Domingo, 19 de maio de 2013
- Londrina:Com o Perdão da Palavra
E mais não digo porque não sei
Confesso que sou um leitor obsessivo de placas, cartazes, avisos, letreiros e rabiscos de rua.
Na semana passada fui tirar o visto americano, em São Paulo, e ao sair da primeira entrevista eis que senti a natureza – implacável, como sempre – a me chamar. O Eles (também conhecido como 100hores) mais próximo era o de um estacionamento que “presta serviços” para solicitantes de vistos. Oferece xerox, cópias impressas, fotografias de última hora, guarda-volumes e banheiro. Tudo pago, é claro.
Adentro a toalete masculina, não sem antes desembolsar dô real para o tiozinho dono da casinha, quando percebo que o referido WC só possui mictório. Felizmente, era apenas a situação número um; caso contrário, eu me veria em séria sinuca. O aviso grudado na parede é de uma singeleza digna de Flannery O’Connor ou Emily Dickinson:
SE C... NO MICTÓRIO VAI LIMPAR
Estive sempre atento aos avisos e realejos de banheiro – “Não urine no chão”, “Acerte o alvo”, “Lá fora você é macho mas aqui você geme” –, mas confesso que nunca tinha visto uma frase tão perfeita e sutil em minhas andanças pelas casinhas deste mundão afora. Imagine o desespero do cliente que venha a ter uma necessidade número dois!
Antes de entregar, segurando o riso, as chaves do WC ao tiozinho (provavelmente o autor do decassílabo), pensei ainda que faltava uma vírgula na frase.
Às senhoras e senhoritas, queridas leitoras deste conceituado jornal, peço desculpas pelo uso da expressão chula (o verbo C..., da primeira conjugação), mas fatos são fatos – e a prática do jornalismo depende deles.
Em outra oportunidade falarei sobre o gênio do marketing que batizou seu veículo de transporte coletivo como "Van-Bora". Também mencionarei o cartaz afixado no para-brisa de um Monza na Rua Maranhão: “Ano 1983 – 1.6 ¬álcool – Completo – Segundo dono – Não vendo!”
E eu só não compro porque não sei dirigir.

O que somos diante de um gênio como Pascal? Nada, positivamente nada. Mas a todos nós, em algum momento da vida, também é dado viver a epifania.
Pascal converteu-se na noite de uma segunda-feira, 23 de novembro de 1654. Os cavalos desprenderam-se da carruagem que levava o pensador. Durante duas horas e meia, ele teve uma visão do Cristo. Escreveu em um pergaminho: “Fogo. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos e dos sábios. (...) Convicção, sentimento, alegria, paz. Deus de Jesus Cristo. Esqueça-se do mundo, exceto Deus”.
Quando Pascal morreu, aos 39 anos, um criado encontrou o pergaminho da epifania costurado na roupa do filósofo.
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Por volta das cinco da tarde, brincávamos eu e minha irmã Fernanda em um dos gramados da Praça Charles Miller, em frente do Pacaembu, em São Paulo. Eu tinha uns 8 anos; ela, 3. Nas manhãs de sábado, havia uma feira livre na praça. Jogávamos futebol com uma bola de vôlei (guardei esse detalhe, talvez para indicar que várias vezes eu trocaria os pés pelas mãos durante a vida).
De repente, vi na grama algumas espinhas e cabeças de peixe, provavelmente deixadas ali pelos feirantes, como alimento para os gatos que vivem na praça. Eu disse: “Nunuca (era o antigo apelido de minha irmã), vamos brincar ali do outro lado”.
Passaram-se talvez cinco minutos. Chutei a bola de vôlei para o meio da praça – sempre fui muito grosso no futebol – e um Fusca veio capotando no gramado. O carro parou exatamente no lugar onde estávamos minutos antes. O motorista sofreu apenas escoriações.
Um dia descobri que os peixes são o símbolo do cristianismo.
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A família Domingues viajou para Portugal. Eram cinco irmãos, duas irmãs e Mário, o pai. Na “Terrinha” também estavam os genros, noras e netos do patriarca. Só faltava dona Ermelinda, a mãe, falecida alguns anos antes.
