mentira como recurso de sobrevivência. Se ela for verdadeira, vai ser devorada por essa realidade.

Daí surge a ideia de contar histórias. O “Era uma vez em um reino distante” cria o deslocamento no tempo e no espaço necessário para tratarmos dessa realidade contraditória, paradoxal, trágica, ao mesmo tempo em que abordamos o dia a dia das crianças, sem entrar diretamente na questão. Sem esse deslocamento, a criança angustia demais. São crianças realmente abandonadas. Você vai dizer: ‘Olha, você está abandonada’. Não dá.

A escolha das histórias

As narrativas clássicas, que tratam de questões humanas universais, foram coletadas da tradição oral a partir do que era vivido naquele momento. Então, compiladas elas serviam para transmitir os ideais iluministas. Assim, essas narrativas tratam das angústias que todos têm. É impressionante como ao oferecê-las às crianças, elas começam a contar sobre suas vidas. Antes, não sabiam contar. Com as narrativas, têm acesso a essa realidade e podem falar sobre si.

Por que se narrar?

Saber contar é importante porque somos uma narrativa. Quem somos nós senão uma ficção sobre nós mesmos? Nossa identidade não é algo cristalizado, definido. A gente é o que a gente narra sobre a gente. E a nossa narrativa é composta pela nossa percepção e pela dos outros, que nos rodeiam. Então, se a criança consegue contar o que está vivendo, ela está se constituindo. Tem um exemplo muito interessante. A criança está vivendo uma experiência de medo e, às vezes, não sabe que se chama medo. Você começa a contar histórias, para os pequenininhos, de um ano e pouco, de lobo mau, três porquinhos, bruxa e eles começam a falar que têm medo. As mães e os pais em casa interpretam assim: ‘Começaram a contar história e agora ele tá com medo.’ Não! Não é que agora ele está com medo. Ele já experimentava esse sentimento, só que agora sabe nomear o que está sentindo e consegue comunicar isso ao pai, à mãe. Então, não entra em estado de angústia.

A narrativa tem a capacidade de antecipar uma interpretação mais geral, que a criança usa para dar sentido ao que está vivendo. É bonitinho de ver, as crianças começam a contar coisas de casa. Agora elas sabem contar que o pai está em conflito com a mãe, sabem fazer a leitura. Antes, só testemunhavam um negócio que não sabiam bem o que era.

“Conte Outra Vez tem se revelado uma criação com vida mais longa que as anteriores, na medida em que tenho conseguido manter minha promessa. Meu desejo é o que impera e dá direção.” (Eliana Louvison).

Alguém que conta a história

Mesmo que se use a narrativa de uma história infantil bem elaborada, todo o processo de construção da subjetividade requer mediação. Sujeitos largados na floresta, criados por animais, vivem e crescem. Mas não falam. Porque a mediação é um humano outro que antecipa o sentido. O bebê, por exemplo. A mãe fica chutando (para descobrir o que ele tem): ‘Está com dor, com cólica, está mal humorado.’ Esse blábláblá vai convocando o aparelho psíquico a funcionar. Se não fizermos isso não viramos seres humanos.

Mas como convocar um educador, um pai, uma mãe, a ficar narrando as tramas intrapsíquicas, se isso, geralmente, é feito na base de um recalque? Ninguém vai ficar se narrando para o filho. Ninguém faz isso. Parece que os indígenas fazem, porque têm tempo para ficar contando, contando, contando, narrando o dia inteiro. Nós não fazemos mais isso. Aí entram as histórias nas quais o autor decidiu falar sobre a nossa existência.

Por isso, nós escolhemos as clássicas e as do Rubem Alves que metaforizam as grandes angústias humanas. Tem uma história deste autor, ‘O Medo da Sementinha’, em que a palavra morte não aparece. Mas trata da morte. É impressionante como quando a contamos, a criança começa a perguntar: ‘Meu pai vai morrer? Não sei quem vai morrer?’

“Assim como um bom quadro não precisa de título para afetar nossos sentidos, uma boa música não precisa de tradução para nos fazer rir ou chorar (...), histórias bem contadas e escritas não precisam ser interpretadas. Elas falam por si só.” (Eliana Louvison)

Funções das histórias clássicas

As histórias clássicas têm duas grandes funções. Nomeação: oferecer palavras para que a criança possa dizer de si e do outro. Ensinar a narrar: para que eu possa narrar a meu respeito, mesmo que eu crie as ficções mais doidas, não importa. A preocupação não é se de fato você está falando de si tal como é, porque todas as narrativas que fazemos de nós são provisórias. Quando você gruda numa história e não a revê, você adoece.

Essas narrativas clássicas não descrevem uma realidade. Elas vão mostrando como a coisa vai mudando, vai se transformando. O bom vira mau, o mau vira bom, o que estava por baixo fica por cima. A história dos Três Porquinhos, por exemplo, fala na verdade de um só, que a cada momento age de uma forma. Nós temos os três porquinhos dentro de nós. Uma hora somos o porquinho que está com a casa mais vulnerável, em outra conseguimos agir bem com as intempéries da vida, em outra nos aliamos e fazemos cumplicidade para dar conta de algumas coisas. O mal é relativizado. Tem hora que você tem que ser mauzinho. A história de João e Maria é fantástica. Tem uma hora que a Maria joga a bruxa no forno.


A escutadora de histórias

02 de Setembro de 2011 - 19:33 hscomente esta notícia

Roberto Custódio

Roberto Custódio /
"Talvez fosse interessante perguntar a ela como foi construindo ao longo de sua vida a percepção que tem sobre as pessoas que estavam ao seu redor." Essa colocação da psicanalista Graziela Santi, no último texto do blog, me levou de volta à Cida. Nesse novo encontro me deparei com uma mulher apaixonada por histórias. Ela não é uma contadora delas. É uma escutadora. Encontrei também uma mulher que vive literalmente das mãos. As portas fechadas foram muitas, mas não estancaram Cida. Ela se recusou a se desfazer em lamentações e queixas. A vida insiste e pulsa nessa mulher que aprendeu a tecer saídas com as mãos ágeis e precisas que reformam e consertam - É preciso ganhar o pão – mas que também imprimem autoria. Cida quer mais. Precisa fluir. Criar. A vida a assalta nas horas mortas da noite e rouba-lhe o sono. Lá vai Cida entregar-se a uma nova ideia e transformá-la em marca sua. Cida inventa e se reinventa. Esses parecem ser os alimentos que sustentam a lucidez e clareza dessa mulher, naquilo que tanto me comoveu e encantou: ela sabe escutar o outro. Seja ele criança, adolescente, jovem, velho. Se é humano, Cida escuta. E como nos mostrou a psicanalista Graziela Santi: ”quando nos colocamos interessados na fala do outro, estamos legitimando que aí tem algo interessante que merece ser ouvido. Além de darmos humanidade ao outro, legitimamos que ele tem um saber. Todos nós temos histórias para contar e ao falar podemos nos ouvir. Às vezes podemos nos surpreender com o que falamos. E quando quem nos ouve legitima que há um sentido em nossa fala, podemos mudar um comportamento que se repetia porque ainda não havia sido entendido”. Paro aqui, para que escutem Cida. Afinal,esse é o propósito deste post.

