Com o Perdão da Palavra

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Com o Perdão da Palavra

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O sequestro da linguagem

03 de Fevereiro de 2012 - 09:29 hscomente esta notícia


Qualquer ditadura começa pela linguagem. Atacar a liberdade de expressão é apenas uma das etapas da revolução cultural socialista que vivemos na atualidade; o primeiro passo é estabelecer novos sentidos para as palavras.

Aqui no Brasil temos o partido-príncipe, o partido de Gramsci, o partido do novo Maquiavel (além, é claro, da base alugada e da oposição fraquinha e fajuta).

Nos tempos da ditadura militar, alguns companheiros – hoje no poder – sequestravam inimigos do povo e assaltavam bancos privados. Nos últimos 30 anos, preferem sequestrar palavras e assaltar cofres públicos. Antes, o príncipe socialista era militar e financeiro. Agora, é financeiro e cultural; aderiu ao capitalismo de Estado.

Os inimigos do povo mudaram de nome. Antes, eram os “agentes da CIA”, “lacaios do imperialismo”, “porcos capitalistas”. Hoje, são os “demotucanos”, “neoliberais” e “estadunidenses”.

Havia uma palavra: ética. Foi sequestrada no começo dos anos 90 pelos companheiros que pediam “ética na política”. Engolida pela política, a ética virou dialética. Hoje em dia, os companheiros decidem quem é honesto e quem é ladrão; quem é pacífico e quem é violento.

Havia uma expressão: liberdade de imprensa. Fo sequestrada pelos companheiros enquanto os senhores Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso ocuparam a Presidência da República. Só tinha validade quando os dois Fernandos estavam no poder. Assim que o sr. Lula da Silva ganhou a eleição presidencial, liberdade de imprensa se tornou sinônimo de “imprensa golpista”.

Havia muitas palavras: direitos humanos, anistia, cidadania, justiça social. Foram todas sequestradas. Em Cuba, os direitos humanos são crimes contrarrevolucionários. No Brasil, anistia é algo que só vale para os crimes cometidos pela esquerda. Cidadania para todos – menos para os conservadores. Justiça social é a justiça que não está na lei.

Em nossa cidade, havia uma deliciosa expressão para designar os nativos: pé vermelho. Fazia referência à cor do solo e apropriava-se, com orgulho, de uma antiga expressão pejorativa. Pois não é que os companheiros resolveram sequestrá-la também?



O filho só

01 de Fevereiro de 2012 - 12:16 hscomente esta notícia


Primeira semana do Pedro na escola. Dizem que há dois momentos difíceis: no começo, quando a criança chora ao se separar da mãe e do pai; depois, quando a criança se acostuma e não chora mais.

Vejo Pedro na escola e penso em Antônio Costa. Meu bisavô nasceu em 1889, em Portugal. Aos sete anos, veio com a família para o Brasil, aportando em Belém do Pará. Logo os pais se desiludiram com as perspectivas no país e decidiram voltar. Não havia, porém, dinheiro para as passagens de toda a família. Antônio e um irmão mais velho, de 12 anos, foram deixados sozinhos em Belém.

Desde que minha mãe me contou essa história familiar, há muitos e muitos anos, eu não passo um dia sequer sem pensar no desamparo do coração daquele menino. Sei que Antônio trabalhou por um tempo no mercado Ver-o-Peso, depois migrou para o Sudeste. Separou-se do irmão e nunca mais viu os pais.

Na primeira década do século 20, Antônio trabalhou na abertura da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, entre Bauru e Corumbá. Depois de algum tempo, tornou-se maquinista de trem, classe G, quadro VII (segundo informa o Diário Oficial). Nunca frequentou escola, mas aprendeu sozinho a ler e escrever. Casou-se com a mineira Ambrosina; tiveram 11 filhos. Na família, era conhecido como Pai Costa. Sua velha cadeira de balanço, onde gostava de ler jornal, faz parte das relíquias familiares. Li bastante nessa cadeira, inclusive “Pais e Filhos”, de Turguêniev.

Em 1918, nasceu Maria, minha avó materna. Em 1940, nasceu Aracy. Em 1970, nasceu este cronista. Em 2010, chegou o Pedro. Somos todos filhos daquele homem que se viu sozinho, aos sete anos, em um país imenso, assustador e desconhecido.

Às vezes eu penso: se houvesse dinheiro para a passagem, Antônio teria voltado para Portugal com a família. Não haveria Pai Costa, nem Maria, nem Aracy, nem Paulo Antônio, nem Pedro – esse menino que agora está na escola e às vezes olha para os lados à procura da mãe e do pai.