Em Lisboa, foram ao restaurante João do Grão. Rubens, filho de seu Mário, pediu ao garçom – um brasileiro – o melhor vinho da casa.
Era um momento de alegria – mas, de repente, Rubens notou que sua irmã mais velha chorava. Ele se levantou, foi até o lugar da irmã, do outro lado da mesa, e perguntou o motivo das lágrimas. Então ela lhe mostrou o rótulo com o nome do vinho: Dona Ermelinda.
Depois dos 40 anos, minha vista vai ficando fraca. De perto, ainda enxergo bem. De longe, tenho dificuldade para ler mensagens e reconhecer pessoas. Com o tempo, noto que diminui meu campo de visão. Não sei se um dia serei totalmente envolvido pelas sombras, como Borges; mas o fato é que tendo a ver com clareza apenas aquilo que está dentro de mim – apenas o imaginável.
Alguns tendem a considerar tolo (e até repugnante) esse solipsismo de um caipira conservador. Mas eu gosto da ideia de conservar aquilo que amo; porque só assim posso ver a minha mãe. Sinto falta até da menina dos seus olhos.
Um menino fixa o olhar sem receio. Vem a idade e nos ensina que não é aconselhável encarar a mesma pessoa por muito tempo. Desse modo, aprendemos a desviar os olhos, mas uma parte de nossa visão continua sob a influência da personalidade infantil. Uma parte de mim continua olhando para minha mãe e lembra os versos de Herberto Helder: “A bicicleta pela lua dentro – mãe, mãe – ouvi dizer toda neve”.
Os olhos fixam o limite entre o corpo e a alma: eles são o encontro visível de nossa dualidade. Agora mesmo estou vendo minha mãe entrar no apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Ela vem com pressa, porque precisa me levar ao pediatra. Estou com dor de garganta, mas tenho medo de tomar injeção. Mãe, pede pro doutor Sérgio não me dar Benzetacil.
Minha mãe chora na rodoviária assim que eu entro no ônibus para vir estudar em Londrina. Meu pai está ao lado dela, fuma em silêncio, tem os olhos ainda mais verdes do que sempre teve. Em seguida, ela está de novo em São Paulo, nos anos 70, dando aulas de história em escolas públicas: Casa Verde, Bairro do Limão, Vila Maria. Agora eu a vejo no quarto 502 do Hospital do Câncer de Londrina: reza a Ave-Maria de olhos fechados.
Alguém disse que não precisamos chegar à igreja ou ao quarto para fazer nossas preces; devemos rezar no caminho, para não deixar Deus esperando. Rezo enquanto ando para não deixar Deus esperando – e para não deixar minha mãe triste. Já não tenho menina dos olhos; descobri que os meus olhos têm mãe.

Quase todos os adolescentes brasileiros são invisíveis; resta saber de que maneira eles tentam superar essa invisibilidade. Não tenho dúvida de que a maioria absoluta procura tornar-se visível utilizando os métodos consagrados: estudo e trabalho. A fé – mesmo tão perseguida nos dias de hoje – também desempenha um papel importante na luta para ganhar a vida.
Existe, porém, a minoria que tenta deixar de ser invisível recorrendo ao crime. Dizer que esses jovens em conflito com a lei não fizeram, em algum instante de suas vidas, uma opção consciente pelo mal seria cometer uma terrível injustiça com a maioria de jovens pobres que se recusam a entrar no mundo da criminalidade. As pessoas comuns ainda dizem “não” ao crime. Preferem ser invisíveis a ser marginais.
Alcides do Nascimento Lins era filho de uma ex-catadora de lixo. Foi aprovado em 2007 no curso de Biomedicina da Universidade Federal de Pernambuco. Seu nome apareceu na mídia nacional como exemplo de jovem que soube vencer na vida, apesar de todas as dificuldades impostas pelo meio. Esse rapaz estudioso e sorridente deixou de ser invisível por seus méritos.
