Quinta-feira, 17 de maio de 2012
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O cinéfilo fielNeste momento, a atenção dos anfitriões está obviamente dividida entre duas importantes estreias. Uma, política, a de seu novo chefe de Estado, o socialista Hollande, que ontem mesmo, em seguida à posse, foi jantar em Berlim com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para tratar da renegociação do pacto europeu. E a outra, festiva e mundana, que acontece hoje, é a gala oficial de abertura do 65º Festival de Cannes, o maior fenômeno midiático já produzido pelo cinema mundial.
Na pior das hipóteses, dispostos a manter o alto nível da edição de 2011, que entregou ao mundo títulos da magnitude de Melancolia e A árvore da vida, os organizadores prepararam para este ano uma seleção que, a princípio, parece destinada a ampliar a inquestionável liderança que a mostra francesa mantém há décadas em dois polos: o comercial e o artístico, não necessariamente nesta ordem.
Nas últimas horas, o mais charmoso balneário da Côte d’Azur já recebeu mais de 30 mil profissionais. Além dos quase 5 mil jornalistas credenciados (este efetivo somente perde para a cobertura das Olimpíadas), desde já existe a cifra recorde de cerca de 10 mil empresários do setor cinematográfico, gente de todos os cantos do mundo que movimentará bilhões de dólares comprando e vendendo produções – prontas ou ainda na linha de montagem – no Marché du Film, o mais tradicional e importante balcão de negócios da indústria do audiovisual de entretenimento.
No segmento artístico, que garante filmes não somente com novidades estéticas e temáticas, há toda uma constelação de personalidades que gravita ao redor das várias seções da seleção oficial. A oferta de 2012 é esmagadora, de filmes e de celebridades (a presença de Hollywood em Cannes é sempre muito forte, o que garante o foco no tapete vermelho). No quesito cinema, há desde clássicos restaurados de David Lean, Sergio Leone, Alfred Hitchcock, Roman Polanski, Steven Spielberg e Agnes Varda até os mais recentes títulos de Bertolucci, Dario Argento, Takashi Miike e Philip Kauffman, todos fora de competição.
Mas o centro das atenções da cinefilia e da mídia à procura das ousadias da vanguarda são os 22 títulos da competição – que disputam a Palma de Ouro – e os 19 da seção paralela Um certo olhar, também competitiva e nicho de preciosidades que frequentemente reserva longas metragens do mesmo calibre da mostra principal. Como vem ocorrendo nos últimos anos, o sexagenário Festival de Cannes anda em busca de renovação. Por isso, embora não faltem alguns mimados ou queridinhos da curadoria (este ano foram avaliados pouco mais de 1.700 longas metragens), como Abbas Kiarostami, Michael Hannecke, o indefectível Ken Loach e o quase nonagenário Alain Resnais, há boa dose de sangue novo, entre estreantes e habitués mais recentes, como o russo Sergei Loznitsa, o australiano John Hillcoat, o mexicano Carlos Reygadas, o estadunidense Jeff Nichols e o próprio brasileiro Walter Salles.
Pela terceira vez na competição principal em oito anos (Diários de motocicleta e Linha de passe, 2004 e 2008), Salles trouxe a Cannes a tão esperada adaptação do romance On the road (Pé na estrada, o título do filme), de Jack Kerouac, o guru da cultura beat surgida no fim dos anos 1950. Mas o Brasil ganhou mais espaço neste festival: Cacá Diegues com Xica da Silva, Nelson Pereira dos Santos com A música segundo Tom Jobim e Eduardo Coutinho com Cabra marcado para morrer são homenageados especiais da mostra. E é bom lembrar que há 50 anos o país saia daqui com sua única Palma de Ouro, conferida a O pagador de promessas, de Anselmo Duarte.
>>Logo nas primeiras cenas de Um método perigoso, em lançamento hoje na cidade, o doutor Carl Jung toma café da manhã com a esposa, grávida. Eles falam do filho que está para nascer. O que, no entanto, Jung não sabe – mas a montagem e a direção do diretor canadense David Cronenberg antecipam – é que ele também está “grávido”: em sua clínica nas cercanias de Zurique, ele está gestando sua própria criatura, a transtornada Sabina S., a primeira paciente que se submeterá à “cura por meio da fala”. Que esta criatura logo se converta em um perigo para Jung e também para seu mentor, Sigmund Freud, não faz mais do que reforçar a ideia presente em grande parte da filmografia de Cronenberg: a criação como uma ameaça, como um corpo estranho que cobra vida para mais além dos desejos de seu criador.
