César Machado/Gazeta do Povo

César Machado/Gazeta do Povo / O produtor Vinícius Lazarini, de Cascavel, confia que qualidade vai garantir interesse dos moinhos pela produção nacional, que normalmente tem baixa liquidez O produtor Vinícius Lazarini, de Cascavel, confia que qualidade vai garantir interesse dos moinhos pela produção nacional, que normalmente tem baixa liquidez

Triticultura recupera viabilidade

Com quebra internacional, Brasil terá de importar 1,5 milhão de toneladas de fora do Mercosul, o que amplia competitividade da safra nacional

21/08/2012 | 00:03 Igor Castanho

No momento em que a colheita dá os primeiros passos, os produtores brasileiros de trigo, que temiam novo revés, se deparam com uma perspectiva de mercado favorável. Os preços melhoraram e, caso o clima não atrapalhe, a qualidade do produto colhido promete agradar à indústria, garantindo a comercialização. Aliado a isso, países que tradicionalmente exportam o grão para o Brasil, como Argentina, Rússia e Austrália, registram quebra climática, o que aumenta a escassez no mercado interno, 50% dependente das importações.

O relatório mensal do De­­partamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) cra­­va: houve queda na produção e o comércio internacional deve movimentar volume 12% menor que as 153 milhões de toneladas da última safra. A Argentina deve colher 11,5 milhões de toneladas (3,5 milhões a menos) e deverá exportar 5 milhões (6,8 milhões a menos).

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Felipe Rosa/Gazeta do Povo / Ingrediente do pão sobe 20% no campo Ampliar imagem

Ingrediente do pão sobe 20% no campo

Clima

Qualidade depende de sol na colheita, que ganha ritmo em setembro

“O trigo só está garantido quando está no armazém.” Com essa afirmação, Modesto Daga, produtor e consultor em Cascavel, alerta para o risco dasintempéries climáticas. Fatores como o vento e as chuvas mais severas podem comprometer a qualidade do grão, reduzindo a classificação e prejudicando as negociações. Apesar dos riscos, a previsão do tempo para os próximos 15 dias minimiza a possibilidade de problemas. A colheita ganha ritmo em setembro e segue até novembro.

Lizandro Jacobsen, metereologista do Simepar, indica que nesta semana a possibilidade de chuvas é baixa. “O tempo deve ficar normal, com sol, e dificilmente deve haver frio”, afirma. “É pouco provável uma virada brusca no tempo, pois a maioria das frentes frias que chegam ao Rio Grande do Sul não têm conseguido avançar em direção ao Paraná”, complementa. (IC)

A redução na oferta afetou os preços no mercado internacional e, com isso, o produto importado perde espaço para o nacional no mercado interno, explica Modesto Daga, produtor e consultor em Cascavel, no Oeste. O câmbio colabora para esse quadro, acrescenta. “Antes a cotação do dólar estava descendente, o que dava boa condição de financiamento ao produto externo. Agora a situação mudou.”

O quadro traz otimismo a produtores como Vinícius Lazarini, de Cascavel, que espera colher um trigo de alta qualidade. “Como não houve intempéries climáticas na região e o mercado mudou, a safra deverá ser boa, e com qualidade.” Sua área, de 350 hectares, deve receber as colheitadeiras em aproximadamente 15 dias.

Os preços praticados no Paraná não deixam dúvida. Na última semana, segundo a Secretaria Es­ta­­dual da Agricultura e do Abas­­tecimento (Seab), a saca de 60 quilos chegou à casa de R$ 30. Em agosto de 2011, a média foi de R$ 25,68. A alta aproxima-se de 20%.

Daga espera incremento ainda maior. “Ao preço de R$ 35 por saca é possível cobrir integralmente os custos de produção, e o mercado deverá se aproximar desse nível”, afirma.

A qualidade do trigo colhido, que costuma ser decisiva para a comercialização com a indústria, não deverá ser um problema neste ano, prevê o presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Es­­tado do Paraná (Sinditrigo), Marcelo Vosnika. “A expectativa é boa e a qualidade deve ser melhor, o que dá garantia de mercado”, avalia. Para ele, a comercialização deverá ser sustentada com preços acima do mínimo (R$ 30/sc). “O aumento não é prejudicial à indústria, que poderá eventualmente repassar os custos ao consumidor. A alta ajuda a garantir a sustentação do setor”, complementa.

Vosnika acredita que, mes­­mo com a mudança no mercado, o país vai precisar importar 6,5 milhões de toneladas de trigo para satisfazer a demanda interna. “A Argentina deve ter apenas 5 milhões de toneladas para exportar, o que faz com que o país precise de pelo menos 1,5 milhão de toneladas de fora do Mercosul”, diz. Nesse caso o custo deve ser ainda maior, pois além dos gastos com frete há a incidência da Tarifa Externa Comum (TEC).

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