Com o Perdão da Palavra

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Com o Perdão da Palavra

E mais não digo porque não sei

Quem faz o blog

Dr. Hosken

14 de Maio de 2012 - 11:01 hscomente esta notícia

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Em 1995, encontrei José Hosken de Novaes no enterro de um pioneiro londrinense. O veterano político sorriu, apertou-me a mão, apresentou-se (imagine: apresentou-se!). Repórter iniciante, metido a revolucionário bolchevique, fiz-lhe apenas uma pergunta protocolar sobre a pessoa que morrera. Naquele dia, perdi uma preciosa oportunidade: ali estava a chance de conversar longamente com um político de raríssimo valor. Mais tarde, quando compreendi a grandeza humilde do ex-prefeito e ex-governador, ele já estava com sérios problemas de saúde.

Dr. Hosken morreu em janeiro de 2006. Um ano depois, mais uma vez como repórter, estive no seu gabinete de trabalho, que também era uma biblioteca de 12 mil volumes. Vi a mesa, a cadeira, a máquina de escrever; vi principalmente os livros. Hosken tinha uma especial admiração pela “Divina Comédia”, da qual possuía versões em diversos idiomas. Por um momento, achei que o dr. Hosken entraria pela porta para conversarmos um pouco.

No país em que os políticos costumam ficar milionários depois de algum tempo no poder, o patrimônio de Hosken eram aqueles livros e a sua dignidade pessoal. Depois de ser prefeito de Londrina e governador do Paraná, voltou a trabalhar como advogado em Londrina. Quantos políticos atuais podem dizer que fizeram algo parecido?

O JL de domingo trouxe uma retrospectiva dos escândalos políticos que abalaram Londrina nos últimos 13 anos. Ao recapitular a nossa coleção de vergonhas, eu me senti tão nublado quanto a manhã deste domingo.

Como uma cidade que já teve José Hosken de Novaes na Prefeitura pôde chegar a tal nível de degradação no setor público? Até quando seremos espectadores desse espetáculo tragicômico, dessa orgia populista, dessa fábula sem moral?

Muitas vezes eu sinto vontade de voltar no tempo e entrevistar com o dr. Hosken. Naquela manhã, em 1995, o céu estava nublado. O ex-prefeito respondeu à única pergunta do foca e despediu-se com a habitual simpatia. Talvez ele quisesse falar mais, não sei... Mas agora nós mesmos é que precisamos encontrar as respostas. Que o exemplo do dr. Hosken nos oriente e ilumine.


Presente para o Dia das Mães

11 de Maio de 2012 - 09:22 hscomente esta notícia

Peço desculpas à dona do restaurante vegetariano por ter almoçado e saído sem pagar, percebendo o erro apenas quando cheguei ao meu local de trabalho. Pelo menos o esquecimento teve um resultado positivo: foi um pretexto para voltar ao restaurante um dia depois.

À minha mulher, peço desculpas por às vezes ficar com aquela cara de quem está em outra sintonia no meio de uma conversa importante.

Ao meu filho, peço desculpas por não brincar direito com ele à noite, quando volto do trabalho.

Por falar em trabalho, peço desculpas aos meus colegas pelas eventuais distrações ou alheamentos durante a semana. Espero que não se repitam.

Se não atendi a uma chamada de celular, se não respondi a um e-mail, se não observei um compromisso na agenda – rogo perdão.

Aos meus sete leitores, que eu vivo encontrando na rua, peço desculpas por não lhes dar toda a atenção que merecem e limitar-me a rápidos cumprimentos.

Ao meu cãozinho Cisco, peço desculpas por estar sendo um dono meio relapso, que se entrega a pensamentos quando deveria estar mais focado no passeio.

Aos motoristas de Londrina, peço desculpas por ser um pedestre que vive no mundo da Lua. E agradeço por não me atropelarem.

Já pedi desculpas a Deus por não me concentrar o suficiente nas orações noturnas. Mas volto aqui ao reconhecimento da falta: preciso me confessar logo.

A todos peço perdão por algum silêncio, por alguma falta, por alguma casmurrice. Por um sorriso a menos, por uma demora a mais.

É que eu estava pensando em que presente darei à minha mãe neste domingo.