Cida, por ela mesma

Infância

Meus pais trabalhavam na lavoura. A gente se criou em sítio, em várias regiões do Paraná. Eu vim aqui para o União da Vitória (bairro da periferia de Londrina) há 20 anos. Com sete anos eu já cuidava dos meus irmãos, eram oito. Minha mãe ia pra lavoura ajudar meu pai e eu que ficava com eles. Meu pai e minha mãe trabalhavam bastante, mas eram muito presentes. A gente cresceu devendo obediência a eles. Tudo a gente perguntava se podia ou não. E não era não. A gente obedecia. Lembro que tinha 17 anos e já tinha meu filho mais velho, que tem 28 anos, e ainda obedecia meu pai e minha mãe. Foi assim a vida inteira. Meu pai ensinou a gente que não podia nunca contar um segredo e que não devia querer saber de coisas ruins.

Escutadora de histórias

A gente era muito pobre, então na hora do jantar, todos os filhos pegavam seus pratinhos, sentavam no chão e meu pai e minha mãe contavam histórias pra gente. Os vizinhos, amigos adultos, também contavam histórias. Ainda hoje eu adoro ouvir histórias. Só não gosto de histórias de fantasmas (risos). Gosto de romances, de amores desencontrados, daqueles que as pessoas se apaixonam depois se casam com outro e anos mais tarde se reencontram e o amor ainda resiste; gosto também daquelas histórias de milagres, sabe? Aquelas que a pessoa está na beira do abismo e pede com tanta fé que tudo muda. Eu mesma vivi histórias assim. Quando meu filho de 12 anos nasceu, a gente correu muito risco. Fiquei internada na UTI. Mas pedi com fé. Antes de ir pra cirurgia eu falei com Deus. ‘O senhor sabe que eu quero muito esse neném. Se o senhor deixar ele comigo eu vou ficar muito feliz. Mas é o senhor quem sabe.” Deu tudo certo. Eu ainda gosto muito de ouvir histórias de vida. Tenho muitos amigos de 20 e poucos anos e gosto muito de ouví-los contando quando se apaixonam. Eu e meu marido também conversamos muito. Ele me conta as histórias que aconteceram com ele quando era criança, o que ele ouviu, o que ele fez e eu conto as minhas histórias também.

Queria ser escritora

Eu sempre soube que não queria trabalhar pra ninguém. Queria trabalhar pra mim. Eu não sei ler nem escrever. Mas se eu tivesse estudado eu queria ser escritora. Meu marido fala: ‘tá vendo? Quem mandou fugir da escola?’ Mas não foi bem assim que aconteceu [Não há vestígio de queixa ou lamentação na fala de Cida].

Motivo de alegria

Pra falar a verdade é o meu trabalho. Eu fico o dia inteiro aqui. Terça-feira e quinta-feira trabalho com as crianças e adolescentes. Sexta-feira eu trabalho com as senhoras (sempre com oficinas de artesanato). Na segunda-feira e na quarta-feira tenho o grupo de produção para geração de renda (também fazendo trabalhos manuais). Eu levanto todo dia às 5 horas. Vou à academia,depois volto, limpo a casa, lavo a roupa, faço almoço, tomo banho e 9 horas estou aqui no trabalho. Quando comecei a trabalhar com criança aqui, fiquei na dúvida se ia dar certo. Mas fui me encontrando. Se eu pudesse trazia tudo quanto é criança prá cá (Projeto Eurobase). Quando chega uma pedindo vaga e a assistente social fala que não tem, eu fico olhando pra ela assim (sabe?), na esperança que ela fale que pode ficar. Eu às vezes digo: ‘mas não tem jeito de encaixar ele aqui, ele tá querendo tanto vir’. Eu acho que se está querendo vir é porque acha legal e se acha legal é uma forma de a gente tá sabendo mais dessa criança, do que acontece com ela no dia a dia. É uma forma de a gente ganhar mais essa criança.

Sabedoria de Cida

Se eu pudesse me dirigir aos pais, eu me dirigia assim: ‘tem que ouvir o que os filhos querem contar, mesmo que seja algo sem graça, pra ele é muito importante. Aquilo que a criança vem contar é o mundo dela, mesmo que pra gente não tenha importância nenhuma’. Eu vejo pelo meu filho de 6 anos. Ele fez um chapéu na escola ontem e veio me mostrar. Tem pais que falam: ‘sai pra lá com isso’. Eu paro, olho, quero saber como ele fez, ele conta todo importante, todo feliz. Eles ficam muito felizes com a atenção que a gente dá pra eles. Eu dou atenção pra tudo e pra todos. Eu penso assim: ‘tá acima de tudo o respeito do ser humano com o outro. Se você desrespeita o outro, você desrespeita a si próprio, porque é tudo ser humano.’ E pai e mãe tem que ter paciência. Meus pais não tinham não, mas eu queria que tivesse. Fui aprendendo na prática. Eu acho que pai e mãe tem que saber onde o filho está. O que está fazendo. Tem que dizer o que é certo e o que é errado. Tem coisa que todo mundo tem que saber. Não interessa se gosta ou não. Assim é que é. Tem que cumprir algumas regras que são pra todo mundo, não tem jeito. E pai e mãe se não tiver presente não ensina isso.

Roberto Custódio

Roberto Custódio /
Mãos que ganham o pão e criam
Comecei a fazer tapete pra ajudar em casa porque meu marido estava desempregado. Gosto de trabalho manual. Pra você ter uma ideia, eu faço trabalhos manuais aqui (no Eurobase) e em casa, no final de semana, costuro pra fora. Eu faço reformas e consertos de roupas. Tem final de semana que eu tenho 100 a 150 peças pra arrumar. Mas gosto mesmo é de criar. De inventar peças. A ideia de uma peça vem de noite e eu perco o sono, tenho que levantar e ir trabalhar nela. Não sai do jeito que eu quero e eu insisto até ficar como eu quero. Isso me deixa feliz. Pra mim, pra ser feliz não precisa muita coisa, não. O que me tira do sério é faltar coisa para os meus filhos ou não ter como pagar uma conta. Não suporto dever para os outros. Eu também adoro ser independente, ter meu dinheiro. Se tiver como manter minhas contas em dia e conseguir dar o que meus filhos precisam, tá bom demais.