Calma, Pedro. Nós estamos aqui. Não vamos abandoná-lo, embora seu pai seja filho de um abandono primordial.



A cidade sem Deus

30 de Janeiro de 2012 - 13:31 hscomente esta notícia


No final dos anos 40, os homens quiseram construir uma cidade sem Deus. Seu nome era Nowa Huta; ficava nos arredores de Cracóvia, na Polônia. O governo comunista levou para lá milhares de operários de todas as regiões da república. O plano era fazer de Nowa Huta, além de poderoso centro siderúrgico, a única cidade totalmente socialista do mundo. Socialista, materialista, marxista – e ateísta.

Apesar de não ter sido convidado pelas autoridades, Ele apareceu em Nowa Huta. Veio junto com os milhares de operários católicos.

Em vez de uma cidade sem Deus, os comunistas poloneses tiveram de se contentar com uma cidade sem igreja. Aliás, uma cidade sem a igreja física. Pois a igreja espiritual não só estava presente como também tinha um líder: o jovem bispo Karol Wojtyla, da vizinha Cracóvia.

Durante muitos anos, Wojtyla bombardeou as autoridades polonesas com pedidos de autorização para construir uma igreja católica em Nowa Huta. Enquanto a resposta não vinha, os operários católicos revezavam-se vigiando aquilo que os comunistas não conseguiram impedir: uma cruz de madeira erguida na cidade. Finalmente, em 1977, as autoridades cederam à insistência de Wojtyla – e foi permitida a construção da igreja de Nowa Huta.

Pouco depois de se tornar o papa João Paulo II, aquele polonês incansável visitou o seu país natal. E disse: “Embora os tempos mudem, embora no espaço dos campos de outrora, nas vizinhanças de Cracóvia, tenha surgido um enorme conjunto industrial, a verdade da vida do espírito humano – que se exprime através da cruz — não declina, é sempre atual, não envelhece nunca”.

Numa arrebatadora mensagem aos católicos da Polônia e de todo o mundo, Karol Wojtyla concluiu suas palavras naquele 9 de junho de 1979: “Da cruz em Nowa Huta começou a nova evangelização: a evangelização do novo milênio. Esta igreja testemunha-o e confirma-o. Ela nasceu de uma fé consciente e viva e é necessário que continue a servi-la. (...) Construístes a igreja; edificai a vossa vida com o Evangelho!”

Dez anos depois, em 1989, caía o Muro de Berlim. A cidade sem Deus revelou-se como o que de fato era: uma ilusão tirânica. Mas até hoje há quem tente reconstruí-la.

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PS: O texto acima foi publicado, em versão ampliada, na edição de dezembro do “Boletim Universitário”, jornal católico distribuído nos campi e faculdades de Londrina. A publicação – que discute conhecimento e religião – vem sendo atacada pelos novos adeptos da censura. Estes também querem construir uma cidade – universitária, no caso – sem Deus.


Amigos, leitores

27 de Janeiro de 2012 - 14:07 hscomente esta notícia


Se eu pudesse, roubaria toda a sua dor.

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Quando perguntamos ao Pedro onde está a vovó Aracy, ele aponta o céu. Aos poucos, irá percebendo a diferença entre o céu, regido pelo tempo, e o Céu, regido pela eternidade. Meu filho, tão pequeno, já entende que o Paraíso é a morada última do amor. Amaremos o suficiente para chegar lá?

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O Céu é um lugar de amor – portanto, um lugar de amigos. Algumas pessoas me odeiam pelas coisas que escrevo, mas, por numerosas que sejam, nunca irão reduzir a alegria de encontrar um amigo leitor.

Nesta semana, tive longas e agradáveis conversas com três amigos leitores. Darei a eles nomes bíblicos: José, João e Nicodemos. José é artista gráfico; João, professor; Nicodemos, advogado. Mas eles fazem muito mais do que desenhar, ensinar e defender. Eles geram o substrato da amizade: confiança.

Meus três amigos andam preocupados com os ataques que venho recebendo por causa de minhas opiniões. Também eles passaram por mudanças ideológicas e se desiludiram com aqueles adoradores da humanidade que odeiam indivíduos. Tiveram grandes decepções com os reformadores do mundo que não reformaram a si mesmos.
Eu agradeço a Deus por ter reencontrado José, João e Nicodemos nesta semana. Não acredito em acasos.