Não sei se Aracy gostaria de ganhar uma roupa, um perfume, um enfeite, uma bolsa. Talvez ela quisesse um par de sapatos (de preferência, com a mesma cor). Um livro de Evelyn Waugh em que o protagonista se converte ao cristianismo? Pode ser. Nesses casos eu costumava ligar para ela e tentar extrair alguma informação, alguma pista. O número de telefone fixo não existe mais, e o celular dela eu carrego dentro de minha pasta. Silenciosos – eu e o celular. Porque este será o primeiro Dia das Mães que eu passarei sem Aracy.


Benzetacil, o bicho-papão

07 de Maio de 2012 - 09:28 hscomente esta notícia

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Na minha infância, o verdadeiro nome do bicho-papão era Benzetacil. Desconheço injeção mais doída. Até os 10 anos, vivi tendo crises de amigdalite. Pela expressão facial do dr. Sérgio, já dava para notar quando ele iria receitar a maldita. Certa semana, tomei Benzetacil todas as noites. Cheguei a pensar que a dor das amígdalas infeccionadas era menor que o martírio daquelas agulhas, mas eu era muito pequeno para formular objeções dessa natureza; apenas chorava.

A farmácia ficava na Alameda Ribeiro da Silva, quase esquina com a Alameda Barão de Limeira. A palavra “alameda” vem de “álamo” e significa “rua rodeada de árvores”. Pode ser que a Ribeiro da Silva e a Barão de Limeira antigamente tenham sido ruas arborizadas, mas nos anos 70 já eram ruas típicas do centro de São Paulo, sem verde à vista. E nesse lugar cinzento havia uma farmácia, e nessa farmácia eu tomava Benzetacil.

Pelo Google Earth, vejo que a farmácia da Ribeiro da Silva ainda existe. Hoje em dia as farmácias vendem até chocolate, sorvete, chiclete e batata frita. Mas aquela farmácia, não. Era um lugar em que se vendia remédio e se aplicava Benzetacil. Não consigo lembrar o rosto do farmacêutico japonês que fazia a aplicação, mas ainda hoje sinto a frieza do balcão, das prateleiras, das paredes brancas. À esquerda, como uma sentinela de cabeça redonda, havia uma balança mecânica em que meu pai costumava se pesar.

Depois que voltávamos da farmácia, Aracy enrolava um lenço embebido em álcool no meu pescoço. Antes de dormir, ela me contava histórias da Roma antiga. Lembro-me claramente de sua voz falando sobre os longos cabelos das mulheres de Cartago, cortados e cedidos ao exército para fazer cordas. Cartago foi totalmente destruída depois da terceira Guerra Púnica, e minha mãe não omitia esse detalhe. Na poltrona, meu pai lia “Trópico de Capricórnio”, essa linha imaginária que passa por Londrina.

Tudo isso me veio à memória neste final de semana, quando tive dor de garganta e a Rosângela amarrou um lençol embebido em álcool no meu pescoço.


Ladrões de picolé

04 de Maio de 2012 - 09:51 hscomente esta notícia


Quando éramos moleques, a turma da rua acrescentou um hábito condenável ao futebol e ao videogame Atari de todos os dias: roubar sorvete na mercearia. Enquanto dois meninos distraíam o dono da venda, um terceiro elemento furtava picolés de limão. Jamais consegui participar da brincadeira. E não por razões morais: é que na hora do furto eu suava e ficava mais vermelho que um sinal de trânsito.

A mania de roubar sorvetes de limão durou poucas semanas, pois logo a turma se desinteressou das atividades ilícitas. Hoje são todos bons pais de família; nem se lembram do curto período em que foram ladrões de picolé.

Não fui agraciado com o dom da malandragem. Nunca precisei usar aquele antigo bordão: “Fica vermelha, cara sem-vergonha!” Deve ser por isso que não consigo achar graça nenhuma nos escândalos políticos – tanto estes aqui da aldeia quanto os lá da Corte. Não festejei as recentes prisões dos acusados de corrupção, apenas fiquei constrangido. Sou incapaz de me alegrar com a prisão de alguém. Rezo pelos que estão presos – até porque eles podem ser inocentes. Para mim, o mensalon e o mensalão são motivos de vergonha, não de júbilo. (Mensalon é um termo criado pelo meu amigo e grande cartunista José Pires, o Jota.)