No dia 5 de fevereiro de 2010, dois bandidos – um deles menor de idade – abordaram Alcides em sua casa, no bairro da Torre, em Recife. Queriam executar outra pessoa, mas assim mesmo decidiram matar o universitário. Alcides morreu inocente aos 22 anos.
Um dos assassinos de Alcides foi condenado a 25 anos de prisão; o outro, a três anos de medida socioeducativa. O nome do então adolescente é D. F. do Nascimento. Durante o período de reclusão socioeducativa, D. foi acusado de torturar um companheiro de cela. Não sei onde está agora; mas sei que Alcides não está mais entre nós.
Penso nesses dois jovens: Alcides e D. Quis o destino que ambos compartilhassem o sobrenome: Nascimento. Alcides optou pelo bem; D. optou pelo mal. Alcides queria se formar; D. queria matar. Alcides sorria; D. ameaçava. Alcides ajudava a mãe; D. ajudava o comparsa. Alcides estudava Biomedicina; D. amparou-se no ECA. A sociedade errou com D.? É possível. Mas errou muito mais com Alcides.
Sim, a educação, o trabalho e a fé são os melhores caminhos para um jovem superar a fronteira de invisibilidade que o separa do mundo. Sim, a vitória final será do amor, da sabedoria e de Deus. Mas de que lado estaremos quando isso acontecer? Apesar de tudo, continuo achando que o ser humano existe para ser Alcides, e não para ser D. Ao contrário do que pensava certo filósofo alemão, somos criados para o nascimento, não para a morte.

Impossível não se maravilhar diante do espetáculo proporcionado por um grande empreendimento humano. O capitalismo tem uma beleza que só foge aos olhos dos que não querem ver – aqueles tristes olhos recobertos pelas escamas ideológicas. A despeito do veneno marxista inoculado através dos bancos universitários, a economia de mercado continua capaz de produzir valor, beleza e vida.
A propósito de um novo empreendimento em nossa cidade, reavivou-se a discussão sobre as origens do nome Londrina. Uns dizem que Londrina é Pequena Londres; outros, que é Filha de Londres. Se procurarmos as raízes históricas do termo, veremos que a segunda hipótese é a verdadeira. Ao receber o título de cidadão honorário de Londrina, em 1967, João Sampaio, diretor da Companhia de Terras do Norte do Paraná, afirmou literalmente: “Propus que essa cidade recebesse o nome de Londrina – como as filhas de Londres – em reconhecimento a homenagem ao valoroso grupo de ingleses que financiavam, corajosamente, as realizações da Cia. de Terras”. A versão de João Sampaio é confirmada pela maioria dos historiadores e pioneiros que tive a oportunidade de ouvir.
Filha de Londres é um termo mais adequado porque os filhos não seguem necessariamente o caminho de seus pais, embora possa tomá-los como modelos na formação do caráter. Dizer Pequena Londres pode dar a entender que pretendemos ser uma Londres em miniatura – o que nunca foi o caso...
Mas isso não quer dizer que a outra hipótese mereça ser proibida ou estigmatizada. Não custa lembrar que, no português, a palavra “pequena” pode ter uma conotação carinhosa, e não pejorativa. Acredito que seja esse o caso da maioria dos que preferem usar a expressão. Londrina seria, portanto, a nossa querida e pequena Londres, onde o Relojão não briga com o Big Ben.
Filha de Londres ou Pequena Londres, o fato é que a nossa cidade nasceu por uma iniciativa empresarial – e continua viva até hoje graças ao espírito pioneiro e empreendedor daqueles que ousam enfrentar a VICA (vaidade, inveja, ciúme e a arrogância) dos militantes do contra.

Quando eu era menino, nunca entendi por que as pessoas não trabalhavam no Dia do Trabalho. Na época eu não poderia imaginar que um dia seríamos governados por aqueles que Roberto Campos definiu como trabalhadores que não trabalham, estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam. Hoje eu acrescentaria mais alguns grupos a essa lista hegemônica: jornalistas que não informam, juristas que defendem a impunidade, assistentes sociais que só ajudam a si mesmos, professores que ensinam o errado e padres que não têm fé.