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Fui visitar minha irmã em Bauru. Na volta para Londrina, sentei-me na poltrona 20 do ônibus. Ao lado estava dona Marisa, senhora muito simpática. Disse que era de Bebedouro e estava indo visitar a irmã em Londrina. Perguntei onde a irmã dela morava. Resposta: Avenida Rio de Janeiro – e um número. Exatamente o número da casa de minha sogra, para onde eu estava indo. Dividimos o táxi e subimos no mesmo elevador. A irmã de Marisa mora no 11º andar; minha sogra, no 10º. Marisa se tornou leitora de minhas crônicas. Acaso? Não existe. Existem amigos – e um Céu em que eles se reúnem depois da vida.



O revolucionário de internet

25 de Janeiro de 2012 - 05:15 hscomente esta notícia


Se existissem blogs e redes sociais há 20 anos, eu seria um revolucionário de internet. Graças a Deus, não passei por esse vexame. Mas sei exatamente como eles pensam e agem. Talvez por isso eles me odeiem tanto.

O revolucionário de internet não chegará jamais ao poder (a não ser às “franjas”), porque não dispõe de suficiente senso prático e noção da realidade. Sua forma de ação é unicamente virtual. Mesmo assim, o patrulhamento ideológico que realizam tem grande utilidade para os atuais ocupantes do poder.

A utopia é o paraíso demoníaco almejado pelo revolucionário de internet. Verdade e moral são conceitos relativos para ele. Se a verdade interessa à causa, deve ser divulgada. Se a verdade é contrarrevolucionária, divulgue-se a mentira progressista.

Quando a polícia reprime um movimento social, a primeira pergunta do revolucionário de internet é: “Onde aconteceu?” Se a resposta é um Estado ou cidade governado pela esquerda, ignora-se o fato. Se a resposta é um Estado ou cidade governado pelo que eles imaginam ser a direita conservadora, segue-se uma avalanche de protestos e denúncias, com pouco ou nenhum apreço pelos fatos reais. Quanto ao sofrimento verdadeiro das pessoas, este só vale se pode ser usado na propaganda eleitoral.

Os revolucionários de internet têm uma visão muito seletiva de moralidade. Querem censurar a mídia, tirar a Globo do ar, queimar a Veja, silenciar o papa. Mas não veem nenhum problema em reverenciar assassinos como Che Guevara. Às vezes até se vestem com o uniforme do comandante.

Ataques à religião, à vida pessoal e aos locais de trabalho do “inimigo do povo” são os coquetéis Molotov desses valentões de Internet. Eles se expressam numa língua semelhante ao português, versão parecida com o que Václav Havel chamava de “imbecilês” – o idioma revolucionário de todos os tempos.

O revolucionário de internet pode ser uma boa pessoa na vida real? Claro que sim! Mas, atrás de um teclado, ele vira monstro. Na internet, há revolucionários sinceros e inteligentes, mas nunca sinceros e inteligentes ao mesmo tempo. Não é por acaso que eles sonham com “outro mundo possível”. É o mundo virtual, onde a verdade não passa de reacionarismo.



Concerto de celular

23 de Janeiro de 2012 - 10:39 hscomente esta notícia

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Tenho um amor não correspondido pelas novidades tecnológicas. O caso é simples: gosto delas, mas elas não gostam de mim. Meu novo celular já deixou de ser novo – faz mais de um ano que o comprei –, mas só agora eu descubro algumas funções do aparelho. Outro dia, antes de passear com o Cisco, percebi que meu celular tem acesso a algumas rádios, que podem ser selecionadas conforme o gênero musical.

Maravilha? Nem tanto. Consegui localizar o gênero de música que mais aprecio, mas não houve modo de fazer o bicho ficar parado numa só emissora. Resultado: no momento mais empolgante da música, a sintonia muda automaticamente para outra rádio, sem retorno.

Na semana passada, viajei de ônibus para Bauru e liguei o celular nas tais rádios pula-pula. (Com fones de ouvido, é claro, que eu não ouço rap nem funk.) Comecei por uma emissora holandesa que estava tocando Vivaldi. Não eram as manjadas “Quatro Estações” – esse toca-Raul da música de concerto –, mas outra peça menos conhecida, para oboé, em tom menor. No melhor momento do adagio, como eu já esperava, o celular pulou para outra rádio, tocando “A Sagração da Primavera”.

Foi irônica essa mudança do padre italiano para o modernista russo. Certa vez, Stravinsky declarou: “Vivaldi não escreveu 500 concertos, ele escreveu 500 vezes o mesmo concerto”. Acho muito arrogante essa frase de Stravinsky. E meu compositor russo é Shostakovich.

Vocês não vão acreditar, mas a rádio que sucedeu Stravinsky estava tocando a “Quinta Sinfonia”... de Shostakovich! E vocês não devem acreditar mesmo, porque a essa altura eu já estava dormindo e sonhando com aquele terceiro movimento secretamente dedicado às vítimas de Stálin. No meio da madrugada acho que escutei até mesmo a continuação do Contraponto 14 em “A Arte da Fuga”, aquele que o meu querido João Sebastião deixou inacabado...