As razões ocultas e doentias que às vezes explicam o comportamento humano sem dúvida configuram em boa medida a obra do cineasta. Em sua já distante versão de A Mosca (1986), o próprio Cronenberg fazia uma participação especial em cena tão rápida quanto significativa: ele era um obstetra que, para seu próprio horror, extraia do útero de seu paciente um ser monstruoso. De lá para cá, ele tem sido o parteiro encarregado de dar à luz os temores mais profundos do inconsciente. E outra coisa não faz Jung (Michael Fassbender) com Sabina Spielrein (Keira Knightley) desde a primeira sessão da cura pela fala. Ele vai se surpreendendo com os resultados imprevisíveis, enquanto as manifestações físicas da paciente se transformam em retorções convulsivas que querem dizer o indizível, tentando expulsar um alienígena que teima em não subir à superfície.
Aos poucos, e graças à terapia, Sabina S. se torna Frau Spielrein, bela e socialmente apresentável, a ponto de, incentivada pelo próprio Jung, seguir seus passos como psicoterapeuta. Mas uma tormenta desaba na alcova de Sabina, onde ela e Jung, agora amantes, se entregam a jogos sadomasoquistas que são recorrência da flagelada infância de Sabina na Rússia. A criatura vai aumentando o poder sobre um titubeante criador, da mesma forma que o discípulo desafia o mentor: desde o momento em que chega pela primeira vez à casa de Freud (Viggo Mortensen), Jung não faz outra coisa senão enfrentar a autoridade paterna metaforizada na figura do médico vienense. Em cena paradigmática à mesa de jantar, ele é o único que se põe a comer sem pedir permissão ao criador da psicanálise.
No fartamente documentado e bem tramado roteiro de Christopher Hampton, baseado em peça de sua autoria, por sua vez baseada em controvertido livro biográfico de John Kerr, também se podem encontrar antagonismos de classe entre um e outro. Jung é o despreocupado herdeiro da fortuna de sua rica mulher, enquanto um inquieto Freud trabalha para prover uma família numerosa. E à medida que as diferenças teóricas se acentuam – o filme valoriza e dramatiza com muito acerto a correspondência entre ambos –, também pesam questões de origem. Em Freud, sobretudo, que recomenda a Sabina “nunca confiar totalmente em um ariano”, referindo-se a Jung.
Conduzido sempre no fio da navalha, Um método perigoso é um filme com notável esforço quanto à objetividade no tratamento de tema espinhoso – a começar pelo título muito adequado. Submergir na intimidade sexual das pessoas, mesmo que para ajudar (como médico) ou para dar impulso à ciência (como investigador), pode produzir transtornos nos “curadores”, já que resulta difícil manter equilíbrio mental e necessária distância. O trio central de intérpretes cumpre com bravura seu papel, descontada certa dosagem over de Miss Knightley.
Vez ou outra é até saudável um retorno ao colégio. Uma pausa assim meio tresloucada para ver como andam as coisas na ensandecida Hollywood desta segunda década deste 21º século. Entre as frentes comerciais mais conhecidas estão o quintal hiperativo dos super-heróis, as calibradas comédias românticas, a ação extravagante e sanguinolenta, o terror hiperbólico. E há, claro, o filão teen, no qual parece caber de tudo um pouco. Ah, e existem os teimosos remakes, a autoelegia que mira todos os gêneros, que exuma tudo que pareça rentável.
Anjos da Lei, uma das estreias de hoje, está longe de ser uma refilmagem da série televisiva que a Fox Network produziu entre 1987 e 1991, com reconhecido sucesso entre o público juvenil nos Estados Unidos e colônias ao redor do mundo, desde sempre famintas devoradoras de extensas temporadas. Obviamente exibida também no Brasil, tornou-se famosa por contar as aventuras de um esquadrão especial de polícia constituída por jovens agentes, especialmente treinados para se infiltrar no meio estudantil e investigar crimes ali cometidos. E é também lembrada por ter catapultado a carreira de Johnny Depp, que interpretava um daqueles infiltrados. Tim Burton o salvou do rótulo de “ídolo juvenil”, ao lhe presentear com o personagem-título em Eduardo Mãos de Tesoura.