Pois hoje é Dia de Trabalho e eu quero homenagear uma verdadeira trabalhadora. Seu nome é Cinthya Magaly Moutinho de Souza. Moradora de São Bernardo do Campo, formada em Odontologia pela Universidade Metodista, ela sustentava os pais e a irmã deficiente mental com seu trabalho numa clínica em que todos os pacientes eram pobres. Foi assassinada durante um assalto. Os bandidos, entre eles um jovem prestes a completar 18 anos, assassinaram a dentista jogando álcool em seu corpo e ateando fogo na pobre mulher, após descobrir que ela só possuía R$ 30 em sua conta bancária. Cinthya morreu queimada viva, aos 47 anos.
Quem não se comover e não se revoltar com um crime dessa natureza está muito perto de cometer o que o próprio Filho do Homem chamava de pecado contra o Espírito Santo – o único que não merece perdão. A dentista Cinthya foi vítima de um holocausto, no sentido original da palavra. Acreditar que um efeito hediondo desse tipo possa ser justificado por causas sociais – quando sabemos que um dos assaltantes fugiu no carro da mãe, um Audi – é flertar com o mal absoluto.
Volto a dizer: Cinthya era uma trabalhadora. A exemplo de todos nós, ela era obrigada a sustentar um sócio não-solicitado, também conhecido como Estado. Trabalhava cinco meses por ano para pagar impostos. É particularmente cruel que tenha sido assassinada ao fim desse período de escravidão fiscal a que estamos todos submetidos. Talvez por isso tivesse apenas R$ 30 na conta corrente.
Entre os 50 mil assassinados que o Brasil produz todos anos – bem mais do que a Guerra do Iraque –, muitos são trabalhadores tão honestos e íntegros como a dentista de São Bernardo do Campo. Se deixarmos que essas mortes sejam em vão, estaremos caminhando a passos largos para a servidão voluntária e o suicídio coletivo. O holocausto estará apenas começando.

Depois da última sessão de quimioterapia, Rafael decidiu fazer uma limpeza nas gavetas. Achou contas de luz, recortes de jornal, fotografias de infância, cartões de visita, cadernos escolares, um livro de física e – surpresa – um crucifixo de madeira e bronze.
Por alguns minutos permaneceu com o objeto nas mãos, sem saber o que pensar. Lembrou-se de uma conversa que teve com Lúcia no dia em que estudavam para a prova de física. “Deus não existe, Lúcia. A ideia de um ser onipotente carece de fundamento racional ou científico. Esta fórmula que acabamos de estudar representa a verdade. Já o seu Cristo é um produto da imaginação.”
Lúcia apenas sorriu e disse: “Até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. Em seguida, como se não tivesse dito a frase anterior, mencionou outra fórmula do ponto que estudavam.
Os cabelos de Rafael voltariam a crescer, garantira o médico. Agora, com o crucifixo nas mãos, Rafael pensava nas palavras de Cristo no Calvário: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes?” Uma antiga tradição diz que o monte Calvário é o crânio de Adão. Na tela do computador desligado, Rafael viu os reflexos de sua cabeça.
Na pior fase do tratamento, Rafael recebeu a visita de Lúcia. Ela sorria, mas não mencionou suas antigas conversas sobre fé. Falaram dos tempos do colégio. Deram muitas risadas; Rafael se viu livre das náuseas por uma hora. Quando a amiga já se despedia, Rafael disse em voz baixa: “Às vezes eu penso, Lúcia, que o câncer é o destino de toda matéria”.
“Que é a verdade?”, perguntara Pilatos. Em outro momento, Jesus dissera: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Rafael pensou que o mundo se encaminha em outro sentido: cada vez mais os homens e mulheres veneram a mentira e a servidão. Basta ligar a tevê. Bandidos queimam viva uma dentista; a petrolífera à beira da falência anuncia grandes lucros; a Justiça Eleitoral celebra a liberdade do voto obrigatório; ativistas seminuas pregam a paz e tolerância hostilizando um padre indefeso; a feiura, a vadiagem e o vício fazem marchas de vaidade e autoglorificação. Conhecereis a mentira e ela vos escravizará, responderia o Adversário.