A humanidade de Cida que nos falta

18 de Agosto de 2011 - 14:42 hscomente esta notícia

O que somos se constrói em parte por meio da narrativa, da nossa capacidade de nos contarmos e em parte pela forma como o outro nos conta, nos reconhece. A nossa humanidade se inscreve no olhar do outro e assim nos tornamos o que somos. Existimos no outro, e o outro em nós. Nós que negamos a humanidade ao outro ao reduzir sua existência aos boletins de ocorrências policiais; ao reproduzir fragmentos de uma vida como se fosse toda ela.

Diariamente, jogamos na vala dos espectros, que existem apenas na condição de violência, países, cidades, bairros, pessoas. Fazemos isso, especialmente, por meio da mídia, com seus programas policiais e suas páginas sem espaço e tempo para a vida, apenas para uma ínfima parte dela. Olhamos para esse outro, não como o outro que existe em nós, mas como a parte negada de nós: o feio, o sujo, o transgressor.

E é com certo espanto e um bocado de ceticismo que reagimos diante da revelação de que existe vida – como a vida da gente dita de bem – nos bairros narrados apenas a partir da violência. Pois bem, nesses bairros tem horta comunitária, tem mães que levam os filhos para a escola, tem pais que trabalham, tem adolescentes que ensinam outros adolescentes. Tem adultos preocupados com o futuro das crianças. E tem Cida, 45 anos, que atua em projeto social no bairro onde vive. Não há apenas uma, mas algumas Cidas. Talvez mais reservadas, não se contem como Cida se conta e revela um pouquinho de cada uma delas.

Cida tem outra história para contar. Uma história que não encontramos em qualquer esquina de bairros, cidades, países da gente de bem. Onde o feio não parece tão feio quanto lá, onde vivem os sujos e malvados. Cida olha para crianças e adolescentes do bairro como crianças e adolescentes, e não com o olhar contaminado pela representação midiática que os condena como mazelas sociais e criminosos em potencial.

Essa mulher aprendeu, sabe-se lá onde e como, que criança dita “difícil” tem de ser ouvida, acolhida e não expulsa. Eu já vi escola particular, com seus especialistas, negar ao pai a matrícula do filho com o seguinte argumento: “Seu filho não nos interessa mais.” O comportamento do garoto não era conveniente para a escola. Cida – lá do bairro onde não existem humanos, só protagonistas da violência – recebeu uma menina na sua oficina de artesanato, encaminhada pelo professor de futebol do projeto social onde ela atua. O professor estava longe de querer ver a garota pelas costas.

Queria ajudar. Por isso a encaminhou para Cida e às outras mulheres da oficina. Ele havia esgotado os seus recursos para atendê-la. “Não sei o que fazer. Ela bate, xinga, joga pedra nas outras crianças”, disse o professor à Cida. A garota chegou recusando abraço, beijo e qualquer contato físico. “Fui abraçá-la e ela escapou por debaixo do meu braço”,lembra Cida. “Nós bobeamos e a menina quebrou cadeira e mesa.” E foi nessa parte da história que a humanidade de Cida me encheu de alegria.

“Quando vi isso, falei para as outras mulheres: “Ichi! Essa menina não pode sair daqui, não! Vai saber de quantos lugares ela já foi expulsa. Isso não pode, não. Deixa a pessoa muito pra baixo!” Abençoada Cida. A menina, que fugia de abraço, hoje é uma criança afetuosa. E, assim como ela, muitos foram e são acolhidos. Cida opera os milagres de forma absurdamente óbvia: “Cinco minutos com uma criança, um adolescente e dá para saber o que aconteceu.” Como? “É só ouvir o que eles têm para dizer”, conta. “Eu chego sem xingamento. E eles falam. É que eu quero ouvir.”

Assim, Cida se inscreve no mundo, esbanjando capacidade de escutar o outro, de acolher aqueles que estão mais fragilizados e para os quais as portas se fecham, de não se desorganizar subjetivamente diante das “coisas feias” que fazem crianças e adolescentes. A psicanalista Graziela Rebouças Santi nos ajuda a refletir um pouco sobre como é possível colocarmos para fora a Cida que há em nós.

Em um mundo que, habitualmente, reduz o outro ao que ele apresenta de menos dignificante, quais recursos internos são acionados para que se olhe o outro em sua totalidade. O que Cida tem que parece faltar a tantos de nós?

Na verdade, não tem uma receita para se construir recursos internos. Recursos internos falam de um conjunto de coisas, como capacidade de pensamento, de associação, de observação, que reunimos ao longo da vida e que colocamos em prática diante de situações difíceis. Assim, podemos nos afastar um tanto do que está à nossa volta para agirmos de modo benéfico.

Certamente esses recursos não são genéticos, podemos aprendê-los, por exemplo, se temos algum cuidador que nos ensinou a pensar, a ter bom senso, a nos defender, a usar a agressividade de modo benéfico e não como descarga. Mas existem pessoas que conseguem desenvolver tais recursos por elas mesmas. Pessoas que conseguem ter uma saúde psíquica ao observar o mundo ao seu redor, que sabem expressar seus sentimentos com clareza e pedir o que querem, mesmo estando num contexto muito desfavorável. Não agimos exclusivamente por modelos.

Existem seres humanos saudáveis em todos os contextos possíveis e certamente a Cida é um deles. Ela tem uma capacidade de se doar que parece legítima e se doa na medida certa, sem ficar rendida. Penso que ela se doa, mas depois pode voltar ao seu lugar. Ou seja, se doa, mas não se coloca numa posição onipotente de salvadora do mundo.

Talvez fosse interessante perguntar a ela como foi construindo ao longo de sua vida esta percepção sobre as pessoas que estavam ao seu redor, como foi aprendendo a ler os simbolismos. Cida tem muitos recursos simbólicos, a capacidade de simbolização é muito importante na vida. Começamos a simbolizar quando crianças, usando brinquedos e brincando. Aí começamos a construir esta capacidade que depois vai se aprimorando. O trabalho que ela desenvolve em uma oficina de artesanato pode trazer muitos simbolismos: como vamos tecendo a vida, a espera para que uma peça fique pronta, usarmos uma colagem que nos agrada.