Restou muito pouco do original. A ideia-base permanece – policiais novatos se fazem passar por estudantes secundários. Que eles também já foram, não faz muito tempo. Mas agora eles estão por conta do clássico (melhor usar tradicional, para não confundir as coisas) pastelão estudantil, saturado de alusões aos genitais, aquilo que pode ser classificado como humor de banheiro. Há aquele anedotário com piadas mais tontas que grosseiras. Homofobia e misoginia também comparecem, evidente. E mais os ingredientes desta subespécie de comédia dos tempos atuais, endereçada ao alentado segmento de público adolescente com idade mental de 12 anos, em média, e que não parece merecer respeito, a julgar pela exiguidade do engenho investido para divertir os jovens em questão.
Há vários lembretes satíricos. Alguns eficazes, como a aluna que se parece muito pouco com aquela que a dupla de policiais convivia não faz muito tempo: culpa de Glee, dizem. Outros não passam de paródia fácil sobre lugares comuns da televisão e do cinema. A fórmula final do filme pode ser resumida como um mix de buddymovie, ou personagens aparentemente antagônicos que acabam dando certo como dupla. Há um tanto de Loucademia de Policia, outro tanto de ação descabelada, muito de imaturidade adolescente. Intrigas, garotas, humor físico, irreverência, rivalidade, brigas, reconciliação. O tom permanente é de farsa tosca. Dois nomes assinam esta aventura que terá retorno certo nas bilheterias: Phil Lord y Chris Miller. Fazem apenas o necessário para manter o ritmo vertiginoso, depois de um início arrastado. Pensando bem, não é tão saudável o retorno ao colégio.
Aos 71 anos, o diretor australiano Bruce Beresford, que assina este O último dançarino de Mao em lançamento hoje na cidade, tem uma longa folha corrida como homem de cinema (produtor, roteirista, diretor), 51 títulos em meio século de dramas, sua especialidade. Entre a Austrália e Hollywood, uma variedade de temas o transformou naquilo que se convencionou chamar de artesão. Vale dizer, aquele cidadão alçado à categoria de factótum, o pau para toda obra, o ser cinematográfico a quem se faz uma encomenda com a certeza de que ela será entregue a tempo e hora, sem complicações. Eficiente na linha de produção, mas também sem brilho.
O último dançarino de Mao tinha endereço certo desde o momento em que o relato autobiográfico do bailarino chinês Li Cunxin se transformou em fenômeno mundial de vendas a partir de seu lançamento em 2003. E o cinema hollywoodiano, em seu mais óbvio viés comercial, soube aproveitar o receituário prescrito pela fonte. Entremeado por um constante esforço épico-sentimental entre inofensivo e lacrimogêneo, o filme pode ser sintetizado através do olhar turístico de um estrangeiro, condicionado por preconceitos éticos e estéticos alheios a uma realidade que ele não compreende além de sua dimensão mais prosaica e superficial.
Beresford, cujo melhor momento como realizador ocorreu em 1989 com Conduzindo Miss Daisy, carrega nas tintas do melodrama que envolve a superação pessoal do bailarino Li Cunxin, que venceu toda sorte de resistências pessoais e institucionais para superar as adversidades e tornar realidade um sonho aparentemente impossível. A superficialidade é a tônica desta epopeia centrada no exemplo legendário do talentoso e persistente bailarino, que sem dúvida merecia mais do que esta dramaturgia preguiçosa, engordurada por clichês e reviravoltas de telefilme, além de comprometida com a lágrima fácil arrancada com a lei do menor esforço.
Com argumento similar a O Sol da meia noite (1985), O último dançarino de Mao é cinema vazio de matizes, politicamente tendencioso e termina preso nas armadilhas do maniqueísmo mais pueril para enfatizar um drama que, por si só, não necessitava ênfase de qualquer espécie. A história se venderia tão somente por seus valores intrínsecos e por sua inquestionável exemplaridade. Pena que Beresford a maltrate com tão pouca arte e gosto cinematográfico tão questionável.