Depois de limpar as gavetas, Rafael decidiu sair um pouco de casa. O médico lhe contara sobre um paciente que gostava de caminhar assim que deixava as sessões de quimioterapia.
Era uma tarde de sol; Rafael passou em frente à igreja do bairro e notou que a porta estava aberta. Entrou, aproximou-se do altar e, sem pensar no que fazia, ajoelhou-se. Lúcia pousou a mão direita sobre o ombro do amigo e disse: “A casa é sua”.

Este cronista vem hoje cumprir o doloroso dever de informar que o orelhão morreu. Não estou dizendo de ouvir falar; fui testemunha. Caminhando pelo Calçadão de Londrina, encontrei a vítima sem sentidos. Tentei a respiração boca a boca – sem resultado. O aparelho já não falava, já não ouvia, já não tocava. Havia ultrapassado a linha que separa vida e morte. Silencioso e inanimado, o pobre orelhão jazia a céu aberto, vítima da estupidez humana.
Que sonhos sonhará o orelhão que já não vive? Freud afirmava que os sonhos expressam desejos reprimidos. No caso do orelhão, impulsos reprimidos. Talvez ele sonhe com ligações que não pôde fazer ao longo de sua biografia metálica; talvez ele descanse em um eterno sinal de ocupado; talvez ele converse com a voz da moça que repete: “Diga o seu número e a cidade de onde está falando”. Talvez. Era uma vez.
Os primeiros cristãos chamavam-se uns aos outros de “viventes”. Para designar o falecido orelhão da esquina, usarei um neologismo: ele é um desvivente. Ao ver o seu fone pendurado no ar, lembrei-me dos “inimigos do povo” que o regime iraniano às vezes enforca em praça pública. Horrível imagem, que logo substituí pelo premiado comercial da Telesp em 1981 sobre a morte dos orelhões por obra de vândalos. “Todos os dias, 20 orelhões morrem na nossa cidade. Nenhum deles por morte natural.”
Sou do tempo em que as fichas caíam e ninguém tinha celular. Não consigo entender o que se passa na cabeça de um ser vivente momentos antes de vandalizar um telefone público. Deve ser uma onda de ódio e ressentimento capaz de queimar a raiz de alma! Há uma linha que conduz do vândalo de orelhões à moça que mostra os peitos e agride o bispo; e dessa moça ao terrorista de Boston; e do terrorista de Boston ao homem-bomba; e do homem-bomba ao guarda do campo de concentração nazista ou comunista.
No fundo, o orelhão é nosso irmão. O tempo e os inimigos desejam que fiquemos incomunicáveis, numa eterna linha ocupada...
Em desagravo ao escritor e jornalista Marcio Renato dos Santos, que tem sido alvo das “vítimas profissionais”, republico aqui minha crônica de 21.01.2013.
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Dia desses presenciei uma cena lamentável, para dizer o mínimo. Um ciclista foi fechado pela condutora de um automóvel e ficou bravo. Começou a xingá-la. Mas não era um xingamento automático, desses que são comuns no calor do trânsito. O homem perseguiu a motorista, que trafegava em baixa velocidade, gritando várias vezes a pior ofensa que se pode fazer a uma mulher. Não vi a suposta barbeiragem da motorista, mas tenho certeza de que as ofensas do sujeito foram desproporcionais em relação ao erro cometido pela mulher.
Aquele ciclista é um personagem cada vez mais comum em nosso tempo: a vítima profissional. O sujeito que não apenas quer reparar a injustiça que sofreu (ou supõe ter sofrido), mas deseja vingar-se exemplarmente de quem considera culpado.
A vítima profissional adora computador. É o valentão de internet: aquele cara que adora fazer ofensas e xingamentos virtuais e, diante da reação dos ofendidos, sai gritando só com maiúsculas: “FASCISTA!” Quando tem um comentário apagado, berra: “CENSURA!” Permite-se cometer todos os tipos de agressão e calúnia. Mas, quando ouve uma resposta franca, faz beicinho de mimimi e reclama que está sendo perseguido. Às vezes, pede – exige! – uma polpuda indenização.