Enfim, é um exercício que nos permite colocar nossas belezas para fora.

Como se constitui o que chamamos de saúde mental e que nos faz capaz de colocar o outro em nossa perspectiva cotidiana?

Freud, em toda sua teoria, que, aliás, foi sendo construída ao longo de suas observações e inquietações, formulou o conceito de saúde mental que manteve permanente até o seu final. Para Freud, saúde mental é poder saber amar e saber trabalhar.

Para isso, só aprendemos fazendo, tentando, construindo. Poder pensar no que gostamos é um bom começo. Penso que Cida faz o que gosta, sabe onde encontrar prazer. Quando realizamos uma atividade e podemos tirar prazer do que fazemos, estamos nos dando o melhor reconhecimento e assim não precisamos que o outro nos avalie e nos descubra, podemos legitimar o que somos e o que sabemos.

Cida não se sente vítima do seu meio, da sua condição financeira, isto fala de uma posição subjetiva, o modo como nos relacionamos na vida com os outros e com os objetos que estão ao nosso redor. Parece que ela se pergunta o que pode fazer e assim não permite ficar submetida ao outro. É uma pessoa inquieta no melhor sentido da palavra.

Cida parece conseguir olhar para as crianças e adolescentes e não reduzi-los às “coisas feias” que fazem. Isso falta em muitos lugares, inclusive em várias escolas, no ambiente familiar. Por que é tão importante suportar essas “coisas feias”?

Certamente não costumamos nos ocupar com o que nos traz mais trabalho. A criança ou o adolescente dito ‘difícil” é aquele que nos dá trabalho, ou seja, aquele que precisa que um outro decodifique suas ações, leia seu comportamento, porque ele mesmo não está conseguindo se entender.

Ninguém que de fato queira sair de casa o faz com barulho, gritando ou batendo porta. Quando age assim está pedindo para ser cuidado, para que o segurem em casa. Precisa ter certeza de que vão tolerá-lo mesmo ele mostrando suas coisas feias. As coisas feias que estão dentro dele. Cida pode olhar para estas coisas feias do outro sem se chocar.

Talvez, por sua história de vida, tenha adquirido a percepção de que quem faz muito barulho anunciando-se assim é porque está pedindo para ficar. A expulsão pode ocasionar que a repetição se propague na vida dessa criança até que ela encontre alguém que finalmente possa fazê-la parar. Às vezes, ela encontra na polícia, na lei essa contenção e aí provavelmente já estará no caminho de uma delinquência.

Quem vai sendo expulso com frequência, se não tiver ajuda ou algum recurso interno para poder perceber o que está fazendo, vai somente jogando para fora sua raiva, seu ódio e não poderá também suportar o mínimo de frustração.

Ao querer saber sobre o outro, Cida permite que ele se narre, se conte. O que é preciso em nós para a escuta e qual o efeito sobre o outro?

Talvez Cida se coloque a escutar a fala de muitas crianças e adolescentes estando numa posição de mãe, ou seja, usando seus recursos maternos de acolhimento, afeto, de libidinização, de investimento. Escuta de verdade quando se sabe quem se é e o que se é e sabe o que pode oferecer ao outro. Como eu disse, ela não parece se colocar como uma mãe onipotente, mas como uma mãe tranquila, que quer saber sobre o outro, sem lhe dar receitas ou sem invadir sua privacidade.

Quando nos colocamos interessados na fala do outro, estamos legitimando que aí tem algo interessante que merece ser ouvido. Além de darmos humanidade ao outro,legitimamos que ele tem um saber. Todos nós temos histórias para contar e ao falar podemos nos ouvir. Às vezes podemos nos surpreender com o que sai da nossa boca. E quando quem nos ouve legitima que há um sentido em nossa fala, podemos mudar um comportamento que se repetia porque ainda não havia sido entendido ou, ainda, pensarmos que de fato temos que nos cuidar. Se for o caso, pensar: “Puxa, é sério o que acontece comigo.”


A intensa simplicidade das histórias de Angela 3

18 de Julho de 2011 - 19:01 hscomente esta notícia

Gilberto Abelha

Gilberto Abelha / "É preciso lidar com o medo"
Mãe nova, uma amiga muito atenta aos cuidados com as duas filhas titubeou diante de “João e Maria”. Apresentar às meninas o abandono e, ainda mais, por parte dos próprios pais, lhe pareceu demais. Vida afora não faltariam oportunidades para que as crianças se deparassem com a crueza cotidiana. A tentação de poupar nossas crias é uma armadilha que nos espreita, mesmo quando estamos cheios de vontade de acertar. Nesse sentido, a fala de Angela Lago sobre o terror da infância com seus fantasmas, capetas, bruxas, esqueletos, é um presente para minha amiga, em especial, e para todos nós.

Com este post finalizo a entrevista com essa escritora e ilustradora infanto-juvenil. Há 24 anos, Angela Lago presenteia os leitores com um dom: traduzir em traços e palavras a intensidade da alma humana. Segue provocando estranhamentos e levando a descobertas que ajudam crianças e adolescentes – posso ouvir a Sueli (Bortolin) dizendo ’e adultos também!’ – a saberem um pouco de si; a mergulhar em seu interior e emergir de volta com uma peça a mais de seu quebra cabeça. Ela já expôs seus trabalhos em muitos países e é autora publicada em vários outros, inclusive na China. Foram muitos prêmios na Eslováquia, Japão, Brasil, Espanha, França. “Mas meu melhor prêmio é quando uma criança me fala alguma coisa simpática.”

Angela esteve em Londrina, participando do projeto Autores & Ideias, do Sesc. Na ocasião, concedeu entrevista para o Inventar a Vida e para a Patrícia Zanin, da Rádio UEL. Angela falou sobre sua busca pela simplicidade. Sobre como ser simples é belo e difícil. Falou sobre beleza, sobre humanidade, sobre seu processo de criação, sua relação com as crianças e os medos e angústias da infância. Também participaram da entrevista, Sueli Bortolin, professora da UEL e fã apaixonada da escritora, e o diretor da biblioteca pública de Londrina, Rovilson da Silva. No blog a entrevista foi postada em três partes.

Sueli – E a palavra? "Um ano novo danado de bom", "ABC do Doido". O que vem antes: a palavra escrita, a imagem ou depende?

Tem uns livros em que claramente as palavras vieram antes. O livro “Sete histórias para sacudir o esqueleto” são contos de assombração recolhidos da tradição oral. Então, é claro que o texto já estava formulado. Em alguns livros o texto é mais importante do que a imagem. Em outros, não. Eu tentei, mas não consegui pôr palavras no “Cântico dos Cânticos”. Tentei, inutilmente, escolher pequenos trechos do "Cântico dos Cânticos" e não dei conta. Desenhei só.