“É sempre noite, senão a gente não precisaria de luz”, disse o músico Thelonius Monk. A frase foi usada como epígrafe do novo romance de Thomas Pynchon. Monk era um grande músico, mas não acredito que as trevas venham antes da luz. No mundo material, pode até ser; mas em termos espirituais a luz precede a escuridão. Eis a nossa esperança.

Porém, no mundo político, esse mundo de um materialismo atroz, a frase de Monk está correta: as trevas venceram a luz. Se metade das denúncias veiculadas pela imprensa corresponder à verdade, o crime não é mais uma ocorrência eventual; tornou-se o próprio método de governo. Pelo que vimos até agora, a diferença entre o mensalon e o mensalão seria apenas de escala: no mensalon, o dinheiro cabe em pacotes. Eu só espero que não venham me investigar pelos furtos de picolé de limão que não cometi em 1982.


Cidade sem fim

30 de Abril de 2012 - 12:02 hscomente esta notícia

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Quando eu era menino e morava na Alameda Barão de Limeira, tinha a mania de procurar o fim de São Paulo. Nunca o achei. Certa vez adquiri um guia com o mapa da cidade (na época não existia GPS nem Google Earth). Manuseei o guia até que as páginas ficassem com orelhas, mas não obtive sucesso.

Em 1988, já mais crescido, comecei a fazer o curso de filosofia na USP (sem ter entendido uma só linha dos filósofos que li), andei em círculos pela cidade e voltei ao mesmo lugar. Concluí que São Paulo era cíclica. Por preguiça e medo, não concluí o curso. A filosofia ficou igual à cidade: sem fim. Erundina ganhou as eleições daquele ano; Paulo Freire tornou-se secretário de Educação e Chauí, secretária de Cultura. De certa forma, eles ainda estão no poder.

Vim para Londrina em 1989. Entrei para o jornalismo, uma profissão inacabada. Durante alguns anos, morei na Rua Humaitá, que também não tem fim: com outros nomes, começa no Zerão e termina no campus universitário. Nasce e morre em ciclos. Hoje moro perto do que seria o fim da Avenida Higienópolis, mas descobri que ele não existe: é uma rotatória. Depois da rotatória, há uma creche, uma escola, um asilo, uma igreja e a casa de Madre Leônia. Mais adiante, há um bosque, um vale e mais cidade. Londrina não tem fim.

Em 1938, um jovem antropólogo chamado Claude Lévi-Strauss passou por Londrina, apontou para certa direção e disse que a pequena cidade cresceria para aquele lado da floresta. Hoje eu moro perto desse lugar.

Não previsto por Lévi-Strauss, havia aqui perto de casa o Torrada’s Bar, que fechou as portas há uma semana. Fiquei triste e coloquei o nome do Torrada’s na lista dos meus queridos bares mortos: Clube da Esquina, Araucana, Souza, Aperitivos do Paulinho, Bar da Costela, Jaiminho... Felizmente, a Cantina do Nonoca segue firme e forte. Mas nenhum desses bares morreu ou morrerá jamais para mim: como a cidade, eles não têm fim.

Ouço agora a Arte da Fuga – que João Sebastião Bach deixou inacabada, morrendo ao escrever o Contraponto XIV – e observo o Torrada’s bar tristemente vazio. Mas sei que nada tem fim; todas as coisas estão marcadas pela ressurreição.


Até mais, Ary

27 de Abril de 2012 - 11:29 hscomente esta notícia


Conversei pela última vez com o pastor Ary Velloso na segunda-feira, às nove da manhã, quando ele me ligou para agradecer pela crônica daquele dia. A simpatia e a lucidez eram as mesmas de sempre, mas havia um profundo cansaço em sua voz. Ambos sabíamos que era uma despedida, embora eu ainda tivesse esperança de que ele ficasse mais algum tempo entre nós.

Lembrei-me da frase de Chesterton: “A coragem significa um forte desejo de viver sob a forma de disposição para morrer”. Ary era um homem de coragem: amou a vida e não temeu a morte. Talvez por isso a morte o tenha respeitado: Ary morreu dormindo, em casa, perto da amada Carolina. Agora está vivo e feliz, na Jerusalém eterna com que sempre sonhou.