Como ator, o estreante Chi Cao é um estupendo bailarino – e as boas sequências do filme são quando ele está no palco, luzindo em coreografias consagradas pela história do balé clássico e contemporâneo. Como pontos de interesse no elenco, duas menções: o coreógrafo vivido por Bruce Greenwood, porta-voz das risíveis virtudes dos EUA da era Reagan como um improvável paraíso de liberdade e democracia. E a sempre ótima Joan Chen, mãe do personagem, revelada há 25 anos em O último imperador, de Bernardo Bertolucci.
No mínimo curioso o comportamento das distribuidoras ao batizarem no Brasil seus produtos. Quando não há disparates na invenção de títulos “traduzidos” aleatoriamente, isto é, inventados ao sabor de apelos de bilheteria, deixa-se de lado qualquer tradução não literal, esquisita ou não, e o original é mantido. Além de evidenciar a vassalagem e o tributo à língua estrangeira (sempre o inglês), despreza-se uma tradução literal que pode ser a única e melhor solução. É o caso deste excelente Shame, que estreia hoje em Londrina. Sem qualquer hesitação, Vergonha era mesmo o melhor título.
Elegante, charmoso, impecável. Brandon está ali pelos trinta e alguma coisa. É bem sucedido. Tem um ótimo trabalho. É um vencedor, na aparência. E é um viciado em sexo. De repente ele recebe a visita da irmã mais nova, que pretende passar um tempo. Claro que a presença dela desarruma todo um plano de vida em andamento.
Neste seu segundo longa metragem (o primeiro foi Hunger), o inglês Steve McQueen de novo arrisca um mergulho nos abismos da complexidade humana, o que faz dele um dos diretores mais interessantes do circuito alheio ao público massivo e dispersivo. O que de fato é comovente neste filme que ano passado sacudiu o marasmo do Festival de Veneza é o desenho feito do protagonista a partir de uma sutil disseminação de informações sobre sua pessoa, escassas mas perfeitamente estabelecidas para informar as causas da intrigante bipolaridade de seu comportamento.
McQueen não faz julgamentos ao entrar na rotina de sexo-dependente do personagem. Nada de lição de moral. Nada de impostura. O espectador dificilmente sentirá simpatia por Brandon, porque assiste impotente como o personagem deixa escapar a possibilidade de preencher uma vida vazia, prisioneiro da necessidade de manter uma falsa identidade para construir um simulacro de vida. E como tantos dependentes, Brandon também quer deixar o vicio: num ataque de fúria repentina, joga fora sua coleção de revistas, seus brinquedos sexuais e seu PC carregado de pornografia.
Não importa que alguns recursos de cena mais óbvios definam o personagem – como seu apartamento impessoal, esquálido em decoração e retrato de alguém sem referências emocionais. É o rosto do ator Michael Fassbender que deixa entrever a danação interior de alguém aprisionado por impulsos que deve sempre seguir. Seus sorrisos decoram sem sentido a máscara estereotipada. E a seu lado, a irmã não menos atormentada, vivida pela também estupenda Carey Mulligan, às voltas com uma personagem que deve suportar diariamente a adversidade para conseguir uma mínima razão para se levantar na manhã seguinte.
McQueen demonstra uma maturidade criativa surpreendente para quem assina um segundo longa, dominando a câmera tanto na explicitude como na contenção visual. Não obstante a sordidez ao redor, há vislumbres de rara beleza, como Brandon correndo altas horas pelo coração de Nova York, a megalópole que acolhe todas as atitudes, todas as atribulações da alma.
Premiado em Veneza e vários outros festivais, Michael Fassbender ficou de fora do Oscar. O sexo, tão presente na ociosidade hollywodiana, não interessa quando é abordado com seriedade e ao largo de hipocrisias.
Recado urgente e inadiável aos admiradores do cinema alternativo, aos que preferem o cinema comercial ou àqueles que são pura e simplesmente amigos fiéis do cinema, enfim a todos que acreditam no poder de empatia da imagem cinematográfica: eis aqui uma obra obrigatória.