Sueli - Tem toda uma força do seu traço desenho, mas tem também a força do seu traço letra.

Eu acho que tem sim. E eu acho que na palavra está muito clara essa minha direção para a simplicidade, eu consigo uma fala coloquial, com muita contenção, que faz a leitura ser muito ágil e ao mesmo tempo bem aberta. É o que eu quero. Eu trabalho o texto para conseguir isso. Mas eu sou mais ilustradora, meu coração é de ilustradora. Eu escrevo para poder ilustrar. O que gosto de fazer, o que faço desde a hora em que acordo até a hora em que deito, tirando alguns raros momentos para fazer outros movimentos com as mãos, é desenho. Eu desenho o dia inteiro e escrevo eventualmente.

Rovilson – Você toca em uma temática que em geral a gente percebe que muitos autores infantis fogem: a morte, o capeta.

Eu acho que a infância é um terror de alguma forma. É a impotência diante de um mundo que você ainda não consegue dominar. Você ainda não aprendeu as regras. E é claro que a pergunta da morte para uma criança, talvez seja muito mais dolorosa do que para nós adultos, que já temos os nossos cacoetes para lidar com os temas da angústia. Durante a infância, o medo dos fantasmas, do capeta, também é violento. Toda criança passa por uma fase de medo, de angústia na qual ela faz alguns sintomas, como não querer dormir sozinha, ou no escuro. É preciso falar dessa angústia de uma maneira que a desmistifique. O mistério provoca muita angústia. Se você conta a história de um velho e suas trapaças para não morrer, mas no final ele se resolve com a morte, ou se você conta histórias de fantasmas que são desmistificados – meus fantasmas sofrem muito, eles são uns pobres coitados – você não deixa muito lugar para o mistério. O leitor acaba fazendo acordos com os medos que tem. Precisamos nos treinar no enfrentamento diário dos nossos medos. O livro dá um bom treino. Porque a criança pode fechar a página se não estiver suportando. E é preciso aprender a ter medo, porque nós queremos ser corajosos. Corajosa não é a pessoa intrépida, destemida, é aquela que tem temor, mas consegue de alguma forma lidar com esse medo. É isso que nós queremos ensinar para a criança. Jamais queremos uma criança destemida, que negue a morte, que negue a violência. Nós queremos uma criança que saiba lidar com os temas mais pungentes da vida.

Patrícia – Você já recebeu muitos prêmios, mas um grande prêmio que você gosta de receber é quando uma criança te fala alguma coisa que te afeta. Você tem tido esse contato permanente com os pequenos leitores?

Sim, com algumas crianças que eu amo e acompanho. Muitas vezes elas vão à minha casa, veem o que eu estou fazendo, discutem comigo, me dão opinião, desenham sobre os meus desenhos no computador.

Patrícia – Quem são essas crianças?

O filho do meu professor de violoncelo, o neto de uma vizinha, crianças que se aproximaram e que ficaram amigas. E que vão à minha casa como amigas, desenhar, ver meu trabalho. Em geral tem uma, duas crianças em cada época, elas se vão, aparecem novas.

Patrícia - É uma cultura que você tem?

Sempre tive crianças com quem eu tinha uma relação de proximidade muito grande, para quem eu contei contos de fadas, ou minhas próprias histórias; com quem eu colecionei desenhos. Tenho uma grande coleção de desenhos de crianças que eu adoro.

RECADO DA ANGELA LAGO

Tenho no meu site (http://www.angela-lago.com.br/ABCD.html)um abcdário completamente gratuito para crianças que estão começando a aprender o alfabeto e quero que seja usado. O livro “De Morte” já está publicado em e-book, o que o torna mais acessível, tem um preço melhor e é mais viável para cidades que não têm livrarias.



A intensa simplicidade das histórias de Angela 2

04 de Julho de 2011 - 12:51 hscomente esta notícia

Gilberto Abelha

Gilberto Abelha / "A beleza muitas vezes está na transgressão"
“Desde menina costumo declamar poemas nas horas de aflição. Deus, que vive em toda parte, lá no fundo de mim, escuta. E me dá de imediato o conforto da beleza.” Simplicidade e beleza são irmãs na vida e na arte de Angela Lago, que nos conta aqui um pouco do seu percurso para alcançar essa condição. Tarefa árdua, como ela já disse. “Não é simples, ser simples”. Ser simples e intenso como uma rosa pequenina pega no meio do caminho. “Ninguém conheceria esta rosa pequenina/Talvez uma peregrina/Não fosse eu apanhá-la no caminho/Para te oferecer.” Na tradução livre dos poemas de Emily Dickinson, em o “Livro de Horas”, o qual ilustrou como se fossem iluminuras, Angela revela a dimensão do sagrado para ela e nos conta sobre comungar com a beleza.

Ela já expôs seus trabalhos em muitos países e é autora publicada em vários, inclusive na China. Foram muitos prêmios na Eslováquia, Japão, Brasil, Espanha, França. “Mas meu melhor prêmio é quando uma criança me fala alguma coisa simpática.” Angela esteve em Londrina participando do projeto Autores & Ideias, do Sesc. Na ocasião, concedeu entrevista para o Inventar a Vida e para a Patrícia Zanin, da Rádio UEL. Ela falou sobre sua busca pela simplicidade. Sobre como ser simples é belo e difícil. Falou sobre beleza, humanidade, seu processo de criação, sua relação com as crianças. Também participaram da entrevista, Sueli Bortolin, professora da UEL e fã apaixonada da escritora, e o diretor da biblioteca pública de Londrina, Rovilson da Silva. No blog, a entrevista será postada em três partes.

Erika – Se a simplicidade está associada à contenção, ao essencial para contar uma história, provocar estranhamento e levar à descoberta, podemos dizer que os excessos escondem um vazio do que dizer?

Vocês lembram que na literatura infantil passava um ratinho em todas as páginas que não tinha nada a ver com a história? Talvez isso seja excessivo, decorativo. Agora, até a decoração pode ser usada para falar de uma coisa essencial. Tem um livro meu, que se chama Livro de Horas. São traduções de poemas de Emily Dickinson, coloquei um para cada hora [do dia] e há um excesso. Ele é trabalhado como se fosse um livro medieval, como se fossem iluminuras. Há um excesso de bordaduras ao redor da página, mas esse excesso é para falar: "Olha, esse livro é um livro de oração”. Poema é feito para rezar, esse livro é um livro do tempo em que o livro era sagrado, então eu retomo a Idade Média e faço esse livro desenhado à mão, bordado à mão para falar: "Olha, esse livro para mim é sagrado. Esses poemas para mim são sagrados; essa poetisa [Emily Dickinson] chegou ao máximo de humanidade possível. Então, nesse sentido é sagrado, no sentido de comungar com a beleza”.