Nossa amizade começou no amor pela palavra. Conheci Ary Velloso na noite de lançamento de meu livro de crônicas, em setembro de 2010. Na ocasião, ele me presenteou com um livro de sua autoria. Li-o no dia seguinte. Em nossas conversas e entrevistas, Ary me iluminava com reflexões sobre as cartas do apóstolo Paulo (São Paulo para nós católicos). O último livro que ganhei de presente dele foi “O conhecimento de Deus”. A Palavra nos uniu.

Na semana que passamos, alguns acontecimentos mais uma vez encheram de vergonha a cidade de Londrina. Mas hoje eu quero falar de alguém que nos encheu de orgulho e admiração. Jesus ordenou amar os nossos inimigos e orar por aqueles que nos perseguem. Ary amava também os desconhecidos. Sei disso porque ele me incluía em suas orações antes de setembro de 2010. Eu fazia parte de uma lista de pessoas que ele não conhecia, mas por quem sentia necessidade de orar. Soube depois, pelo próprio Ary, que nessa lista estava incluído o médico e escritor Marco Antônio Fabiani, um querido amigo. Com seu coração imenso, Ary reconhecia as afinidades.

Na crônica de segunda-feira, eu disse que Ary era como um irmão mais velho e sábio. Errado. Até pela diferença de idade – casou-se com Carolina em 1970, o ano em que nasci –, ele era uma espécie de pai espiritual. Acho que ele e Paulo Lourenço terão ótimas conversas lá na Jerusalém eterna. Ary, diga ao meu pai que o Pedro tem as mãos dele.


Obrigado, Ary

23 de Abril de 2012 - 10:43 hscomente esta notícia

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Todos os dias, ao acordar, tenho procurado repetir a mesma frase: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”. A exemplo do centurião romano, posso garantir que até hoje não passei um dia sem receber essa palavra, mesmo no meu longo período de ateísmo. Encontro-a sob diversas formas: livros, lugares, memórias, amigos. E um dos amigos mais pródigos em oferecer-me a palavra tem sido o pastor Ary Velloso.

Vocês, meus queridos sete leitores, sabem que sou católico; o Ary também sabe. Mas essa diferença nunca foi ou será um obstáculo entre nós. Gosto de considerá-lo como um irmão mais velho e sensato. Sempre que nos encontramos, ele me dá uma palavra de sabedoria e amor. Sua mulher, a querida Carolina, diz que há pelo menos três gerações o pastor faz o mesmo com todas as pessoas que encontra – no Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra, em qualquer lugar. Do milionário ao taxista, todos ficam mais ricos quando conhecem Ary. Todos se transformam em homens novos depois de conversar com ele, em português ou em inglês, por um minuto que seja. E ainda por cima é palmeirense!

Um dia descobri que Ary Velloso vive há vários anos com um coração transplantado. Esse homem que renova as pessoas é, também ele, um homem novo. Mas esse “novo” na verdade corresponde ao que há de mais antigo e primordial em nós: a união com Deus. “Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim.” (Gálatas, 2:20)

Ary não sabe, mas dele vieram as palavras mais consoladoras depois das mortes de meu pai e de minha mãe. Esta crônica é um pequeno agradecimento diante do bem incomensurável que ele fez e continua fazendo às pessoas – tanto que foram necessários dois corações de carne para acompanhar o trabalho de seu coração espiritual. Um coração cuja filosofia pode ser resumida na frase da Carta aos Filipenses (1:21): “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro”.

Em nome de todos os amigos que foram enriquecidos com suas palavras, Ary, aceite o meu muito obrigado.


Os sapatos de minha mãe

20 de Abril de 2012 - 11:23 hscomente esta notícia

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Minha mãe acordava cedo, antes do Sol. Para não incomodar ninguém, vestia-se no escuro. Se hoje penso em Aracy nos anos 70, quando morávamos em São Paulo, vem à mente a imagem de uma mulher com pressa. Até hoje não sei como ela conseguia dar aulas de História em lugares tão distantes quanto o Bairro do Limão, a Casa Verde, a Vila Maria – e ainda cuidar dos filhos pequenos e da casa.

