Quinta-feira, 23 de maio de 2013
- Londrina:Baixo Clero
Política e InformaçãoNa noite de segunda-feira, horas depois da prisão do advogado, ex-presidente do PV e ex-assessor da Câmara, Marcos Colli, escrevi nesse espaço um editorial recomendando cautela na cobertura, defendi a presunção de inocência e até citei o caso Escola Base, esse fantasma que vai perseguir os jornalistas brasileiros por toda a eternidade. Não recuo um milímetro na cautela que preguei aqui antes. E creio que ela tenha que ser mantida para evitar sensacionalismo barato com uma situação tão grave e dramática – principalmente para as vítimas. Mas depois de dois dias ouvindo pessoas, tentando entrevistas e procurando informações, concluí que o caso de Marcos Colli está a um oceano de distância da Escola Base.
As reações dos que investigam são de surpresa e asco. Gente que teve noite mal dormida com o que viu e ouviu. A sinceridade e o medo das mães das crianças – parte considerável é de crianças, não de adolescentes – é muito real. E as investigações, que começaram há cerca de seis meses, têm consistência. Logo, a comparação com a escola infantil que ruiu em São Paulo devido à irresponsabilidade da imprensa, caso no qual um delegado passava o dia inteiro dando entrevistas e só movimentava o inquérito do armário da sua sala para a sua mesa – ficava numa boa posição para as imagens – é uma injustiça com os investigadores de Londrina.
Reportagem a ser publicada na edição desta quinta-feira do JL traz o relato de uma mãe de vítimas e o desabafo de outra. Não é preciso dizer muito mais do que isso. O caso é sério e grave e precisa ser tratado com seriedade.
Como mostra reportagem publicada hoje pela manhã no JL on line, os materiais e computadores apreendidos nos endereços do advogado, ex-presidente do PV e ex-assessor da Câmara, Marcos Colli, estão abrindo novas linhas de investigação. O delegado Alan Flore disse hoje pela manhã ao JL que há um número “expressivo” de vítimas de abuso sexual que cometidos por Colli.
A divulgação da quantidade de horas extras feitas por servidores da Câmara ano a ano, entre 2008 e 2013, feita no final da semana passada, chama atenção por alguns motivos. Um deles é o seguinte: em 2008, os servidores acumularam 627 horas extras. Se for levando em conta que entre 2009 e 2012 foram realizadas 872 horas extras, o número de 2008 chama mais atenção ainda.
Em 2008 o Legislativo afundou numa crise sem precedentes, com uma renúncia e uma cassação. Cinco vereadores passaram o ano afastados dos seus cargos por decisão judicial. O volume de projetos e requerimentos caiu consideravelmente com relação aos anos anteriores. Mas a quantidade de horas extras foi alta.
Em 2009, por exemplo, quando funcionou a CEI do transporte coletivo, foram realizadas 234 horas extras por servidores. No ano passado, quando funcionaram a CEI da Educação e a Comissão Processante da Centronic, com longos depoimentos, foram realizadas 207 horas extras.
O primeiro quadrimestre deste ano também começou com muitas horas extras na Câmara: foram 193 até abril, mais do que durante todo o ano de 2010. Entre as justificativas estão o funcionamento das comissões especiais sobre distritos e o residencial Vista Bela.
O edital do pregão eletrônico 0008/2012, para a contratação de “prestação de serviços para preparo e nutrição de alimentação (sic)”, que em português significa preparo da merenda escolar, foi republicado sexta-feira, em jornal impresso.
No texto do jornal não dá para saber, por exemplo, que o novo edital estipula o preço máximo em R$ 13,9 milhões, R$ 3,1 milhões a mais que os R$ 10,8 milhões do edital suspenso de fevereiro. Para encontrar esse tipo de informação, só no site da transparência.
Segundo a Secretaria de Gestão Pública, o preço máximo mais alto se deve ao aumento de postos de trabalho e salários, por conta da convenção coletiva dos trabalhadores. Mas como se trata de um preço máximo, pode ser que na hora da disputa entre as empresas caia um pouco.
A nova lei de zoneamento, que faz parte do conjunto das oito leis complementares ao Plano Diretor que já deveria ter sido apreciado até o final de 2008, deve ir para a Câmara entre esta semana [na visão dos mais otimistas] e a semana que vem [no cálculo dos menos otimistas].
Um novo imbróglio à vista diz respeito ao mapa do zoneamento da cidade. Existem diferenças entre o mapa que foi aprovado na Conferência da Cidade e o mapa real da cidade.
A até aqui inaugurada porém fechada UPA da Zona Oeste pode finalmente abrir suas portas ainda neste primeiro semestre. O prefeito Alexandre Kireeff (PSD) deixou escapar essa informação ontem, mas evitou assinalar a data.
Kireeff disse que quando entregar a UPA vai refazer as contas de quantos profissionais já contratou do famoso cálculo de 800 contratações, feito durante a campanha eleitoral. O prefeito disse discordar dos números do “Datapadaria”, que indicam que mesmo com os 432 cuja contratação a Câmara autorizou semana passada, o débito ainda está em 689 profissionais.
A suspeita de envolvimento de um político – ainda que não ocupe cargo eletivo – em suposto crime sexual já é, por si só, uma situação explosiva. Aliás, seria explosiva mesmo que o suspeito não fosse político – bastaria ser uma pessoa pública. Mas sempre é importante lembrar que quando essas situações explosivas acontecem é preciso cautela para não condenar o investigado – seja ele indiciado, réu, denunciado preso preventivamente ou o que for – antes que a Justiça o faça. Essa cautela deve ser adotada principalmente por parte da imprensa para evitar um linchamento prévio, uma condenação sumária.
Vale lembrar de casos como o da “Escola Base”, ou das “Bruxas de Guaratuba”, para reforçar que a imprensa não é tribunal. Quem julga é o Judiciário. Em casos como esse, a imprensa deve se restringir a noticiar e investigar. É por isso que, toda cautela é pouco num momento como esses. Por parte do Baixo Clero, em que pese a impossibilidade de dar a notícia sem que os leitores fizessem a relação com a pessoa que o protagoniza, a postura será a mesma desde o primeiro momento: meramente informativa, sem fazer juízo de valor.
A presunção da inocência deve ser levada a sério e não acenada apenas como se fosse uma bandeira esvaziada de sentido. Nesse sentido, dar espaço para que o suspeito e sua defesa apresentem suas versões é essencial. Desde já ficam abertos os bytes desse blog para que a defesa se posicione no debate público.
A promotora Suzana de Lacerda, da 6ª Vara Criminal de Londrina disse, em entrevista a este repórter, que o assessor da presidência da Câmara, teve a prisão preventiva decretada e que já foi ajuizada uma ação contra ele. “A ação foi protocolada recentemente”, afirmou a promotora. Ela explicou que o segredo de Justiça é decretado automaticamente em casos como esse, principalmente para preservar a vítima ou vítimas.
O Baixo Clero apurou que junto com a prisão preventiva decretada contra o assessor da presidência da Câmara, foram apreendidos computadores dele em mais de um local. Esses computadores serão periciados no processo de investigação.
A suspeita de prática de pedofilia contra um assessor da presidência da Câmara deflagra o primeiro escândalo político do atual ciclo. A ação da direção do Legislativo de afastar imediatamente o suspeito até que ele prove a inocência (ou não) pode evitar que a crise se alastre e contamine o ambiente político. O caso está sob segredo de Justiça por envolver menor de idade.