Rovilson – A ilustração não pode estar dissociada, mesmo, da formação dessa nova linguagem que é texto...

É texto, ilustração e fisicalidade do livro. Porque num livro, é significativo o movimento de passar uma página. Um livro para criança tem que coincidir com a pausa e o gancho da história. Essa virada de página é muito importante. Por exemplo, no livro Cena de Rua, como não uso texto, marco essa passagem de página usando na composição, muito claramente, a dobra para movimentar joelho e perna [do personagem]; para, de alguma forma, aprofundar mais o menino entre os dois carros. Um livro nunca é visto como um quadro, porque um quadro tem quatro margens, o livro tem oito. A dobra no meio das oito margens pode ajudar a composição do meu livro a trazer mais emoção.

Patrícia – Como você tem essa dimensão antes de o livro estar pronto?

Ah, pois é. É bordado o livro. Então, você começa a fazer seus desenhos, você dobra o papel, corta o livro no formato, você faz experiências o tempo todo. Você está experimentando o livro enquanto objeto. Um ilustrador precisa saber que a dobra e a virada da página transformam esse objeto num objeto único e precioso, sem igual; uma mídia que não vai acontecer de novo. São particularidades do livro, mesmo. Desenhar é muito mais importante para mim do que o estilo que eu variei ao longo da minha vida sempre que me deu vontade. Foi muito mais importante construir esse objeto enquanto objeto, construir essa virada de página, construir essa história de maneira que ela, dentro do livro, ganhe novo significado, ganhe expressividade.

 / O O "Livro de Horas" de Angela Lago
Erika – Você também fala que a simplicidade é o que mais se aproxima da beleza na vida...

É verdade. Acho que a coisa mais bonita são olhos claros, um sorriso aberto. É isso que gente simples tem. Eu queria muito ter isso. É difícil, porque, às vezes, a timidez e o embaraço nos transformam em pessoas que não conseguem ter a simplicidade, né? É preciso um bem-estar para ser simples.

Erika – Em outra frase, você diz, se referindo aos adolescentes, que “gostaria de passar o conhecimento de que a beleza é um conforto, um refrigério”. Por quê? Está associado ao fato de vivermos em um mundo de excessos, de associar a beleza sempre à aparência?

A beleza vai tão mais longe, né? Ela nem sempre vai pelos caminhos do comum, do que a cultura manda. A beleza, tantas vezes, está na transgressão, na aceitação de si mesmo, na capacidade de mostrar sua humanidade, sua potência enquanto ser humano, sua capacidade de se relacionar com o mundo em profundidade. A beleza está na sua maneira de olhar, não está de maneira nenhuma na sofisticação oferecida por um mercado. E, confundir a beleza com essa coisa tão superficial, tão barata, é pedir pouco.



A intensa simplicidade das histórias de Angela

19 de Junho de 2011 - 19:40 hscomente esta notícia

Gilberto Abelha

Gilberto Abelha / "Não é simples ser simples"
Meus filhos cresceram ouvindo as histórias de Angela Lago. Eu a conheci antes mesmo de ser mãe. Foi na livraria Maluquinha, da Sueli Bortolin, que li um livro seu pela primeira vez: “De Morte”. Adorei. Anos mais tarde, eu a apresentei ao Lucas e ao Francisco por meio do velho que enganava a morte, até que, tendo considerado que o tempo vivido já lhe bastava, decide deixar-se levar. “De Morte” é um livro que até hoje os garotos – um tanto rapazes, já – têm bem vivo na memória. Contei a eles que iria entrevistar a autora e perguntei se lembravam da história. Claro que sim! Ainda riram do velho enganador. O livro está lá na estante, bem gasto, um tanto sujinho, a capa presa com durex de tanto que fora folheada.

O “ABC Doido” foi fiel companheiro de ambos durante o período de alfabetização e mesmo depois de as letras já não oferecerem mais tanto mistério. “Sua Alteza a Divinha” é outro livro de Angela Lago que tem um lugar especial entre as leituras de infância dos dois. As adivinhações propostas pela princesa aos pretendentes a sua mão, divertiram muito os meninos. Isso para falar apenas de algumas histórias desta escritora, pois são muitas que povoaram a infância dos meus filhos.

Há 24 anos, Angela Lago presenteia os leitores com um dom: traduzir em traços e palavras a intensidade da alma humana. Segue provocando estranhamentos e levando a descobertas que ajudam crianças e adolescentes – posso ouvir a Sueli (Bortolin) dizendo 'e adultos também!' – a saberem um pouco de si; a mergulhar em seu interior e emergir de volta com uma peça a mais de seu quebra cabeça. Ela já expôs seus trabalhos em muitos países e é autora publicada em vários, inclusive na China. Foram muitos prêmios na Eslováquia, Japão, Brasil, Espanha, França. “Mas meu melhor prêmio é quando uma criança me fala alguma coisa simpática.”

Angela esteve em Londrina participando do projeto Autores & Ideias, do Sesc. Na ocasião, concedeu entrevista para o Inventar a Vida e para a Patrícia Zanin, da Rádio UEL. Ela falou sobre sua busca pela simplicidade. Sobre como ser simples é belo e difícil. Falou sobre beleza, humanidade, seu processo de criação, sua relação com as crianças. Também participaram da entrevista, Sueli Bortolin, professora da UEL e fã apaixonada da escritora, e o diretor da biblioteca pública de Londrina, Rovilson da Silva. No blog, a entrevista será postada em três partes.

Patrícia – Gostaríamos que você falasse um pouco sobre a ideia da simplicidade. Tem uma frase sua muito bonita em entrevista para a Cosac Naify em que você fala: “Gostaria de ser simples em tudo. Simplicidade é a coisa mais bonita do mundo.” Como essa simplicidade afeta também as crianças?

É bonita e difícil a simplicidade. Temos que buscar a simplicidade o tempo todo. Ela é necessária quando a gente quer falar com a criança. É preciso que a linguagem seja coloquial, que a maneira de contar a história seja simples. Ser simples não é simples. É difícil. E estamos aí nesta peleja até hoje, tentando encontrar uma maneira de ser simples em tudo – na vida, na escritura, no desenho. Talvez um exemplo a ser buscado seja o das crianças, mesmo. Porque a espontaneidade tem alguma coisa de simplicidade, não é verdade? A criança é tão espontânea, tem um traço tão liberado, uma capacidade de montar metáforas novas em linguagem tão à tona, que talvez ela seja um mestre para nós aí na simplicidade, também.