Aracy acordava de madrugada, vestia-se no escuro e passava o dia correndo de um lado para o outro, carregada de livros, de sacolas de papel ou dos filhos. Para completar o milagre, minha mãe ainda não dirigia na época: fazia tudo a pé, de ônibus ou, raramente, de táxi. Assim ela aparece nos meus sonhos até hoje: com pressa.

Certa manhã os alunos da escola na Casa Verde repararam que a dona Aracy estava um pouco diferente. Em geral, ela dava aula em pé, passeando de um lado para o outro em frente à lousa. Nesse dia, ela se sentou atrás da mesa, algo que quase nunca fazia, a não ser na hora da chamada. Quando a diretora da escola veio à porta da sala e Aracy teve de se levantar para atendê-la, os alunos descobriram o porquê do comportamento estranho. A professora de História estava com um pé de sapato de cada cor. “Ô dona Aracy, isso aí é moda?”

Pois hoje, mais de 30 anos depois do incidente, eu vejo que aqueles sapatos trocados simbolizam a atitude de Aracy diante da vida. Por que ela se vestia no escuro? Para não incomodar os filhos e o marido que ainda dormiam. Na pressa, calçou um pé marrom e outro roxo. Percebeu o erro ainda dentro do ônibus Centro-Casa Verde, mas aí não dava mais tempo de voltar para casa.

Outro dia vi a foto impressionante de um museu do Holocausto. Para simbolizar o genocídio, juntaram milhões de sapatos usados. O efeito é avassalador, pois um sapato usado adquire as formas do dono, representa os caminhos e a individualidade de quem o calçou um dia. Hoje eu penso que o sentido da vida de Aracy estava naqueles sapatos trocados: amor à família, amor ao trabalho e o ruído de passos que era o primeiro som de todas as minhas manhãs de infância. Por mais que eu ande pelo mundo, jamais ouvirei aqueles passos delicados no escuro. Até morrer, jamais encontrarei o fim desta saudade.


Sinto falta

16 de Abril de 2012 - 14:54 hscomente esta notícia


Escrevo porque sinto falta. Quando vejo um malabarista no semáforo, lembro que você fazia a mesma coisa com três laranjas. E em seguida descascava as laranjas com maestria, assobiando. Nunca aprendi a assobiar nem a descascar laranjas, muito menos a ser malabarista.

Mas aprendi a nadar – você me ensinou. Comentava que começou a praticar natação em um açude, quando morava em Guararapes. Só veio a conhecer uma piscina aos 18 anos, quando inauguraram o departamento aquático do Clube Atlético Mirandópolis. Foi o primeiro a ser jogado na piscina.

Nunca me tornei um bom nadador, mas pelo menos aprendi a não afundar na água. Quando íamos à praia, em Itanhaém, você tinha coragem de nadar até a arrebentação. Eu sempre fui medroso; ficava na areia esperando você voltar. Tinha medo de perdê-lo para o mar. Um dia, perto do Natal, longe da orla marítima, você partiu para sempre, foi nadar em outras águas; e eu fiquei olhando um mar invisível.

Em Itanhaém, visitamos as ruínas do antigo mosteiro e o lugar chamado de “cama do Anchieta”, uma rocha em forma de leito, onde o poeta jesuíta gostava de ficar deitado, lendo e pensando em versos. Havia também uma escultura da novela “Mulheres de Areia”, cuja primeira versão foi rodada em Itanhaém. Quando pequeno, eu tinha certa dificuldade em pronunciar o nome da cidade litorânea: dizia Itanhanhém...

Ontem à noite, relendo “Crime e Castigo”, fiquei pensando que você um dia também passou por aquelas páginas e acompanhou as trajetórias de Raskólnikov e Sônia. “Crime e Castigo” era o seu Dostoiévski preferido, ao lado de “O Jogador”. Raskólnikov é um nome difícil de pronunciar, mas acho que aprendi.