Horas depois, acordei. Fones de ouvido silenciosos; o celular não tocava mais nada. Pensei que poderia existir uma rádio em que ouvisse a voz de meu pai. E senti a falta dele quando desci na rodoviária de Bauru.


Big Brother

20 de Janeiro de 2012 - 13:25 hscomente esta notícia


O melhor controle dos meios de comunicação é o controle remoto. Uso todos os dias.

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Quando um militante moderno quer defender a censura, usa outras palavras: “controle social da mídia”. Mas a simples troca das palavras não lhes muda o sentido original.

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Os militantes que defendem a censura ao Big Brother Brasil não querem simplesmente suspender o programa. Na verdade, sonham com o dia em que poderão vigiar e punir as reportagens negativas sobre os companheiros.

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Dez anos e oito mortos depois, o caso Celso Daniel continua sem solução. E os vivos, o que têm a dizer?

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Algumas palavras foram sequestradas pelos atuais ocupantes do poder: ética, cidadania, direitos humanos, justiça social. Não as utilizo mais, para não ser confundido com eles.

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Certos programas reúnem a escória da humanidade. Mas é preciso reconhecer: eu também faço parte dessa escória. Pascal ensinava que não o homem não terá a graça divina sem reconhecer a própria miséria.

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Até mesmo da escória pode surgir alguma forma de beleza. Alguém disse, muito tempo atrás, que a podridão é o laboratório da vida. Tinha alguma razão.

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É irônico que os entusiastas da censura ao Big Brother Brasil defendam a imposição de algo semelhante ao Big Brother original, de George Orwell. Quem leu “1984” sabe do que estou falando.

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E o que é a Lei da Palmada, senão uma forma de estatizar a educação das crianças? Querem o controle do Estado no ambiente familiar.

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Em outro livro fundamental, “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley fala de um tempo futuro em que as palavras “pai” e “mãe” foram transformadas em palavrões e graves ofensas. Certos militantes sonham com o dia em que os companheiros vão substituir os pais.

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O Estado é o verdadeiro Big Brother.



Minha sogra

18 de Janeiro de 2012 - 02:25 hscomente esta notícia

Por razões de higiene mental, mantenho-me afastado de programas que reúnem a escória da humanidade e representam o oposto da mais importante instituição: a família.

Um não-leitor reclama que eu falo demais sobre meus mortos. Mas hoje eu vou falar sobre uma presença viva. Vou falar sobre uma daquelas pessoas que fazem a gente abandonar o egoísmo e acreditar que a espécie humana, apesar de tantas evidências em contrário, ainda tem alguma esperança.

Depois que me casei, nunca mais vi graça nas piadas de sogra. Pelo simples fato de que Deus me presenteou com a dona Elia.

Escrevo estas palavras em Bauru, na casa de minha irmã, e sei que minha família está em boas mãos, na casa do seu Lourenço e da dona Elia. Não tenho dúvida alguma de que a dona Elia passou o dia inteiro preocupada com o bem-estar da filha e do neto. E também sobraram cuidados para o Cisco, nosso cachorrinho vira-lata (que, por sinal, a adora).

Seu Lourenço merece uma crônica à parte, a começar pelo nome, que é o sobrenome do meu pai. Ambos foram bancários e batalharam muito na vida. Como meus sete leitores já sabem, eu não acredito em coincidências e acasos. A semelhança de nomes e profissões faz todo sentido.

Desculpe, seu Lourenço, mas hoje a crônica é da dona Elia. Quero dizer aqui aos meus sete leitores e 70 não-leitores: um dos únicos consolos reais para a perda de minha mãe, há dois meses, foi a certeza de que Aracy deixou uma substituta na Terra. Elia ajudou a cuidar de minha mãe na hora mais difícil – e essa é uma dívida eterna.

Um sábio judeu disse que Deus inventou as mães para demonstrar que a onipresença existe. Dona Elia tem o dom de se fazer presente em qualquer hora e ocasião – e todas são necessárias. Em inglês, sogra é mother-in-law. Literalmente, significa “mãe pela lei”. Dona Elia não se tornou mãe por lei. Ela é mãe de graça, e pela graça.

Repito: os nomes não existem por acaso. Dizem que estava chovendo muito no dia em que Elia nasceu. Pois o nome Elia vem do grego Helios, que quer dizer Sol. Nada mais adequado. Eis alguém que nasceu para dar luz e vida. Vale a pena viver neste mundo? Tendo por perto uma dona Elia, vale. Não é, mãe?