Erika – Como você definiria essa simplicidade no seu trabalho?

Na contenção, na economia da linguagem. Tem um conto chinês muito bonito, que o Ítalo Calvino conta nas propostas para o novo milênio. Um desenhista pediu 10 anos para desenhar um caranguejo. Passados esses 10 anos, ele pediu mais 10, depois mais 10. Depois de passado esse tempo enorme, em um único traço, desenhou o caranguejo mais rapidamente, mais simples, mais bonito que já haviam desenhado. É isso a simplicidade. É esse trabalho de polimento diário até conseguir, com um único traço, desenhar um caranguejo; trazer à tona uma expressão, uma história. Contenção é um exercício diário. O que eu posso falar com menos palavras, mais forte ficará. A fala poética tem que ser condensada para ser expressiva, para provocar estranhamento e, portanto, levar a descobertas. Ela tem que ser também de alguma forma aberta a leituras diferentes e essa simplicidade pule tanto que transforma uma pedra em cristal. Então, é possível ler o texto de maneiras diferentes, justamente porque ele atingiu essa qualidade de prisma, de cristal, e não de pedra bruta. Seria por aí.

Rovilson – Você busca também essa contenção no traço do desenho? Embora haja essa simplicidade, quando vemos suas ilustrações é como se nós não déssemos conta de ver tudo numa passada de olhos.

Eu, às vezes, faço desenhos que, aparentemente, lembram os de criança, são singelos. Mas, a simplicidade não é isso. Essa é uma forma de expressão possível, mas eu posso ser simples também quando desenho com muitos detalhes, querendo provocar alguma alucinação, querendo fazer com que tenham estranhamento diante do livro. [Ela pega livros dela e vai dando exemplos]. Aqui, são sapatos de campo de concentração, embora numa primeira leitura possam parecer peixes. Às vezes, sou um pouco barroca, o que seria o contrário da simplicidade. E esse olhar que se perde, porque é deslumbrado, é muito próprio do barroco. O barroco quer isso. Te deixa um pouco tonto, para mostrar seu poder sobre você. O meu barroco não é esse. Eu quero mostrar que eu me alucino diante da história e não só alucinar o leitor, mas dizer da minha própria alucinação diante do tema de Psique [um de seus livros]. [Dizer] que eu também estou entre dragões, que eu também reconstruo meu tempo dentro do tempo de Psique; dentro do tempo do mito. Então, se eu for falar da simplicidade [no livro Psique], talvez ela esteja em certa limpeza do livro como um todo. Da primeira à última página, busco ser coerente, não há nada que seja desnecessário. Eu uso o branco da página. As imagens todas fazem algum sentido, mesmo que aparentemente barrocas, elas contam uma história. Talvez aí eu possa falar de simplicidade, no traço não. Ele é elaborado, ele é lento.


Patrícia – É no conjunto, então?

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É no conjunto. O fato de Psique passar por todas as imagens como uma sombra e só se revelar no final. Só quando ela fez toda sua trajetória é que ela consegue a forma humana. No mito, ela consegue a forma de deusa. Mas para nós é essa humanidade que nós estamos buscando. Essa humanidade maior que só uma pessoa depois de uma longa travessia pode conseguir.

Patrícia – Como você sai de um processo de criação? Esse processo de alucinar-se para alucinar o leitor. Como é para você, quando termina uma obra, Angela?

Há sempre uma sensação de insatisfação muito grande quando a gente termina um projeto. A gente termina quase que por cansaço, ou porque tem que entregar, ou porque vê que já se esgotou. Aquilo naquele momento é seu limite. A gente se conforta na ideia de que vai haver um próximo livro no qual vai se exercitar e, talvez, conseguir ir um pouco mais longe. Agora, para mim também é bom variar, sair de um livro aonde eu me deixei levar muito profundamente e ir para um livro mais alegre, mais de brincadeira. [Também é bom para mim] ter outras atividades. Eu mantenho meu site, estudo violoncelo, faço jardinagem. Então, essas outras atividades são terapêuticas, também. Fazer um livro também é terapêutico, eu acho; em última análise a gente está sempre se colocando e se liberando de fantasmas.


“Criança, a Alma do Negócio”

10 de Junho de 2011 - 17:57 hscomente esta notícia

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O consumo e a publicidade na infância foram discutidos pelo projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, entre os meses de março e maio, em vários eventos, nos quais foi apresentado o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, dirigido por Estela Renner. Laís Fontanelle, psicóloga e coordenadora de educação e pesquisa do projeto, conversou com este blog sobre o assunto.

Ela abordou as consequências do atravessamento das mídias nas relações intersubjetivas da criança e do adolescente: desde a erotização precoce até a obesidade; passando por uma inversão de valores, especialmente, a confusão entre ser e ter. O ser querido, amado, digno de afeto e reconhecimento do outro, parece estar inexoravelmente associado aos produtos que se tem. Laís propõe uma reflexão de pais, educadores, do Estado sobre seus papéis na formação dessas crianças e adolescentes.

Alguns dados disponibilizados pelo Instituto Alana nos colocam a dimensão do problema: 30 segundos é o tempo suficiente para uma marca influenciar uma criança; até os 10-12 anos, a criança não tem capacidade crítica para compreender o caráter persuasivo das mensagens publicitárias; até os 4 anos, a criança não distingue a publicidade do programa. Leia abaixo a entrevista com Laís Fontanelle.

Assista ao documentário

A cultura do consumo propagada pela publicidade está alterando as relações intersubjetivas da criança e do adolescente?

Hoje não podemos mais negar que as mídias são um vetor de construção de subjetividade, identidade e valores na vida de crianças e adolescentes. Temos dados de que a criança brasileira está entre as que mais assistem TV no mundo. Ela passa mais tempo em frente da tela do que se relacionando com outra criança ou na escola. Então, temos de fato outra pedagogia instalada que não é mais a família, a escola, a Igreja, mas as informações vindas pelas mídias. E aí, temos um problema, porque dentro das mídias temos a publicidade, que é uma comunicação de mercado falando com as crianças e fomentando essa cultura de consumo no momento em que elas ainda não estão preparadas para lidar com essas mensagens.

Por que elas não estão preparadas?

