Quinta-feira, 23 de maio de 2013
- Londrina:Com o Perdão da Palavra
E mais não digo porque não seiO telefone toca às seis da manhã. “Serviço despertador chamando no horário programado”, diz a voz feminina da gravação. Quando eu morava na República da Humaitá, diante da pracinha com os ipês amarelos em flor, a voz da moça não era uma gravação. Era a voz de uma pessoa real, uma funcionária da companhia telefônica cujo trabalho consistia em despertar os adormecidos da cidade. Por onde andará essa moça que nunca vi, só ouvi?
Acordo para escrever esta crônica na manhã fria de domingo, enquanto o Sol nasce e ilumina vagarosamente os altos edifícios da noite. Os pássaros acordam antes das pessoas; os poucos automóveis que percorrem a cidade são remanescentes da madrugada. Certa vez, um amigo encontrou Noel Rosa no botequim pela manhã. “Já, Noel?”, admirou-se o amigo. “Já, não: ainda”, respondeu o compositor boêmio.
Daqui a pouco os sinos da igreja vão tocar, chamando os fiéis para a missa das oito horas. O som dos sinos é gravado, mas eu gosto de ouvi-los mesmo assim. Exatamente às oito horas meu pai costumava telefonar para saber se tudo ia bem. Por vezes falava sobre os livros que estávamos lendo e a última coluna de Paulo Francis.
Então eu percebo que todas essas imagens da memória – a telefonista, os sinos da igreja, Noel Rosa, Paulo Francis, os pássaros, os ipês amarelos, os altos edifícios da noite, as conversas com meu pai – são apenas e um só assunto: a vida. Ou melhor: a vida eterna.
Ao criar o mundo, Deus foi deixando esses vestígios de um lugar em que o tempo não existe. Lá fora, as nuvens iluminadas pelo Sol compõem aquilo que Homero chamou de “os dedos róseos da aurora”. A tradição diz Homero era um poeta cego. Como terá pensado nessa imagem tão precisa, se não podia ver? Talvez ele fosse igual a Tirésias, o profeta mal-humorado que meu amigo Dílson Catarino definiu astutamente como “o ceguinho que via tudo”.
As coisas mais importantes são invisíveis. Por isso, quando vocês me acharem distraído na rua, no trabalho, em casa, saibam que estou pensando no mesmo assunto. A vida eterna. Daqui a pouco, os sinos vão tocar. Já? Não, ainda.
Bom dia, meu amigo, quero sempre estar no ainda. Uma boa semana e um ainda muito feliz. Chico Limoli