Quando chego em casa à noite, cansado depois de um dia de trabalho, meu filho quer brincar comigo. E eu lembro que você chegava à noite, no apartamento da Alameda Barão de Limeira. Trazia um doce para a sobremesa; depois do jantar, brincávamos de Capitão Marvel ou imitávamos o cantor Silvio Britto. Você estava cansado, mas não deixava de brincar com o filho. Mais um ensinamento.


O muro dentro da alma

15 de Abril de 2012 - 21:40 hscomente esta notícia

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Em 2010, o escritor Karleno Bocarro publicou o romance “As almas que se quebram no chão” (É Realizações, 336 páginas). O livro conta a história de alguns estudantes brasileiros que moram na Alemanha Oriental durante a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e o rumo de suas vidas após esse acontecimento. Parte da narrativa se baseia nas experiências pessoais do autor, que migrou para a Alemanha comunista pouco antes da queda do Muro, como bolsista universitário. Karleno presenciou a derrocada do modelo soviético no Leste Europeu, bem como as consequências desse fato histórico na vida dos alemães orientais e dos estrangeiros que viviam no país socialista. O enredo de “As almas” focaliza as trajetórias de três jovens – Marco, Barad e Bocas – que parecem realizar as palavras demoníacas do jovem Marx: “Por que bramem as ondas? (...) Para que elas, com um estrondo, se quebrem no rochedo; para que a alma se quebre no chão do Inferno”. É a epígrafe de um livro sombrio e devastador.
Antes mesmo da publicação de “As almas”, Karleno Bocarro já escrevia um novo romance, movido por uma incontrolável ânsia de expressão artística. “A questão não é de sucesso ou fracasso, mas de necessidade: eu não saberia viver sem literatura”, diz o autor. “Ela é o ar que respiro!” Após um longo período de gestação, Karleno prepara-se para lançar “O Advento”, seu segundo romance, que se passa no Brasil atual – um país que, estranhamente, guarda semelhanças com a Alemanha pós-Muro. A seguir leia os principais trechos da entrevista com o autor:

Paulo Briguet: Qual a relação temática e estrutural dos dois romances – “Almas” e “O Advento”? São os dois primeiros volumes de uma trilogia? Há uma relação de causa e efeito entre eles?

Karleno Bocarro:Iniciei “O Advento” antes de ter certeza da publicação d’“As Almas Que se Quebram no Chão”. Mas sempre foi assim, e desde que retornei da Alemanha com o propósito de me tornar escritor: escrevi três romances antes de conseguir despertar o interesse de um editor. Devo ao Edson, meu editor, da É Realizações, a publicação do primeiro, mas que é o quarto da sequência acima. Ora, é preciso ter um coração de ferro, mas com reservas infinitas e profundas de paciência, para se viver sob a sombra constante do fracasso. Mas talvez eu esteja exagerado, a questão não é de sucesso ou fracasso, mas de necessidade. Eu não saberia viver sem a literatura. Ela é o ar que respiro! Mesmo assim, alguma forma de recompensa, para tanto sacrifícios, deve existir; alguém que almeja a sabedoria não deve morrer à míngua, ou de loucura. A publicação (finalmente!) de meus romances torna o ar que respiro um pouco mais salubre, não? Pois bem, quando saiu “As Almas”, eu já tinha avançado 100 páginas n’“O Advento”… O desafio era então colocar uma peça a mais para alcançar a altura do escritor perfeito. Quer dizer, eu não podia cair na insensatez de continuar retratanto personagens envoltos numa existência romântica de recusa a si mesmo, do “conhece-te a ti mesmo” socrático; que ao darem importância a uma vida sem compromissos abraçam a tolice como forma de vida. É claro que alguns tipos assim também estão presentes n’“O Advento”. Mas a discussão aqui é mais séria, o estilo deve ser ponderado; alguém no livro deve querer fazer algo de si mesmo, descobrir o sentido de “eleição” para afirmar com segurança: “Esta é a minha vocação, e ela é ética. Contribui, ainda que pouco, para que as pessoas coloquem a lâmpada do candelabro à vista e ilumine um mundo tão difícil”. Enfim, ainda que possa ser um livro igualmente sombrio, “O Advento” aponta para uma saída; há personagens que dizem “o que é bom” – estes têm a cabeça no lugar – e outros que fazem o que é louvável – estes, por sua vez, têm coração. E ambos são amostras de espírito superior, não é mesmo? Então, à medida que compunha o livro, eu via uma continuação aprofundada de temas e discussões, e a indicação para compor uma trilogia. O grande feito será encerrá-los num terceiro volume, cujo o título é “O Bosque do Meio-Dia”.