Porque até os 12 anos, a criança não tem a capacidade de abstração crítica formada. Se nós pensarmos que nós, adultos, recebemos esses apelos de consumo e já nos inebriamos e consumimos sem reflexão, imagina o efeito para a criança, que não tem esse filtro. Então, ela é mais vulnerável nessa relação. A publicidade tem um enorme poder de fomentar o desejo na criança. Temos toda uma nova configuração familiar, perdas de espaços públicos, crianças confinadas em espaços privados se relacionando sozinhas com as mídias, mas, ainda assim, segundo pesquisas, a publicidade é o principal fator de influência na compra de produto infantil. Então, a gente não pode negar o impacto que ela tem, por isso que o Criança e Consumo atua em duas frentes: regulação da publicidade dirigida à criança, para que os excessos sejam coibidos e na frente da educação, conscientizando pais e professores para que tragam esse tema para pauta na sua relação com a criança.

Como você disse, as relações intersubjetivas da criança estão sendo atravessadas o tempo todo pela mídia. Quais as consequências?

São muitas. Se a gente pensar que esse atravessamento está ajudando a formar valores e identidades, a gente tem aí um problema que é: "Quais são esses valores que estamos passando para nossas crianças"? Estamos formando crianças mais consumistas, materialistas e menos humanas. De início já temos esse problema. Aí temos outros, como a questão da sustentabilidade. As crianças estão em fase de formação de hábitos, aprendendo a consumir sem reflexão e isso tem um impacto sobre o planeta. Podem comprar tudo a qualquer hora porque é isso que está sendo vendido, só que os recursos são finitos.

Outro impacto é o relacionado à violência, pois a maioria das crianças não tem poder aquisitivo para comprar e cresce desejando isso. Temos dados da Fundação Casa de que muitos crimes e delitos são, muitas vezes, relacionados à busca pelos produtos anunciados. A erotização precoce é outro efeito das mídias sobre as crianças, além de gravidez na adolescência e prostituição infantil. Os últimos dados da pesquisa da WCF apontam que as meninas brasileiras se deixam explorar sexualmente não só por fome, como a gente acreditava, mas pela busca de produtos caros.

Temos ainda a diminuição da brincadeira criativa, que parece um impacto menor frente a esses outros, mas não é, porque a criança se relaciona, aprende, amadurece pela brincadeira. Ela precisa brincar. Além disso, a gente tem uma questão seríssima de saúde pública que é a obesidade infantil. Hoje, 30% da população infantil brasileira tem sobrepeso e 15% é obesa. Isso já foi provado e há uma movimentação mundial sobre o impacto da publicidade na alimentação não saudável dirigida à criança.

Podemos falar em empobrecimento da relação intersubjetiva. E essas são algumas das consequências desse empobrecimento?

Mais ou menos. Porque por um lado, se temos o empobrecimento da relação intersubjetiva, a gente tem a tecnologia e as mídias proporcionando muita coisa bacana. Talvez nunca os adolescentes tenham escrito tanto, como nos blogs. É uma nova forma de relação. Não sei se é mais empobrecida. Acho forte a gente dizer isso. Estamos falando do problema de como a comunicação de mercado faz com que as relações, talvez, sejam esvaziadas. Às vezes as crianças crescem achando que se tiverem determinados produtos vão ser mais aceitas, queridas. Então, como eu falei, os valores estão sendo distorcidos, mas elas se relacionam, talvez como nunca antes.

Temos, então, a transformação destas relações?

Eu diria que há outras formas de se relacionar. São formas contemporâneas que têm todo um aparato tecnológico, que proporcionam essa nova forma de relação. A gente não pode negar que existe uma relação sendo estabelecida entre crianças e adolescentes. Se eles têm seiscentos amigos no facebook, a amizade não é igual como era a da pracinha antigamente, mas não podemos fazer uma apologia romantizada do retorno dessa época. Estão [as crianças e adolescentes] se relacionando e a gente tem que olhar para isso e entender que tipo de relação está sendo estabelecida. Eles continuam tendo o primeiro amor. Antes a menina escrevia em diário, hoje ela tem um blog. Não sei se os conflitos, as angústias, os medos são diferentes de outros tempos. Acho que a forma com que a gente se expressa é muito diferente, porque temos outro suporte. A criança hoje já nasce inserida nesta lógica.

A criança está percebendo o adulto de outra forma?

Sem dúvida. O que a publicidade faz? Traz a criança para outro patamar ao olhá-la como consumidora, como mini adulto. O universo adulto foi aproximado do infantil. Porque, se nas relações de consumo eu olho uma criança da mesma forma como olho um adulto, eu os coloco de igual para igual. Isso é ruim porque a criança não está pronta. Ela pode ser muito esperta e entender os aparatos tecnológicos da linguagem virtual melhor do que um adulto, mas não tem a capacidade crítica formada. A criança precisa do auxílio de um adulto para lidar com o mundo, pois não tem autonomia moral ainda. E isso é uma via de mão dupla, se o adulto colocou a criança no mesmo patamar que ele, a criança também passou a vê-lo de igual para igual e a desejar as mesmas coisas que ele.

Isso talvez enfraqueça a relação de autoridade do adulto com a criança?

Sem dúvida. Porque você tem uma publicidade dizendo: "Pede para o seu pai", "Faz desse jeito para conseguir o que você quer". A criança detém um poder que ela não tinha antigamente, até pelo domínio da tecnologia, como eu falei. Os pais acham as crianças muito sabidas porque sabem lidar com um DVD e esquecem que elas não têm a compreensão total das mensagens.

As transformações que ocorreram desde a criação do conceito de infância até o século XXI encurtaram esse período da vida?

A infância está sendo encurtada e transformada. O conceito de infância foi criado quando surge a prensa tipográfica, porque tem algo que vai dividir o mundo adulto do mundo infantil: o mundo letrado. Para a criança saber os segredos, as histórias do mundo adulto, ela teria que aprender a ler e a escrever. Com o advento das mídias eletrônicas isso cai por terra, porque basta a criança ligar um botão para acessar uma informação. Os dois mundos são aproximados.

Quais os cuidados, na sua avaliação, que devem ser tomados com essa aproximação entre os universos adulto e infantil?

O Estado tem que regulamentar a publicidade, os pais têm que dialogar, dar exemplos, se colocar como autoridade de novo. Os educadores têm que trabalhar o tema do consumo em sala de aula, o tempo da criança em frente da televisão deve ser reduzido para no máximo duas horas por dia. Além disso, dependendo da idade, deve haver um adulto com ela, um adulto que funcione como filtro da mensagem que está sendo dirigida à criança.


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