Um dos grandes males provocados pelos caçadores de bodes expiatórios é o abandono das verdadeiras vítimas. O transtorno causado pelo ciclista boca-suja pode levar à falsa conclusão de que todos os ciclistas são iguais a ele. É o mesmo mal que um traficante de drogas com “sensibilidade social” causa à imagem dos moradores de uma favela; é o mesmo prejuízo que um comentarista chapa-branca e venal causa ao trabalho dos repórteres independentes e sérios.
Em quase todos os casos, a vítima profissional adota o ideário “politicamente correto”. Esse termo é uma contradição em si mesmo, pois a política, no sentido mais elevado, pressupõe a coexistência de opiniões, pensamentos e visões de mundo diferentes. Se apenas um ideário é considerado correto, não há política – há ditadura de opinião. O professor Carlos Ramalhete, meu brilhante colega de coluna, sabe muito bem o que é isso. Já foi bombardeado maciçamente por não compartilhar a opinião “correta”.
O pior é que as vítimas profissionais chegaram ao poder – e não pretendem deixá-lo. O que são as trajetórias de Lula, José Dirceu e José Genoíno – só para ficar em três exemplos mais evidentes – senão um longo e constantemente realimentado processo de autovitimização? O mensalão é apenas um exemplo do que podem fazer as vítimas profissionais quando dominam o aparelho do Estado. Tornam-se bem mais perigosas que o ciclista boca-suja.

Não há saudade, há saudades. Nascemos com elas. A nossa própria língua nasceu da lamentação. Em 1108, o rei Afonso VI disse, após perder um filho na batalha de Uclés: “Ay meu fillo! Ay meu fillo, alegria do meu coraçon e lume dos meus ollos, solaz de mea velhice! Cavaleiros u me lo leixastes? Dade-me meu fillo, Condes!” A dor de um pai que acaba de perder o filho e já começa a sentir saudades: assim estava nascendo o português, ainda na sua feição galega. Depois, o trovadorismo se incumbiria de consolidar a língua, ao mesmo tempo em que exprimia o sentimento da falta amorosa.
Sim, nascemos sentindo saudades. Logo depois do parto, o bebê nota que está separado da mãe e chora. Crianças menores caem nos prantos se a mãe sai do quarto por alguns segundos. Pequenas saudades marcam toda a história da infância, quando os filhos percebem que os pais saíram para trabalhar ou nos primeiros dias de escola. Certa vez, com 6 anos, eu me perdi de minha mãe numa loja de departamentos, em São Paulo. Foram cinco minutos sem ela. Tenho saudades daquela saudade.
Aos poucos, as saudades crescem em força e extensão. Algumas pessoas e lugares ficam mais e mais distantes. Casas, escolas, parques, jardins, igrejas – saudades. Colegas de classe, amiguinhos de brincadeira, namoradas platônicas – saudades. O avô, a tia, o amigo, o irmão, o pai, a mãe – saudades. O caminho de volta fica difícil; e um dia, quando menos esperamos, torna-se impossível. Saudades tendem a ser eternas.
De início, o espírito da saudade faz parte de nós. Mas a grande saudade – aquela que não tem volta – realiza silenciosamente o seu trabalho de conquista, até que nos transformamos no próprio sentimento de ausência. Não sentimos mais saudades; somos a saudade.
Saudades de pessoas que não conheci, de livros que não li, de lugares que não visitei. De uma canção ingênua há muito tempo esquecida, mas que tocou agora no rádio. Da cena boa de um filme ruim. Saudades dos Antônios que nunca encontrei – meu bisavô português, meu avô espanhol – e que carrego na carne do meu nome. Saudades de cura possível e impossível: posso pegar um avião para São Paulo e conversar com meu amigo Zé, mas não posso fazer o mesmo com João Paulo II...
A saudade nos mostra que este mundo não é a nossa pátria. Vivemos no exílio, em navegação. Portanto, se comecei com o lamento do rei galego, termino com o lamento de Camões, rei da nossa língua: “Não é, logo, a saudade / das terras onde nasceu / a carne, mas é do Céu, / daquela santa Cidade, / donde esta alma descendeu”.