O humanismo e a clarividência que respira o cinema iraniano ao tratar de temas importantes somente podem ser comparados com a alta qualidade de seus aspectos técnico-artísticos. A Separação, uma dos mais significativos lançamentos de 2012, é prova disso. Sem renunciar a uma trama de ficção tão atraente quanto envolvente para qualquer tipo de publico, o filme que estreia hoje no circuito local consegue traçar um quadro social e antropológico criado por um diretor-autor, Asghar Farhadi, que sabe se posicionar atrás da câmera para deixar que seus personagens e suas imagens falem por si.
O cineasta torna fácil o difícil ao traçar um retrato matizado de indivíduos que se valem da verdade para sobreviver, ao mesmo tempo em que mostra um Irã que se impõe com um elementar sistema legal e uma humilhante situação da mulher. Estamos diante do difícil equilíbrio entre justiça e moral, entre assuntos civis e de religião, entre a verdade manifesta e a encoberta, entre os motivos que um marido e uma mulher expõem quando pedem o divórcio. Eles são Nader e Simin, casal que se respeita e se ama, mas que discorda quanto a sair ou não do país. Partir é abrir horizontes para a filha adolescente Termeh; ficar é cuidar do pai (dele) com Alzheimer.
É uma questão menor que poderia ser resolvida entre quatro paredes, mas que termina no tribunal. O juiz nega o divorcio, eles se separam assim mesmo. Simin fica na casa dos pais, enquanto Nader é forçado pelo trabalho a contratar a ultraortodoxa Razieh para cuidar do pai. A complexidade da vida e os interesses particulares vão se encarregar de construir conflitos e denuncias construídas sobre mentiras, ainda que sejam para proteger indefesos.
Um roteiro extraordinário (do próprio Farhadi) serve para, aliado à agilidade narrativa e a uma direção realista, esmiuçar uma sociedade na qual assuntos de consciência pesam muito, e honra e religião determinam o comportamento nos mínimos detalhes. Humanismo e delicadeza extrema ao debater uma realidade difícil, interpretações frescas e espontâneas carregadas de olhares cheios de vida e verdade, e um enorme respeito quanto a não julgar ninguém e manter em suspense a ultima palavra: estes são apenas alguns predicados deste filme magnífico.
Menos conhecido no Ocidente do que seus colegas Abbas Kiarostami e Jafar Panahi (atualmente cumprindo prisão domiciliar de cinco anos em Teerã, considerado inimigo do regime dos aiatolás), Ashgar Farhadi construiu em A Separação um painel sobre os complexos costumes sociais iranianos, sobre o embate entre mulher e justiça, entre valores modernos e tradicionais, entre riqueza e pobreza, entre famílias educadas à moda ocidental e aquelas sob o rigor islâmico.
A Separação não é um filme moralista no sentido de sinalizar ao espectador para que respeite os princípios morais. Mas é moralista quando questiona a ética e suas contradições contemporâneas. E esta muito provavelmente é sua maior virtude.
Os contos de fadas escritos pelos irmãos Grimm são na maioria recopilações de lendas da Europa central. Examinadas mais de perto, são recheadas de crueldades e fatalidades pouco palatáveis para o público infantil. São relatos obscuros repletos de mortes e sofrimentos. Ah, e também de príncipes e princesas. Alguma coisa de toda esta essência perversa persiste em Espelho meu, espelho meu, embora o tom do filme que estreia hoje no país, Londrina inclusive, seja mais de paródia do que de tragédia. Aqui, a arquiconhecida história de Branca de Neve e sua egocêntrica madrasta funciona como uma farsa estacionada em algum ponto entre a frieza e a comicidade – embora não em demasia.
Estamos em tempos revisionistas. E se Chapeuzinho Vermelho já havia recebido sua cota de subversão, tanto em filme com atores como em animação, este ano temos dois momentos nada convencionais com Branca de Neve como protagonista: este, em que a donzela divide visibilidade com a rainha malvada em pegada light, e uma versão mais heavy, Branca de Neve e o Caçador, prevista para 1º de junho no Brasil, na qual o caçador Chris Hemsworth não só poupa a vida da heroína Kristen Stewart como se transforma em seu protetor contra a odiosa rainha Charlize Theron.