Paulo Briguet: Hoje mesmo comentei com um amigo: “O Diabo está solto no mundo”. Bocas fugiu na hora H. Ele reaparece, sob outras formas, no “Advento”?

Karleno Bocarro:Bocas é realmente um personagem apavorante… Mas acho que ele ficou mesmo na Europa, em Amsterdam ou em Bucareste, espalhando por lá os seus erros. Bem, o diabo é legião, não? E para ser sincero, ele anda trabalhando um bocado pelas bandas de cá. Assim sendo, o mal não poderia furtar-se de marcar presença n’“O Advento”, e infelizmente de modo mais destrutivo. Mas falando sério, imbecis desajustados vivem em toda parte. O que encontramos no livro são imbecis desajustados bem-nascidos, o que são, devido uma ambição desmedida, e hoje em dia justificada, ainda piores. O problema é quando alguém, pensando tirar vantagens de suas amizades, dá atenção ao que eles sentem e dizem. Após conhecê-los, não se escapa; a prisão é nas teias de sua vulgaridade. “O Advento” é uma história de amor, mas também de sacrifícios; pessoas matam para satisfazer ímpetos egoístas… E um bom romance não deve encarar o problema do mal sob uma ótica sociológica.

Paulo Briguet: Quem são as “pessoas fechadas para o divino” que você retrata no livro? Fale de alguns personagens como Semei, Margote, Aka Larência.

Karleno Bocarro:Não podemos ignorar a finalidade estética da epígrafe num romance: ao lado do título, ela nos fornece uma boa indicação do que teremos pela frente. A epígrafe d’“O Advento” é um pequeno trecho do Segundo Livro de Samuel que fala de um homem chamado Semei que sai de casa para proferir maldições contra Davi, e todos os servos de Davi. Uma personalidade curiosa numa história impressionante! E o mesmo Semei reaparece em Primeiro Reis, mas com um fim nada auspicioso. Bem, Semei é o nome do personagem principal d’“O Advento”. Mas o meu Semei, por assim dizer, não profere maldições, ele as sofre, percebendo-as muito bem. Talvez até de maneira desnecessária, vendo na sua experiência de mundo um jogo de conspirações. Mas qual a razão desse comportamento? Semei leva consigo um problema de infância; foi molestado por um adulto… Uma das questões que levanto no livro é o modo como ele lida com esta imensa e injusta dor capaz de destruir para sempre a vida de uma criança. Demis Margote é o grande amigo de Semei. No entanto, ele não vê problemas numa iniciação sexual prematura, mesmo tendo sido esta violenta. Pelo contrário, o sexo para ele é como um sol escaldante, e apreciável, pois o leva a buscar saciações despropositadas. Aka Larência é a namorada de Semei, e mesmo não sabendo os detalhes de seu trauma lhe oferece uma saída responsável às suas dores: o relacionamento estável é lugar onde ele pode vencer os desafios apavorantes das paixões. Semei é, portanto, chamado a escolher entre o caminho turbulento proposto por Margote e o sossego oferecido por Aka.

Paulo Briguet: Yeats (“A segunda vinda”) e Dante (“Inferno”) foram matrizes poéticas de seu livro? René Girard foi a matriz filosófica? Se houver outras, mencione-as.

Karleno Bocarro:Sim, eu diluo os versos de W. B. Yeats nas descrições que faço de pessoas e lugares. Dante também está lá! Principalmente nas cenas em que a perda da alma roça os personagens de maneira perigosa: lugares plenos de desdém, ódio e desordem. A grande matriz filosófica, bem explícita na primeira resposta, é Søren Kierkegaard e sua visão da existência como uma possibilidade de nos transformarmos em algo melhor. E esta existência passa por três estádios, as quais pretendo refletir nessa trilogia: estético (em “As Almas que se Quebram no Chão”), ético (em “O Advento”) e religioso (em “O Bosque do Meio-Dia”). É claro que o pensamento de Kierkegaard é mais rico e complexo do que esquematizá-lo numa teoria de três etapas. Há outras matrizes filosóficas – aquelas velhas parteiras de sempre que nos ajudam a dar à luz ao que importa num grande livro: enredo grandioso que prenda o leitor, discussões capazes de transformam a dor de viver em esperança, explicações úteis ao entendimento, etc. O Novo e o Antigo Testamento, Dostoiévski, Pascal, Santo Agostinho, Plutarco, são algumas dessas velhas parteiras.