Senhor capitão

16 de Janeiro de 2012 - 10:42 hscomente esta notícia

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Se havia uma coisa que meu pai nunca soube fazer bem, era cantar. Mas adorava música; pedia sempre que eu e a Fernanda cantássemos para ele nas reuniões de família. Era um de seus momentos mais felizes. Ao contrário do marido, a mãe também cantava; numa festa beneficente, chegou a ganhar uma passagem de cruzeiro ao interpretar “Ouça”, de Maysa. Isso foi em 1986. Felizmente, o navio não afundou. Mas Paulo e Aracy tiveram parte da bagagem roubada no Porto de Santos.

Para compensar a sua total incapacidade para a música, Paulo gostava de recitar poemas. Seu autor preferido era Manuel Bandeira. Em um ensaio provocativo, Ezra Pound dizia que a poesia está mais próxima da música do que da literatura; no caso de Bandeira, o comentário procede. O poeta recifense tinha um ouvido magnífico. Recitando Bandeira, Paulo compensava seu amor não-correspondido pela música.

No ano passado, quando Aracy já estava doente, Fernanda foi dormir angustiada. Tinha que apresentar um trabalho acadêmico no dia seguinte – uma aula baseada em algum poema brasileiro – e estava sem a menor ideia do que fazer.

Então Paulo apareceu em sonho, cantando para Fernanda, com sua voz muito característica, grave e desafinada: “Bão balalão, / Senhor capitão, / Tirai este peso / Do meu coração”. Como vocês sete devem saber, trata-se do “Rondó do capitão”, de Manuel Bandeira, que foi musicado pelos Secos & Molhados nos anos 70.

E Paulo cantava-recitava para a filha, voltando-lhe os olhos verdes da cor do Mar Menor: “Não é de tristeza/ Não é de aflição:/ É só esperança,/ Senhor capitão! / A leve esperança,/ Senhor capitão!”

Quando vocês, meus sete amigos leitores, lerem estas linhas, eu provavelmente estarei em Bauru, ao lado da Fernanda, que se recupera de um problema de saúde. Lá no lugar em que estão, muito além do Mar Menor, Paulo e Aracy cantam juntos agora. “Bão balalão, / Senhor capitão, / Tirai este peso / Do meu coração./ Não é de tristeza/ Não é de aflição:/ É só esperança,/ Senhor capitão!”


A caixa do tempo

13 de Janeiro de 2012 - 04:18 hscomente esta notícia


É uma peça rústica de madeira envernizada, com oito centímetros de altura, 19 de largura e 30 de comprimento. Tem uma pequena fechadura – que parece sem serventia há muito tempo – e duas dobradiças. Passo as mãos sobre pequenas lascas e falhas no verniz.

Abro a tampa. Na face interna, vejo duas inscrições em tinta bege: 21-9-1940 e O.B. Correspondem, provavelmente, à data em que a caixa foi feita e, certamente, às iniciais de meu avô materno, Oreste Briguet.

Vô Briguet era pintor de automóveis e juiz de futebol. Ao escrever a data em tinta bege, com a ponta inversa do pincel, tinha 30 anos. Minha avó estava grávida de sete meses da primeira filha, Aracy.

Era a época da guerra. Naquele mesmo dia, 21 de setembro de 1940, o governo britânico permitiu oficialmente que as estações de metrô em Londres fossem usadas como abrigos durante os ataques aéreos nazistas à cidade. Quando meu avô escreveu aquela data, o mundo pensava que Hitler iria dominar o mundo.

Não sei se em setembro de 1940 meu avô estava morando em São Paulo ou em Araçatuba. Oito anos antes, ele havia lutado na Revolução de 1932, ao lado das forças constitucionalistas. No final da vida, recebeu uma medalha, um diploma e uma pequena pensão. Morreu no Natal de 1984, quando eu tinha 14 anos. Foi meu primeiro contato com a morte.

Existe uma infinidade de lendas sobre caixas de tesouros, baús de relíquias, arcas de objetos sagrados. A ficção está povoada de esconderijos de obras-primas, segredos inconfessáveis e documentos históricos. Mas meu avô não me deixou nada disso. A sua herança foi apenas essa caixinha de madeira com um nome, uma data e algumas ferramentas de trabalho que eu nunca soube ou saberei utilizar. Há uma trena que agora só serve para medir o tempo; há fechaduras de armários que não existem mais; há um fio de cobre por onde não passa eletricidade desde o século passado.

Até parece que a pequena caixa só foi construída para que alguém pudesse abri-la 70 anos depois e escrever esta crônica.


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