Em Espelho meu... tudo começa com um pequeno resumo feito em animação – de longe o melhor de todo o filme, o que aliás não chega a ser grande coisa. Neste prólogo, a rainha explica como conseguiu a posse do trono e como pretende conservá-lo sendo a mais bela do reino, em relato obviamente feminista. Espelho meu... está narrado do ponto de vista dela. Interpretada por Julia Roberts, a vilã se mostra ornada com peculiaridades e pequenas obsessões vaidosas. Com seus conhecimentos de magia negra, ela mantém tudo sob controle. Frequentemente uma poderosa força cinematográfica e uma intérprete carismática, aqui Roberts em nenhum momento consegue livrar sua atuação de uma série de tiques com os quais ela parece se encantar, mas que resultam inconvincentes.
Endereçada também às crianças, alvo principal das cópias com a habitual péssima dublagem que de resto domina todos os lançamentos, esta versão entrega ao público menor os mesmos personagens do clássico de Walt Disney. São os mesmos de fato, mas configurados de forma diferente. A saber: os sete anões preferem antes roubar pelos caminhos do bosque do que ser mineiros (“é mais rentável e dá menos trabalho”, eles argumentam). E até se transformam em pessoas crescidas. Branca de Neve (Lilly Collins, filha de Phil Collins) é mulher de lutar, literalmente de empunhar armas. Alcott, o príncipe que se apaixona por ela, interpretado por Armie Hammer (atualmente filmando The lone ranger/O cavaleiro solitário ao lado de Johnny Depp como o índio Tonto), está prestes a se casar com a rainha. O povo está duramente castigado pela crise e pelos altos impostos. O leal súdito e caçador que deve assassinar Branca de Neve é Nathan Lane, o personagem com mais textos humorísticos no roteiro. E por aí vai.
Não que o filme reinvente a popular história. Também não é sátira à produção do velho titio Disney. Ao combinar puro luxo exterior com rala substância, e elementos de comédia com fantasia romântica, o filme oferece seus próprios (e discutíveis) códigos na tentativa de modernizar o discurso, isto é, Branca de Neve e os anões trabalham a possibilidade de mudar seus destinos, vingar os maus tratos e obter um final feliz. Pena que o roteiro não tenha sabido armar um filme um pouco mais inteligente.
Nenhum homem é uma ilha, disse alguém, creio que John Donne, que escreveu Por quem os sinos dobram. A citação, como tábua de salvação dos solitários do universo, era puro verniz intelectualóide-filosófico em roda de bar da moda, fim de noite, anos 1960/70. Mas me lembrei dela, agora que vi O Guarda, impagável comédia policial irlandesa que entra hoje no circuito local. E a reutilizo dentro do espírito demolidor do próprio filme.
Sim, porque o sargento Gerry Boyle, protagonista deste filme absurdamente mal lançado no Brasil em fins do ano passado, se não é esta ilha fica muito perto disso. E fica porque gosta. Ele é um policial preguiçoso, beberrão, promíscuo, iconoclasta. Mais amante da cerveja e das mulheres que da ordem. E iconoclasta, astuto e nada ortodoxo é também O Guarda, uma ilha de felicidade cada vez mais rara num panorama de cinema mundial via de regra desanimador. São tão poucas as verdadeiras comédias contemporâneas inteligentes, realmente divertidas, com este toque deliberadamente subversivo, que o gênero parece agonizante, nestes tempos de crises econômicas reais e disparatadas visões de catástrofes variadas.
Quem leu a sinopse que circula hoje na mídia que não se engane: O Guarda é filme muito mais complexo e inteligente do que se pode concluir pelo resumo de sua trama. Porque é nos vincos e detalhes, nas inflexões e nuances que ele percorre seu caminho de surpresas, um caminho exemplarmente eficaz tanto na construção dos personagens como em sua escritura, leia-se diálogos e tiradas humorísticas. Este filme de estreia do diretor londrino John Michael McDonagh parece cravar os olhos no espectador com o mesmo olhar sardônico e falsamente ingênuo com que o sargento Gerry Boyle observa tudo à sua volta.
Comédia de humor negro no mais puro e raro sentido do termo, cínica até além dos limites, O Guarda brinca com os estereótipos e os manobra com ritmo tão tranquilo quanto apaixonante. A propósito de ritmo, este Boyle parece até o Maigret de Simenon, mas um Maigret irlandês de corpo maciço, enorme apetite, ranzinza, um Maigret de permanente e descarada incorreção política, alguém forjado na áspera argila daquela terra batida pelo mar e pelo vento, alguém capaz de lances de impulsos de altruísmo e de pudica empatia.