Paulo Briguet: De que maneira você mantém a esperança em meio a temas tão sombrios? As personagens femininas representam essa possibilidade de redenção?

Karleno Bocarro:Sim, pois as mulheres, nos meus livros, enfrentam a vida; são pacientes para com seus amados, oferecem-lhes a redenção. No entanto, elas também sabem o momento de seguir em frente, ainda que muitas vezes sozinhas. Elas não insistem nos erros, nunca choramingam. Em meio a homens que não exigem que o desejo siga regras precisas, que adoram a companhia da miséria e da confusão, elas simbolizam a esperança. E isso não é pouca coisa, não é? Quero dizer, que os leitores se encantem com personagens virtuosos, pois não é meu propósito induzi-los a ter satisfação onde só há vergonha, escândalo e leviandade. Isso são caprichos de uma arte adolescente, que se recusa a amadurecer.

Paulo Briguet: Imagino que o livro faça uma corajosa descrição do hedonismo/materialismo de nossa época. O Brasil atual e a Alemanha Oriental pós-Muro têm mais semelhanças do que se pensa? (Vale lembrar que Lula, em 1990, criou o Foro de São Paulo com o objetivo de “recuperar na América Latina o que a esquerda perdeu no Leste da Europa”).

Karleno Bocarro:Sim, há semelhanças. Ou melhor, vivemos a continuação do que aquele evento histórico trouxe à tona. Ora, há desdouro maior do que não pensar com autonomia? Todos esses aspectos doentios da cultura – o politicamente correto, o feminismo militante, a ecologia milenarista, o materialismo tosco – receberam ali impulsos significativos. Aceitar o fracasso do socialismo e assumir uma postura (adulta!) de respeito à realidade exige um esforço intelectual que muitas pessoas recusam a fazer. Se antes era Moscou a lhes ditar a vida, hoje elas recebem orientação de ONGs, partidos políticos, líderes populistas, etc. Ora, uma pessoa assim, que segue tais correntes de pensamento é incapaz de bastar a si mesma, de descobrir a si mesma; jamais dependerá de si própria, e a sua maior felicidade é assemelhar-se a um bicho, agindo e pensando em bando. A multidão não é a mentira? Mas aquilo que nos importa, que dá um sentido aos nossos sofrimentos e mantém a esperança viva, não vem de um ser humano; vem do alto, vem de Deus, e nos afeta individualmente. Episódios recentes nos dão uma amostra do problema; os orfãos do Muro de Berlim odeiam qualquer forma de espiritualidade elevada: para eles, é inteligente proibir Dante Alighieri nas escolas, o crucifixo nos tribunais…

Paulo Briguet: Qual a importância dos temas da paternidade e do sacrifício para o enredo do livro?

Karleno Bocarro:A paternidade é o princípio ético que escolhi para dar conta de questões que levanto n’“As Almas”… Aka Larência, a grande personagem feminina do livro, oferece a Semei – um homem que passa o livro fugindo de si mesmo, de um compromisso sério –, como uma solução aos tormentos que apavoram a sua alma, o amor. Ela deseja apenas uma vida simples, com filhos, ao lado dele… Uma decisão que não requer, para quem ama, muitos esforços, não é mesmo? Mas há no livro outra forma de sacrifício, além do sentido de um esforço próprio. Como observou um amigo meu, que leu o livro em primeira mão, por trás da relação amorosa entre Semei e Aka arma-se aos poucos, para que a vida de alguns seja preservada em sua baixeza, uma atmosfera mística para imolação de uma vítima. “O Advento” é um livro doloroso! Espero, contudo, que ele rompa o mar congelado de indiferença que habita dentro de nós.


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