Tácito aliado do IRA e autoridade intolerante, Boyle terá que trabalhar ao lado de um agente americano do FBI, o negro Emmett (Doyle também é racista), alguém vagamente aborrecido em razão do acúmulo de regras que deve seguir. Junta, mas frequentemente dividida, esta dupla improvável deve afrontar uma gangue de traficantes de drogas que parecem saídos dos cursos de pós, mestrado ou doutorado em crime por Oxford ou Cambridge: sem escrúpulos, cruéis e violentos, mas sempre capazes de citações cultas e referências filosóficas. Um assombro de erudição criminosa.
O excelente Brendan Gleeson, em papel feito em idêntico talhe para sua imponente medida, usa, abusa e desfruta de seu talento em plenitude. Impressão que ele transmite desde a primeira cena, criando este policial irlandês até a medula, alguém que despacha no pub mais próximo à delegacia, e que desfruta da nostálgica tranquilidade de uma pequena cidade do interior onde a novidade mais recente foi a chegada da televisão. Atenção a este imenso ator (que muitos aprenderam a admirar em Na mira do chefe, que já começa a se consagrar e a merecer prêmios importantes por suas inspiradas performances. Don Cheadle colabora e muito para o perfeito funcionamento da dupla.
O que poderia ter sido um filme naturalista e encharcado de sangue, sensacionalista e de imediato descartável como qualquer subproduto serial trash, muda de perspectiva na visão fria e cerebral da diretora escocesa Lynne Ramsay e resulta em poderoso drama impressionista sobre culpa, arrependimento e perda. Um brilhante exercício de estilo que intriga e causa perplexidade. Esta adaptação da novela da escritora Lionel Shriver, Precisamos falar sobre o Kevin, em lançamento hoje na cidade, surge aos olhos assombrados do espectador como uma inteligente, sóbria e humana introspecção.
Eva Khatchadourian – Tilda Swinton, absurdamente desprezada pelas considerações da Academia para o Oscar deste domingo – foi uma mulher boêmia, livre e feliz com ela mesma. Mas este seu lado light e de bem com a vida se transformou de maneira radical quando engravidou do marido Franklin (John C. Reilly, em interpretação tão honesta quanto fragilizada). Após a chegada do bebê Kevin (vivido primeiro por Rock Duer, depois Jasper Newel e afinal pelo simétrico e magnético Ezra Miller, os dois últimos definitivamente com olhos malignos), Eva mudou de comportamento, e sua existência passou a ser regida pela dor. E dor em muitos sentidos, dor mais e mais aguda com o passar do tempo: Kevin desde sempre se revelou menino chorão e manipulador, e o que é pior, capaz de abalar seriamente o equilíbrio da mãe, que por sua vez parecia não querer lidar com ele. Kevin nutriu sempre dissimulada afeição pelo pai e a irmã menor, Celie (Ashley Gerasimovich), e de resto era um monstro com Eva. O garoto jamais gostou de ninguém e de nada – ou quase, já que adorava arco e flecha...
No fundo e na forma, a manufatura da trama é engenhosa e, embora intrincada, não se perde em espirais de pedantismo acadêmico ou impostações estilosas. Como é um filme não sobre Kevin, mas sobre a mãe que não queria ter filhos – a rejeição é uma forte possibilidade a considerar, mesmo que ela nunca diga –, tudo é vivido através da angústia da personagem por meio de pequenos fragmentos, que vão refazendo os fatos que a colocaram em situação praticamente de miséria. Todos os elementos de tragédia grega made in USA estão aqui; a opulência domestica que supre (?) a total falta de conexão, a violência gratuita e as consequências de um crime que Eva assumirá.
A diretora Lynne Ramsey fez um filme duro, seco, angustiante, desconfortável, com imagens depressivas que desesperam e incomodam. Imagens que na superfície não dizem grande coisa, mas que na verdade significam muito: elas são a antessala de algo muito grave que parece não chegar nunca, mas que está em evolução e fatalmente ocorrerá um dia. Há algo espantoso naquela casa, mas não é qualquer atividade paranormal. É uma família que finge querer ser o que não é: Eva finge ser mãe, mas na verdade gostaria de curtir aventuras na França, só não revelando o desejo de liberdade por medo de que a odeiem; Franklin finge ser o paizão, quando na verdade é um joguete; e o raivoso Kevin finge que é humano. O único ser real é a garotinha, mas sua inocência não é garantia para o dia de amanhã.
Como Eva, Tilda Swinton oferece uma atuação descarnada e desoladora. Um recorte, aliás, que ela domina com total majestade. Sem dúvida a atriz, em grande medida, é também responsável por este terrível e belo filme, que reúne todos os mitos sobre a maternidade que o cinema entregou durante décadas e simplesmente os dinamita na cara da plateia atônita.
Radu Mihaileanu, cineasta romeno radicado na França, dirigiu um filme destemido sobre o papel da mulher no mundo islâmico. É um mix de comédia e drama. Ele também coescreveu o roteiro. Escreve bem e dirige bem. Quem frequenta os caminhos periféricos à margem do cinemão comercial sabe do que falo, pois com certeza já viu pelo menos um de seus três filmes anteriores: Trem da vida, Um herói do nosso tempo e O Concerto, este exibido ano passado no mesmo Cine Com-Tour/UEL que lança hoje A fonte das mulheres, seu quarto longa metragem.
A ação se situa num vilarejo de país indeterminado, Oriente Médio ou norte da África. Nesta aldeia, ordena a tradição que, desde tempos imemoriais, as mulheres devem buscar e carregar água em pau de canga atravessado nos ombros para abastecer suas casas. A fonte fica no alto da montanha, e a tarefa, dura, resulta especialmente pior sob sol inclemente. O drama se acentua ainda mais quando se sabe que muitas delas, grávidas, perderam seus bebês enquanto transportavam a água morro abaixo.
Cansada e revoltada com a situação, a jovem, bela e esclarecida Leila (Leila Bekhti), casada com um professor, propõe às outras um protesto, uma greve, um pacto de abstinência sexual até que os homens, que passam o dia em ócio improdutivo e portanto indigno, mexam seus traseiros inertes e se comprometam a levar eles mesmos a água ou pressionar para que o governo atue.
Concorrente à Palma de Ouro ano passado em Cannes, A fonte das mulheres proporcionou a mais alegre e divertida entrevista coletiva do festival, uma espécie de happening. O time principal de atrizes, com roupas típicas como aparecem no filme, preencheu toda a mesa, cercando o diretor. Mihaileanu não negou sua inspiração óbvia, a clássica comédia grega antibélica Lisístrata, de Aristófanes.
O argumento foi filmado com sensibilidade, e há um permanente tom amável em que pese a presença constante de temas duros como os maus tratos domésticos. Há um drama subjacente, mas o tom de leveza prevalece mesmo quando se coloca o revisionismo do Corão acerca de tópicos da cultura muçulmana. Mihaileanu trata com inteligência o tema central, a guerra dos sexos, e a necessidade de aplicar respeito, amor e métodos pacíficos no momento de reivindicar mudanças daqueles elementos da tradição visivelmente caduca. Como fábula e denúncia, A fonte das mulheres resulta agradavelmente ingênuo (quase naif) e firme a um só tempo, além de charmoso pela sensibilidade com que retrata suas mulheres protagonistas.
O filme contrapõe a sociedade arcaica da região com a chegada de alguns apelos da modernidade, como o celular empunhado pela hilária personagem Velha Fuzil (a ótima cantora, dançarina e atriz argelina Biyouna), montada em pelo de burro. Ou a paixão das protagonistas por uma telenovela mexicana cujas frases repetem em rigoroso espanhol (o filme é todo falado em delicioso árabe).
Como demonstrou em seus trabalhos anteriores, a especialidade de Mihaileanu é combinar lágrimas e risos, o que consegue novamente com desembaraço. Ainda que o pano de fundo seja frequentemente dramático, algumas sequências são muito divertidas. E também é habitual que ele componha um filme coral, atribuindo muita importância a grande número de personagens. Como sempre, consegue dar profundidade à maioria deles, para isso recorrendo a um elenco desconhecido da maioria do público, mas muito afiado.
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